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ALQUIMISTA POR ACASO PARTE II |
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Naquela noite fria de inverno que eu jamais hei de esquecer, sem dinheiro e sem nenhuma formação e experiência profissional, parti para a capital paranaense, motivado pelas histórias que os outros contavam e pela propaganda que, constantemente, apresentava Curitiba como a cidade maravilhosa com um baixo nível de desemprego e de uma boa qualidade de vida. Ledo engano! A realidade nua e crua se apresentou em pouco tempo para mim. Eu não tinha as oportunidades que imaginava. O curso médio - na época chamado Segundo Grau – que eu havia feito não tinha o valor que eu imaginava. Todos os empregadores queriam jovens com experiência. Como eu tinha contas a pagar, visto que morava com outros migrantes do interior em uma modesta pensão, agarrava-me no primeiro emprego que aparecia. Assim, fui levando a vida durante mais de dois anos na capital. Aqueles sonhos de grandeza e ambição foram aos poucos se desvanecendo até exaurir todos os resquícios de minha auto-estima. Diante de todas as amarguras e precariedades que a vida me apresentava foi se instalando em mim uma frustração e uma tristeza imensa. Não demorou muito para que me tornasse um alcoólatra. Percebi que, após tomar uns tragos, o mundo me parecia melhor e eu próprio me parecia melhor e capaz de enfrentar todas as adversidades da vida. Mas percebia, também, que estava virando um bêbado. Não era um bêbado indolente, mas sentia que a bebida aos poucos ia se apoderando de mim e no fundo sabia que esse seria o meu fim. Perdi o último emprego por causa da bebida, assim como perdera outros antes, nos último seis meses, por esse mesmo motivo. Passava noitadas em bebedeiras com a “turma”. No outro dia, quando não faltava ao serviço, chegava atrasado ou a produtividade ficava muito aquém do esperado. Ainda não entendera que estava vivendo num mundo capitalista e globalizado onde, para se dar bem, o cara tem que ser produtivo ou criativo. Eu, que não desenvolvera minha criatividade, agora estava perdendo minha produtividade. Nesse caminho a demissão fica a um passo. Gerou-se um conflito interno muito grande em minha mente, visto que minha família, apesar de humilde, havia me ensinado valores elevados e sublimes que se contrapunham a todas as minhas atitudes naqueles últimos tempos. A essa altura, os meus sonhos pareciam cada vez mais distantes diante da dureza da realidade. Não demorou pra que eu estivesse aumentando com mais um algarismo as tristes estatísticas do desemprego, depois da última noitada. No dia seguinte, quando acordei, o relógio estava marcando, implacavelmente, dez horas da manhã. Pensei: agora não adiante lastimar o leite derramado. Levantei-me e fui até o centro dar um “rolê” - como se dizia na gíria da época, quando se saía de casa apenas para zoar – única opção de quem não tem dinheiro pra gastar. Mas, eu ainda tinha algum e logo mais ia entrar o dinheiro da rescisão de contrato. Após tomar dois conhaques, somados a algumas cervejas para afogar as mágoas que feriam meu ego, fui para a rua XV. Só pra ver a vida passar. Estava um pouco tonto pois a briga do conhaque e da cerveja no estomago, repercutia na minha cabeça. Sentei-me num dos bancos e fiquei observando e filosofando, como podia, sobre os contrastes da metrópole. Riqueza e miséria eram duas faces de uma mesma realidade que se apresentava a mim. Misturavam-se pessoas bem vestidas de paletó e gravata, com uma pastinha na mão, andando depressa, bem sabendo o que queriam e para onde iam; estudantes indo vindo das escolas em grupos fazendo algazarras; garis uniformizados fazendo a limpeza da rua; catadores de papéis com suas roupas em frangalhos com carrinhos lotados de carga mal-arrumada compondo uma imagem grotesca; pedintes estendendo a mão para os transeuntes e velhos aposentados que ali, também, estavam, merecidamente, observando a vida passar. Naqueles grupos que se misturavam, eu sabia muito bem em qual deles estava prestes a me encaixar. E, como isso me doía na minha alma. Olhando tudo aquilo, comecei a lembrar dos meus sonhos de progresso. Sonhava em crescer na cidade grande, ajudar meus familiares. Enfim, tudo aquilo que se passa pela cabeça de todos os humildes e excluídos do mundo, quando partem do interior para uma grande metrópole. Lembrava-me de quanto eu era feliz enquanto não ousei romper a casca do ovo e sair do ninho protetor, que é o seio da família, em busca de novos mundos. Recordei-me dos demais irmãos que ainda permaneciam ao lado de meus pais e dos velhos amigos, felizes em seu mundinho fechado e restrito. É um mundo muito pequeno na verdade; mas é um lugar seguro. Caí no mundo em busca de uma felicidade maior e estava aprendendo a duras penas que a vida é cruel se não se está preparado para enfrentá-la. Ela não dá chance. Estava pensando em tudo isso quando, de repente, senti a presença de uma pessoa sentada ao meu lado. Tratava-se de um senhor em idade avançada aparentando uns setenta e poucos anos que, muito próximo de mim, olhava-me continuamente de relance. Como é de costume na cidade grande, “fiquei na minha”. Não me importei com sua presença, até o momento em que ele puxou conversa comigo. - Bom dia meu jovem! - Oi! – respondi em tom áspero e virei me para o outro lado. - O que o aflige rapaz? Você me parece triste! Sinto uma profunda tristeza em seu olhar – insistiu o homem. Estava pra mandar aquele homem me deixar em paz e “ficar na dele”, mas lembrei-me do que havia aprendido, na infância, com a minha família, sobre como tratar as pessoas mais velhas. Aquele senhor não era culpado pelos meus aborrecimentos. Engoli a seco a minha grosseria, adquirida na cidade grande, e sentindo-me incomodado e um pouco envergonhado, me propus procurar outro lugar para ficar em paz. Antes que saísse o homem continuou sua investida, e dessa vez em tom mais direto. Ele, de fato, queria me provocar. - Sei o que o aflige garoto. Você é mais um desses migrantes que vêm do interior com muitos sonhos de realização; sonhos que, em pouco tempo, se transformam em pesadelo. - Acertei? - É verdade - respondi, já começando a me interessar pelo diálogo e perdoar a chatice do velho. Pareceu-me que ele seria um bom ouvinte para os meus lamentos. Mas ele nem deu tempo pra eu começar a falar e já foi acrescentando: - Na maioria das vezes os sonhos são ofuscados pela dureza da realidade que o mundo nos apresenta – disse. Não é só aqui na cidade grande. Seus pais e todos aqueles chacareiros que foram acometidos pelos desastres que assolaram a agricultura nos últimos tempos, foram também derrotados pelo espírito do desânimo. - Como pode dizer isso se não conhece o meu pai ou meu passado? - Estou dizendo isso porque de uma maneira geral isso acontece com todas as pessoas que desistem dos seus sonhos. Se todos aqueles agricultores não tivessem desistido tão facilmente, tudo podia ser diferente. Ao permanecer com entusiasmo diante das dificuldades, a vida sempre apresenta uma saída favorável. Estou lhe dizendo isso porque li, na sua postura e semblante, que você está desistindo de todos os seus sonhos, da mesma forma que o fizeram aqueles agricultores, quando se concretizou o declínio da cultura cafeeira. Aquele homem já estava me deixando inquieto. Falava como se já me conhecesse. Como se estivesse lendo meus pensamentos. Resolvi desafiá-lo. - O senhor não sabe de nada – respondi-lhe. É uma pessoa de posses como bem se pode observar pelos seus trajes e pelo seu modo de falar e... - Engano seu – interrompeu-me ele secamente – fui, num passado muito distante, um migrante humilde e desesperado, assim como você. Morei perto de sua cidade. Sou de Cianorte, uma cidade do noroeste do Estado que bem deves conhecer. Aquelas palavras me fizeram estremecer. Nada eu havia revelado a ele da minha origem. Parecia que ele estava mesmo, lendo meus pensamentos. - Conheço muito bem Cianorte – respondi prontamente. Morei por algum tempo numa pensão e... - Você estaria bem melhor do que hoje se fosse persistente e se aprofundasse naquilo a que se propôs aprender. No entanto, teve que voltar ao ninho para tomar consciência que não era mais um filhote e que aquele não era mais o seu lugar. - Que é isso – falei de súbito – como ousa falar de coisas que deduz saber a meu respeito? - Não estou deduzindo – disse o homem. Sei de muita coisa que você nem imagina. Sei que você nasceu em nova Olímpia em 1973, que cresceu no sítio de seu pai brincando pelos cafezais e pescando e nadando no rio Bandeira, com os seus colegas, durante o verão. Lá é quente demais no verão e não há quem rejeite um mergulho naquelas águas cristalinas e refrescantes. Um calafrio percorreu a minha espinha naquele momento, como se eu tivesse levado um choque elétrico. Estava diante de um homem que conhecia meu passado. Fiquei atônito! Mil coisas se passaram por minha cabeça naqueles segundos até que fiz uma dedução mais lógica. Imaginei que fosse uma brincadeira de mau gosto. Olhei para os lados para ver se havia alguém da minha turma por ali. Costumava contar minhas vivências aos amigos. Era também uma forma de matar a saudade. Alguém da minha turma podia ser conhecido do velho e lhe ter contado da minha vida. Agora, ele me encontrando, estava querendo “tirar uma onda” pra cima de mim. - Não adianta pensar bobagens, Paulo. Você está diante de alguém que só quer ajudar. Aproveite esta oportunidade porque são pouquíssimas as pessoas que têm uma ajuda de forma tão direta, mesmo porque são também raras as pessoas dispostas a ajudar. Não perca seu tempo com dúvidas, pensamentos e ressentimentos. Tenho que ir logo embora. Meu tempo é curto e você precisa me ouvir. Eu só estou aqui para ajudar você. Realmente, eu já não estava entendendo mais nada. O cara sabia até o meu nome. Absolutamente sem palavras fui me deixando levar pela conversa daquele homem misterioso que me dizia coisas estranhas. - Não sei como sabe destas coisas. Mas afinal, considerando sua idade avançada, creio que não é homem de brincadeiras. Onde quer chegar, senhor?... - Moacir Pacheco – esse é meu nome – disse-me ele. Sou empresário bem sucedido aqui na capital. Entretanto, já fui humilde em outros tempos e assim como você, já caí na tentação de pensar em desistir dos meus sonhos. Fui ajudado por uma pessoa que me reergueu e me transformou no que sou. - Como? – Inquiri. Deduzi que devia ter arrumado um bom emprego. É o que estou precisando hoje: que me confiem um bom emprego. Não foi bem assim – disse-me ele. Confiou-me uma parte num tesouro que havia encontrado no meio de uma mata, às margens do rio dos índios que corta o município de Cianorte. Não agüentei aquilo. Soltei uma imensa gargalhada. - O que é isso? – disse. Já sou bem grande para ficar ouvindo contos de fadas. Tesouros não existem. Muito menos pessoas dispostas a dividi-los, se houvessem. Conta outra seu Moacir. Imaginei naquele instante que aquele velho já estivesse meio caduco e não estava disposto a ouvir suas histórias fantasiosas. Fiz menção de me levantar, mas fui interrompido por uma ordem direta que denotava uma autoridade inquestionável. - Espere aí, rapaz. Ouça o que vou lhe dizer. Depois você pode ir embora. Sem ação, diante do seu semblante severo e insistente, acomodei-me novamente e o homem começou a contar sua história. - Como estava dizendo antes de ser interrompido, fui ajudado por um amigo que me confiou uma parte num tesouro que havia encontrado no meio de uma floresta, auxiliado por uma pessoa, da mesma forma como estou me propondo a fazer com você. Em troca, o meu ajudante desconhecido fez uma única exigência: que eu desenvolvesse e multiplicasse a parte que havia me confiado no tesouro não somente em benefício próprio, mas também em benefício da humanidade. E, por último, que eu repassasse as mesmas informações que me dera, a uma pessoa que eu descobriria, ser o beneficiário igual a mim, num momento de intuição. Deu-me algumas instruções com as quais em pouco mais de dois meses, levaram-me de fato ao tal tesouro. - E que instruções eram essas Sr. Moacir? De acordo com tais instruções, havia naquele local diversos baús enterrados. Entretanto o tal homem me alertou que os tesouros eram encantados pelos espíritos da floresta E, quem ousasse ser ganancioso perderia tudo o que havia adquirido. Apesar de saber que existiam vários baús, cada pessoa só teria direito a um único que, encontrado, deveria ser utilizado da forma que lhe aprouvesse, observando-se o cuidado de utilizá-lo estritamente para o desenvolvimento dos seus dons inatos e para realização dos seus nobres ideais na vida, além de sempre ser solidário aos demais seres humanos. Quem assim o fizesse, seria protegido pelas energias primitivas da natureza, que o ajudariam a multiplicar seu tesouro. Por outro lado; quem ousasse procurar além do que aquele primeiro baú que lhe fora destinado, atrairia toda sorte de infelicidades e desgraças em decorrência de sua ganância inescrupulosa. Eu e meu amigo seguimos fielmente tais instruções e nos damos bem. Você pode seguí-las ou não, mas isso não compete a mim lhe estipular. Posso apenas falar de tais advertências que me foram transmitidas. Não sei verdadeiramente se a maldição é verídica. Entretanto nunca pensei em correr o risco. O tesouro a mim confiado foi o suficiente para que, trabalhando diligentemente, fosse multiplicado no decorrer de minha vida. Espero que você proceda da mesma maneira quando encontrar o seu. O homem deu uma pequena pausa e sentenciou: - Essa história encerra uma verdade que conto pra você sob forma de juramento de que ela é real. Existe um tesouro. Mas lembre-se de que estamos falando de um tesouro encantado. Não pense você que será tão fácil encontrá-lo. Realmente o tesouro só se revelará, no momento em que você se mostrar digno dele. - Que história mais maluca essa – disse-lhe em tom deboche. Quer que eu acredite nisso? - É meu filho – disse-me ele – como já dizia nosso bom Shakespeare: existem mais mistérios entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. - E se eu lhe desse um crédito de confiança. Se acreditasse nisso tudo. O que me proporia? – perguntei-lhe em tom de gozação e desdém. Indiferente às minhas sátiras o homem continuou falando em tom sério como se já houvesse me convencido dos fatos. - Estou passando a você agora uma tarefa que tem um sentido duplo. Eu te ajudo, dando o caminho para um tesouro real e fabuloso e você, em contrapartida ajuda-me a cumprir um pacto a que me submeti em troca dele. Se você analisar profundamente, verá que estás me fazendo um grande favor. Ao passar-lhe os segredos para encontrar o tesouro, estou dando-lhe a chave para uma nova vida que consiste na realização dos seus sonhos mais caros, ao mesmo tempo em que tiro dos meus ombros um pesado fardo. Saiba que pagamos caro quando escondemos alguma coisa somente para nós. Quando não as usamos em benefício próprio e da humanidade ao mesmo tempo, exatamente como se apresenta na parábola bíblica dos talentos. Eu estava completamente atordoado. Não sabia o que dizer diante daquela história insólita. Resolvi que não tinha absolutamente nada a perder. - Pois bem qual é a sua proposta Sr. Pacheco? – Perguntei-lhe, com uma ironia propositada em minhas palavras. - Estou falando, realmente, de um tesouro oculto que está escondido em uma fazenda que foi minha até a uns dez anos atrás, perto da cidade de Cianorte. Você tem que ir até lá, pedir emprego como peão e tentar, por todas as formas, achar o tesouro enterrado ao pé de uma árvore, numa área de mata nativa, que foi preservada por mim e por todos os meus precursores, a fim de preservar oculto o nosso achado. - Como posso acreditar em tal história? E se o senhor estiver blefando e eu fazendo papel de tolo? - Olhe bem para a minha cara garoto! Vê se eu tenho jeito de mentiroso e enganador! Em contrapartida à minha proposta, dou a você meu endereço para que venha cobrar, no futuro, a respeito do fato, se achar isso conveniente. O pior é que o homem parecia ter razão, naquilo que falava. Sua aparência denotava uma seriedade impressionante. - Mas de onde surgiu tal tesouro? – Indaguei. Afinal de contas o senhor não me disse como o encontrou. Como quer me fazer acreditar num tesouro oculto nos dias de hoje sem uma origem coerente. - Não é necessário saber a origem meu rapaz. O que interessa é o que está lá – exclamou o homem. - Não senhor – respondi. Tudo tem de ter uma explicação lógica. Se não me explicar essa história direito, como poderei acreditar no que me contou? - Você não sabe o que está perdendo em duvidar de minhas palavras. Só não vou embora daqui porque sou muito persistente em meus propósitos e preciso te ajudar para desfazer-me de um pesado fardo que carrego. - Então eu vou embora! – Respondi secamente, já me levantando para sair dali. - Espera! – Disse-me o homem novamente com aquela autoridade convincente. Vou lhe contar tudo. Sente-se meu jovem. Minha pressão havia surtido efeito. O que me intrigava ainda mais porque aquele homem parecia um ser predestinado a me ajudar, como se disso dependesse a sua vida.
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