ALQUIMISTA POR ACASO

PARTE III

 

            E então, ainda que meio a contra-gosto, o senhor Pacheco passou a me contar uma estranha história de tesouros perdidos, dos tempos da colonização do Brasil.

            - Séculos atrás - iniciou ele - bandeirantes, colonizadores, padres jesuítas e viajantes passavam  por aquela região de Cianorte, demandando a região do Prata, em busca de ouro e pedras preciosas, mais ao sul do continente sul americano. A história conta que muitos metais preciosos que eram produzidos num lugar chamado de Serra  Potosi, próxima das nascentes de um rio denominado Pilcomayo,  na atual Bolívia. A prata dali retirada pelos espanhóis, era embarcada para a Europa, através dos rios Paraguai e afluentes do rio Paraná, que formam o tal rio da Prata.  Entretanto, naquele tempo, já se fazia muito contrabando. Os contrabandistas utilizavam muito os ramais de uma trilha na mata, que foi construída e muito utilizada, também, pelos índios que habitavam a região.

- Já ouviu falar no tal “Caminho do Peabiru”? – perguntou-me.

- Sei de alguma coisa a respeito – respondi.

- Pois bem!  Conta-se que um grupo de aventureiros vinha conduzindo, por essa trilha, um enorme carregamento de metais preciosos. Num determinado ponto, nas proximidades de onde está hoje está o município de Cianorte, esses aventureiros entraram em conflito com uma tribo de índios que por ali viviam, entre os rios Ivaí e Piquiri.  Traziam pesados baús de cobre repletos de ouro, prata e pedras preciosas, que eram carregados por índios escravizados por eles e vinham de lá das bandas do Paraguai.  Do conflito, resultou que os índios, que eram mais numerosos, conheciam melhor a mata, saíram vitoriosos na peleja e se apoderaram do precioso carregamento.

De posse daquele tesouro e sabedores do interesse dos europeus por aqueles materiais, os indígenas guardaram o ouro e a prata para as futuras barganhas com os brancos. E, sem ter noção do perigo que corriam, usaram as pedras preciosas para ornamentar suas habitações. Logo tais tesouros foram descobertos por outros desbravadores e a aldeia do grupo indígena passou a ser alvo constante dos ataques de aventureiros, com o fim de promover o saque daqueles tesouros.  Percebendo finalmente o perigo a que estavam sujeitos, os nativos enterraram todos aqueles baús, em um local demarcado, nas proximidades de sua aldeia.

Depois que foram descobertas as minas de ouro na região de Minas Gerais, toda essa região do Prata passou a ter pouco interesse para os aventureiros e bandeirantes. O tesouro, que pouca utilidade tinha para os nativos, ficou esquecido no lugar enterrado, por quase três séculos, sob a proteção dos espíritos da floreta e daqueles nativos que o enterraram.

              Confirmando uma lei da natureza de que nada permanece oculto para sempre, um dia os espíritos protetores do tesouro revelaram, por acaso, tal segredo aos homens.  O primeiro homem a encontrá-lo foi um migrante pioneiro que veio, como tantos outros, de todos os cantos do país, colonizar o norte e noroeste do Paraná, na década de cinqüenta.

Segundo conta a lenda, após um dia de trabalho no desmatamento, que era feito à mão com um machado, esse pioneiro trabalhador adormeceu exausto no meio da mata. Durante o sono teve um sonho no qual apareceu um ser travestido como um índio, tendo a cabeça coberta de penas brilhantes, dizendo ser o protetor daquela floresta. E esse índio, no sonho, contou-lhe do tesouro que a mata trazia escondido. Falou-lhe, ainda, durante o sonho sobre os baús enterrados em um determinado local na mata e como devia proceder para mostrar-se digno de encontrar um deles. E, a primeira coisa a fazer, era parar, imediatamente, de derribar as árvores. Ao invés de fazer isso, devia passar a tratar a floresta, com respeito e veneração. Agindo assim,  se ao final de três luas cheias, se mostrasse digno do tesouro, o mesmo ser-lhe-ia revelado através da intuição, que era considerada a oficina de Tupã.

Isso tudo pode não passar de uma lenda, porém, o fato é que devido a uma história como essa é que o tal homem tornou-se possuidor de uma riqueza imensa. Outros tiveram a mesma sorte e se enriqueceram rapidamente. Todos, porém, mantiveram, sob juramento, esse fato em segredo, o que, aliás, era uma das condições da revelação a que tiveram o privilégio. Por isso, um grande trecho da mata foi preservado naquela região até os dias de hoje. A preservação da mata era, também, mais uma das condições impostas pelo espírito revelador do segredo do tesouro. E você vai poder constatar isso quando chegar lá. Verá que nas proximidades dos limites dos três municípios: Tuneiras do Oeste, Araruna e Cianorte,  bem nas nascentes do rio dos Índios, há uma extensa floresta nativa, ainda intacta.  Já se passaram mais de cinqüenta anos e eu fui um dos beneficiados pelo tal tesouro. Muito embora eu possa ser testemunha de tal história, não posso revelar a maneira como entrei em contato com a pessoa que me transmitiu tal conhecimento. Tampouco devo revelar como fiz para encontrar o tesouro. Cada um terá que buscá-lo de uma forma, absolutamente,  pessoal. Através de seu procedimento é que vai se mostrar digno do merecimento de tal dádiva.

            Mesmo incrédulo diante daquela história fantástica, resolvi questionar o homem. E indaguei-lhe sobre quantos baús havia sido encontrados e quantos ainda restavam enterrados na mata.

            - Como já lhe disse antes – continuou o homem - cada pessoa que se mostre digna de tal merecimento diante da Providência Divina, é informada da existência de vários baús. Todos estão próximos um do outro, como fosse a propósito de fazer uma tentação e submeter o escolhido, até aquele ponto, a um último teste.    Assim porque, em hipótese alguma, se deve pretender descobrir mais do que um. Aquele que fizer isso será amaldiçoado por sua ganância e perderá tudo, inclusive a própria vida, como já lhe disse antes.  Essa será a provação final.  Em sendo superada essa provação, a parte do tesouro encontrada suficiente para que se façam chover as bênçãos dos céus, em sua vida, como você espera.  E, isso é só e tudo o que tenho pra dizer a você - concluiu.

            Comecei a me lembrar das muitas histórias sobre os tesouros ocultos que meus pais contavam. Não há, dentre os que chegaram no Norte do Paraná, no tempo do pioneirismo, que não ouviu contar uma história de tesouro enterrado ao pé de árvores ou nas proximidades de uma queda d´água. Acontece que durante os primeiros séculos da colonização, a região foi entregue à administração dos padres jesuítas espanhóis.  Esses padres tinham mais aptidão para lidar com os índios e tiveram muito sucesso no seu trabalho de catequese. Criaram muitas missões às margens dos rios Tibagi, Ivaí, Piquiri e Iguaçu. Porém, no século XVIII, a região das missões passou para o domínio dos portugueses que se desentenderam com os jesuítas e os expulsaram de seus domínios. Diz a história que os jesuítas tiveram que se retirar às pressas da áreas das missões, onde já tinham acumulado grandes riquezas. Fugindo das perseguições que se seguiram, eles carregaram consigo toda a riqueza que tinham, mas, aqui e ali, deixaram partes delas escondidas, na esperança de voltar para buscá-las mais tarde. Muitos desses tesouros foram abandonados de vez, permanecendo escondidos nas matas, à espera de quem os encontrassem.

Algumas estórias diziam que, para encontrar o tesouro, era preciso demonstrar coragem, indo cavar, no local determinado, na sexta-feira, depois da meia noite. Outras estórias diziam que o ouro era um metal encantado que ficava oculto na natureza. Só o encontrava quem seguisse determinadas regras em sua busca. Meu pai contava que os antigos mineradores costumavam cortar o dedo e pingar uma gota de sangue sobre as pedras de ouro que encontravam, como forma de quebrar-lhes o encanto.

 Está bem que, ainda criança, acreditasse em todas essas histórias fantásticas e principalmente naquelas contadas por meu pai, mas depois que virei gente grande, já não estava tão disposto a acreditar nessas coisas. Eram estórias, contos, lendas através das quais os mais velhos procuravam ensinar lições para os mais moços. Fazia parte da tradição, naquela época, quando, longe das cidades, no meio rural, ainda cheio de matas, não se tinha à mão as revistas, o rádio e a televisão. Era uma espécie de entretenimento útil porque através daquelas estórias, se procurava passar algum ensinamento para as próximas gerações.

Agora, aquele estranho estava, novamente, contando histórias de tesouros enterrados e encantados.

            - Isso, de fato, não passa de lenda – disse finalmente ao homem - não existem mais os tesouros escondidos.

Engano seu meu jovem. Toda lenda esconde uma verdade.Uma lenda é uma maneira diferente de contar uma história verdadeira. Por acaso, você que já foi para a escola, já ouviu contar aquela lenda grega que fala de Teseu, o herói que enfrentou o Minotauro?  Pois bem! Essa lenda esconde a verdade de que o Minotauro, na lenda, representa um povo que enquanto dominou os gregos exigiu deles pesados tributos. Até que Teseu, um jovem e valente grego, apareceu para comandar seu povo na luta que culminou com sua libertação que é representada pela morte do monstro Minotauro. Garanto a você  que existe ainda uma série de tesouros escondidos em todos os cantos da terra guardados, pelos poderes da natureza, dos olhos dos egoístas, avarentos e gananciosos. E, o tal tesouro, que eu falo, está lá. Eu garanto! Você foi um dos escolhidos, por forças que desconhece, para fazer-se digno desse mesmo tesouro. Aceite meu desafio. Você não tem muito a perder aqui na capital.

            - E se eu topar. Quem me garante que o tal fazendeiro vai me empregar, ainda que seja, como ajudante?  Ninguém dá emprego a um desconhecido – indaguei meio convencido da tal história.

            - Mencione meu nome – disse o homem. Diga que foi eu  que enviou você.  Se pedir alguma prova diga estas palavras: QUERO APRENDER A CIÊNCIA INCOMUNICÁVEL. E não me pergunte o que significa isso porque não vou falar. Mesmo porque você não me compreenderia, por ora.  É uma frase que pertence a mim e ao meu amigo fazendeiro. Ela é uma frase que estabelece entre nós um vínculo de respeito, estima e amizade.  Um dia, talvez, depois que encontrar seu tesouro, venha a  entender o significado dessa frase.

            - E seu eu resolver ir a busca do tesouro, o que tenho que fazer para achá-lo? Em que lugar da mata estão enterrados os baús?

            - Isso eu não posso dizer. Só posso dizer que cada baú está enterrado ao tronco de uma árvore que produz frutos, como tantas outras, mas sendo você merecedor do privilégio da revelação, você vai reconhecê-la. Para encontrá-la, entre tantas outras, deixe-se guiar pela intuição que será desenvolvida através do contato com a natureza, segundo regras específicas que lhe transmitirei. Você deve olhar a natureza com uma profundidade com que nunca a tenha observado antes. Na verdade; não há tesouro oculto que não seja revelado se você reverenciar e respeitar as forças da natureza. Ela procura ajudar a todos aqueles que a tratam com respeito e admiração. É da índole da natureza servir ao homem. Sempre.

            - E onde estão tais instruções?

            - Não tenho nenhuma instrução por escrito comigo nesse momento. Você tem papel e caneta.

            - Caneta sim. Papel, não tenho. Posso comprar um caderno naquela livraria logo ali e...

            - Não! - Exclamou o homem. Meu tempo é curto. Apanhe um desses panfletos no chão e anote o que vou lhe transmitir no verso do mesmo. Não será muita coisa.

Apanhei um dos muitos panfletos jogados pelos transeuntes. De posse de caneta e papel, comecei a anotar as estranhas instruções ditadas pelo senhor Pacheco. Aproximadamente uma folha de papel com um texto separado em três tópicos que li sem nada entender.

- Não entendo o que querem dizer estas instruções – respondi ao final da leitura.

- Entenderá no momento certo – respondeu ele. Para interpretá-las você deverá contar com a ajuda das forças da natureza, mediante o desenvolvimento da intuição. O contato com a natureza revelará os segredos ocultos por trás destas linhas. Siga estas instruções ao pé da letra que a natureza irá lhe ajudar. No começo você ficará confuso. Garanto-lhe que se seguí-las com atenção, compreenderás o seu sentido oculto encontrarás o teu tesouro. Seu pai falava uma grande verdade quando afirmava que os tesouros ocultam-se de quem não os merece. Tem que se mostrar digno de merecê-lo, respeitando sinceramente as forças da natureza. Esse é o segredo que abrirá as portas de um novo mundo para você através do qual você verá aquilo que ainda não é capaz de enxergar.

            Mais uma vez o homem falava de coisas estranhas que eu não podia compreender. Sabia que aquilo não era uma situação normal. Entretanto resolvi novamente inquiri-lo sobre seus conhecimentos.

            - Como sabe que meu pai contava essas histórias de tesouros encantados?

            - Ora meu filho! Essas histórias são comuns a todos os homens do interior porque, no fundo, encerram grandes verdades. É como aquela lenda a que me referi agora há pouco – a do Teseu e o Minotauro. Um dia você compreenderá tudo isso. Você tem três meses para executar a sua busca ao tesouro. Sob a garantia de que não estou blefando, passar-lhe-ei o meu endereço, para que daqui a exatamente três meses, nesse mesmo dia do mês me procure. Estarei esperando você no dia marcado. Se não atingir seus propósitos recompensarei o seu  tempo perdido.

            - É o endereço do seu escritório?

            - Não! É o endereço de minha morada. Um condomínio fechado para onde me mudei recentemente.

            O homem passou-me o seu endereço também de forma oral para que eu o anotasse no papel e, sem dizer mais nada, levantou-se bruscamente despedindo-se.

            - Tenho que ir agora. Até daqui a três meses meu filho.

            Suas últimas palavras foram:

            - Aprenda os segredos da natureza e encontrarás o tesouro. Que Deus o abençoe!

            Abaixei momentaneamente os olhos para visualizar minhas anotações. Quando ergui os olhos o homem havia desaparecido instantaneamente. Busquei-o por todos os lados, mas já não o encontrei.

            Levantei-me tonto e assustado com tudo aquilo que eu havia presenciado. Tudo à minha volta parecia flutuar. Acreditei ser o efeito remanescente dos conhaques e das cervejas que havia bebido. Parecia que o tempo tinha voado naqueles momentos em que conversei com aquele misterioso senhor. Olhei para o sol que já estava alto no horizonte. Provavelmente já passava do meio dia. Resolvi não beber mais nada. Iria para a pensão para meditar sobre os fatos estranhos que havia presenciado na rua XV.

            Passei o resto do dia e mais outros dois, isolado em meu quarto de pensão pensando naquele encontro. Não contei nada a ninguém segundo as instruções do senhor Moacir, conforme havia me pedido. Também sabia que ninguém jamais acreditaria se contasse aqueles fatos. Os colegas iriam dizer que eu estava bêbado. Zombariam de mim.

 

PARA CONTINUAR CLIQUE AQUI

IR PARA O ÍNDICE DO LIVRO

COMPRE ESTE LIVRO EM FORMATO IMPRESSO

 
Saiba onde tem o melhor preço antes de comprar
 
Saiba onde tem o melhor preço antes de comprar

  Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.