ALQUIMISTA POR ACASO

PARTE I

 

            Ocorrem coisas na vida da gente que ultrapassam todos os limites de nossa compreensão e entendimento. Jamais imaginei que aconteceria comigo um fato tão estranho e misterioso que pudesse transformar minha vida da maneira como ocorreu. Trata se de uma experiência fantástica, diria até sobrenatural, vivenciada por mim há alguns anos atrás, que mudou drasticamente os rumos de minha vida para melhor, em todos os sentidos, conforme os fatos que passo a narrar a seguir.

             * * * 

            Sempre fui um bocado sonhador na infância e na adolescência, assim como todo e qualquer garoto que se preze. Entretanto, assim que atingi a idade de dezoito anos, todas as ilusões feneceram, mediante a dureza da vida de um garoto pobre, vindo de origem humilde. Tive que trabalhar, e muito, desde cedo para ajudar no sustento da família.

            Vivíamos num pequeno sítio em Nova Olímpia, uma pequena cidade do noroeste do paranaense. Foi dali que meu pai tirou o sustento dos três filhos – eu e mais dois – numa labuta insana, durante muito tempo, cultivando uma lavoura cafeeira.  Éramos, razoavelmente felizes quando pequenos, não obstante, vivêssemos modestamente. Enfim, nunca passamos grandes necessidades.  Mas, o homem cresce na idade, os tempos e as suas necessidades também mudam de natureza e tamanho. E, não é necessário que para isso concorra qualquer acontecimento especial, senão o natural amadurecimento para a vida.

            Para mim, tudo começou a mudar desde cedo, na década de oitenta, quando eu estava entrando na adolescência, já tendo completado meus treze anos. Nadar naquele poço do rio Bandeira, junto com a molecada ou caçar de estilingue, atirando pedras nos pássaros ou construir as arapucas e armá-las no meio da roça, já tinham perdido o colorido especial que todas essas brincadeiras têm, durante a infância de um menino da roça. Tudo isso agora já não era mais importante.  Eu estava começando a descobrir a vida e o mundo, fora dos limites do nosso sítio. E, como se não bastasse todas as mudanças que a idade provocava em interior, agora ela também me fazia ter uma melhor compreensão da vida, além de me dar uma melhor visão do que acontecia no mundo lá fora. Eu estava deixando de viver apenas o meu mundo e começando a viver o mundo de todos, de casa, do bairro, da cidade. Percebi que estávamos enfrentando uma crise. Meu pai, como todos os que se dedicavam à cultura do café, estava numa encruzilhada do destino. Ele e tantos outros que conseguiram vencer a praga da ferrugem que atacava os cafezais na década de 60 e a cada geada se refazia com esforço de gigante, desde a geada de 75 não conseguira uma situação de conforto no cultivo da terra. O nosso mundo estava mudando e mudando rapidamente. Todo mundo estava abandonando a cultura do café, que já não era mais o filão de ninguém. Depois dos anos de vacas magras, enfrentados pelos cafeicultores, meus pais tiveram que seguir o exemplo de seus amigos e, com muita incerteza e desesperança, tiveram de por fim aos cafezais. Não era mais possível sobreviver à custa da lavoura cafeeira.

A partir de então, nosso pequeno mundo se desmoronou. A nossa pequena propriedade já não mantinha o sustento da família.  Então, entrei para a juventude passando por maus pedaços.  A alternativa seria trabalhar na cidade para completar o orçamento. O problema é que em cidade pequena, do interior, não existia emprego para tanta gente. Assim, foi ocorrendo um enorme êxodo rural naquelas bandas. Todos, assim que podiam, fugiam para as grandes cidades e, a região, em pouco tempo ficou totalmente desolada.

Enquanto isso, eu estava mudando internamente. Externamente meu mundo mudava e mudava o mundo de todos. O tempo passava como uma torrente de inundação levando a todos para rumos incertos e ignorados. No ano de 1991, ao completar 18 anos, chegou a minha vez de procurar o meu rumo. Não tinha mais condições de permanecer ali.

Por esse tempo, instalou-se na nossa pequena cidade de Nova Olímpia uma empresa do ramo de confecções. Ela apareceu como uma dádiva dos céus e, foi desde então, a maior fonte de emprego da região, alimentando as esperanças daqueles que não mais conseguiam sobreviver na lavoura. Mudamo-nos para a cidade e procuramos nos inteirar do ofício. Eu e a Miriam, minha irmã mais velha tivemos mais sorte. Conseguimos o emprego. Meu irmão Thiago precisou ficar ajudando meu pai na lida com o sítio que agora havia se transformado em área de pastagem.

Trabalhei por mais de dois anos na empresa como costureiro. No começo tinha um certo preconceito contra aquele trabalho, pelo fato de ser homem, mas depois, como a maior parte dos funcionários era do sexo masculino e todos na cidade achavam normal trabalhar na fábrica, aceitei o ofício com resignação.  Afinal, era um trabalho honesto, além de ser o ganha pão de muitos cidadãos humildes, desempregados do meio rural da região.

Entretanto, não demorou muito tempo para que eu delineasse novas perspectivas para minha vida. O salário de costureiro era muito baixo. A metade era destinada para colaborar com o sustento da família e o restante era para uso próprio. Assim, muito antes do mês findar o dinheiro já tinha acabado.

            Enquanto estive trabalhando na fábrica, fiz amizade com um mecânico industrial que fazia a manutenção das máquinas da fábrica. A profissão dele me interessou. Primeiro porque ela tinha tudo a ver com trabalho de homem e, segundo, porque fiquei sabendo que o ganho dele como mecânico, somava três vezes o meu salário. Conversa vai, conversa vem, durante suas visitas à fábrica, cheguei à conclusão de que eu levava jeito para a coisa e decidi que iria aprender aquela profissão.

Segundo o Sérgio – esse era o nome do mecânico – eu teria que me mudar para a cidade de Cianorte, cidade sede da empresa, para que tivesse acesso aos cursos de mecânica industrial para iniciantes. Esses cursos eram patrocinados pelos empresários do ramo de confecções, em parceria com o poder público municipal. Assim ficamos combinados que, quando abrissem novas inscrições para o curso, o Sérgio me avisaria por telefone e eu me mudaria para Cianorte.

            Cerca de três meses depois, lá estava eu, numa pequena pensão da cidade em busca de uma perspectiva de melhorar a vida. Como já tinha uma boa experiência como costureiro, foi muito fácil arrumar emprego em uma das muitas confecções daquela cidade que já era conhecida como a capital do vestuário naquele tempo.

            De igual maneira, com a ajuda do Sérgio também foi muito fácil ingressar-me no curso de mecânico industrial.  Difícil foi suportar a solidão num mundo que até então era novo para mim. Longe da família e dos colegas de infância, a saudade começou a bater forte. Convivi durante minha infância e adolescência no seio da família e cercado das mesmas pessoas de sempre, na pequena cidade de Nova Olímpia, onde quase todos me conheciam e eu conhecia quase todos.  Tanto os familiares quanto os amigos, eram  pessoas que faziam parte do meu mundo desde que nasci. Laços profundos de amizade e solidariedade nos uniam. E, não era fácil cortar tais laços, definitiva e repentinamente. Enquanto estive em Cianorte, esperava ansioso que chegasse o fim de semana para que eu pudesse voltar para junto dos meus.  De um trecho da estrada ainda muito distante, era possível avistar no horizonte a minha cidade. Bastava enxergar a silhueta dos prédios e o tom avermelhado dos telhados das casas, para que começasse a me sentir em casa. Era essa sensação gostosa de ser mais eu mesmo, internando para dentro do meu mundo, que me levava de volta pra casa todos os fins de semana. Foi essa experiência, repetida tantas vezes, que me fez sucumbir diante da angústia trazida pela solidão, longe de casa. Bastaram apenas dois meses para que a saudade fizesse germinar e amadurecer a decisão de voltar para casa.  

E, lá estava eu, de mala e cuia, voltando de novo para a pequena Nova Olímpia. Estava decidido e conformado com o retomar daquela vidinha de antes. Em casa podia faltar muita coisa, mas não faltava aquela alegria que só o contato da família e dos velhos amigos podem proporcionar. Entretanto, nem me passou pela cabeça pensar que, a partir do momento em que  tomara conhecimento de um mundo novo, seria difícil permanecer no mundo de outrora. Fiquei fora do meu mundinho por pouco tempo, mas foi o suficiente para enxergar novos horizontes, tomar consciência da existência de outras opções e outras oportunidades. Certamente que agora, em casa, já não me sentiria tão feliz, tão sossegado quanto antes.  Percebi isso logo nos primeiros dias depois que retornei. Sentia-me desassossegado, naquele mundinho confinado, porque agora tinha consciência de que existiam outros horizontes maiores e mais promissores. E, afinal eu queria ser alguém. Eu queria ter sucesso. Eu queria ser feliz.

Angustiado, me dei conta de que havia me atirado numa armadilha que eu mesmo criara, quando rompi a casca do ovo e saí do meu pequeno paraíso e os meus olhos se depararam com um outro mundo. O coração me amarrava aos meus parentes e amigos, enquanto a razão mandava eu ir embora de novo, em busca da realização daqueles sonhos de grandeza, que a visão de novos horizontes me proporcionaram. Ainda nem havia realizado o sonho de me tornar um mecânico de máquinas e já acalentava muitos outros, agora bem mais grandiosos. Não conseguia mais aprisionar meus sonhos dentro dos limites daquela pequena cidade.

Quis novamente voltar a Cianorte para continuar meu curso de mecânica industrial. Não consegui a mesma boa vontade do amigo Sérgio como aquela com que ele havia me auxiliado na minha primeira tentativa. Certamente que ele não tinha tempo para perder com garotos indecisos, que não sabem o que querem. Foi isso mesmo que ele me disse quando falei com ele no telefone, buscando novamente ajuda. Porém, ele ainda foi gentil e me informou que não havia previsão para o início de um novo curso de mecânico de máquinas. Sua franqueza, entretanto, me ajudou a tomar consciência de que deveria procurar um outro caminho.

Para me desvincular do meu velho mundo de uma vez, senti que precisava ir bem longe.  Nova Olímpia e Cianorte são cidades muito próximas e esse fato não ajudaria em nada no meu intento. Era preciso quebrar os vínculos definitivamente. Assim, o correto seria partir em busca da realização de meus sonhos num lugar mais distante.

Nessa época, soube de algumas histórias de muitos jovens como eu que conseguiram se dar bem na capital do Estado arrumando um bom emprego. Resolvi que iria tentar a vida na cidade grande.  Curitiba poderia ser um lugar ideal para romper de vez os laços com meu velho mundo, ao menos, era bem longe e seria impossível, ainda que quisesse, voltar pra casa todo fim de semana.

 

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