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ALQUIMISTA POR ACASO PARTE V |
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E, assim transcorreram-se os três meses de minha busca pelo tesouro encantado, conforme descrevo a seguir: PRIMEIRO MÊS No primeiro mês fiz com determinação e persistência os conselhos do item número um. Aprendi a exercitar um respeito profundo pelas coisas da natureza como nunca havia feito antes. Apesar de ser proveniente da zona rural nunca cultivei um respeito mais íntimo pelas coisas da natureza porque fui ensinado que a terra devia ser domada pelo homem para que a mesma possa produzir seus frutos, através de meios quase sempre antinaturais. Somente agora enxergava a natureza com outros olhos. Durante esse mês pude compreender como se efetivava a complexa harmonia entre os elementos da natureza. E o quanto o homem havia destruído desse verdadeiro tesouro original. Aquela floresta ofuscava em minha consciência até o brilho do meu tesouro prometido. Demonstrava que uma sabedoria correta e precisa governava tudo aquilo de uma maneira harmônica apesar da intervenção humana em suas redondezas. Vi os pássaros e pequenos macacos remanescentes da dizimação humana, exercendo, a mercê de seu conhecimento, uma verdadeira obra universal de recriação permanente de vida em abundância. Faziam parte de uma complexa cadeia alimentar em uma harmonia que, não fosse o homem, seria perfeita. Os pequenos animais e as plantas da mata tinham à sua mercê um tesouro imensurável, dado gratuitamente pela Divina Providência. Sem perceber, plantas e animais executavam uma grande obra de manutenção contínua da vida como um todo. Reconheci quão tolamente agiu a humanidade a partir do momento em que decidiu construir seu destino sem estar em conformidade com as leis universais e naturais. Compreendi que tudo poderia ser diferente se o homem respeitasse realmente a natureza, exatamente como estava escrito na primeira linha daquele manuscrito que agora trazia no bolso. Obviamente agora seria tarde demais para voltar atrás no caminho do progresso escolhido pelos homens que resultou na destruição de sua maior riqueza. Entretanto, a partir de agora eu agiria de forma agressiva para a preservação da natureza que resta. Iria respeitá-la como se fosse uma testemunha real da existência de Deus. Aprendi muito mais naquele mês, observando as plantas e os animais, do que em toda a minha vida de luta cega em busca da realização dos meus sonhos. Aos poucos fui me tornando consciente de que, mesmo que não achasse o tesouro perdido, aquela aventura incomum estava transformando-me em um novo homem de uma maneira profunda e com uma rapidez inesperada. Era tudo diferente do ritmo de vida a que eu estava acostumado. Aquelas tardes de contemplação mediante as forças originas da natureza, parecia fazer o tempo passar em câmera lenta. Os primeiros trinta dias pareceram um ano. Ao fim do mês eu não tinha ainda nenhuma noção de onde estava o tal baú com o tesouro. Mas estava feliz porque aprendi com a natureza muitas coisas boas e positivas.
SEGUNDO MÊS Esse foi o mês mais difícil de minha busca porque a instrução dizia que eu devia ouvir a natureza. Somente isso. Tinha em mente que havia encontrado muitas riquezas que não estavam nos meus planos. Entretanto a riqueza prometida pelo senhor Pacheco permanecia absolutamente oculta. Procurava ouvir a natureza falar, como dizia a instrução. Ouvia seu barulho incessante através dos animais, dos insetos, dos ventos, do rio... e não entendia nada. Notava que a vida clamava sem cessar, como se estivesse louvando as dádivas da criação. Aquilo tudo era muito bonito e até me trazia um sentimento de harmonia nunca antes alcançado. No entanto, a sua voz em nada ajudava em minha busca pelo tesouro. Tudo era muito bonito, mas a minha busca não era só aquilo. Precisava que a natureza me falasse a respeito do tal tesouro encantado. Tinha desejos de crescimento e expansão que só aquele tesouro prometido me proporcionaria. Era bom aprender com os animais. Entretanto não me considerava um deles. Eu era um homem, animal racional que pensa e que sempre, certo ou errado, tem o desejo inato de criar à maneira de Deus. Isso que talvez fosse o grande mal da humanidade: a ambição; clamava continuamente em meu íntimo por atenção. São os conflitos eternos, comuns a todos os homens que já passaram por este planeta. Finalmente após muita dedicação e empenho em meu propósito de ouvir a natureza consegui algum êxito. Aconteceu por volta do vigésimo dia do segundo mês. Descobri extasiado que a natureza falava comigo através de sua linguagem universal: a linguagem dos sinais. O movimentar das formigas, o vôo das andorinhas, a excitação dos pernilongos: Tudo isso me dava a indicação de que haveria de chover em breve. Através destes e outros diversos sinais, pude compreender que a natureza falava. Finalmente! Estava começando a ouvir a voz da natureza. Falando sob a forma de sinais, ela aos poucos me revelava seus segredos. Nesse tempo, a partir do momento em que passei a ouvir a voz da natureza, aprendi muitas coisas com ela. A coisa mais importante que a natureza me falou, entretanto, foi da realidade da existência de Deus. Entretanto essa foi uma conversa muito pessoal que eu não conseguiria descrever em palavras. Cabe a cada homem descobrir por si só como se conversa com a natureza e como se obtém as respostas que se deseja. Se eu contasse exatamente a forma como a mãe natureza me falou abertamente e em voz alta acerca da existência de um Poder que governa tudo através de leis infalíveis, muitos diriam que o isolamento me turvou as idéias. Além do mais; não ajudaria em nada as pessoas a quem dissesse porque tal conversa não se baseia em nada que possa estar relacionado com os sentidos físicos ou com a razão. São os segredos da ciência incomunicável. Havia aprendido muito com a natureza. Mas o tesouro ainda era o meu objetivo mais importante. E parecia cada vez mais distante à medida que eu passava o tempo aprendendo coisas que não queria, sem encontrar as coisas que eu buscava. Por diversas vezes naquele mês, pensei seriamente em desistir de toda aquela busca, no que diz respeito ao tesouro propriamente dito. Só não o fiz porque afinal, estava apaixonado por Regina e a sua proximidade, ainda que sem o desejado contato pessoal, estimulava-me a prosseguir com meus intentos. Além do mais eu estava empregado na fazenda e tinha meu ganha pão enquanto executava minha busca.
TERCEIRO MÊS Durante boa parte do último mês, executei minha busca apenas como uma sentença a ser cumprida em nome de um pacto que fiz com o tal senhor Pacheco. Afinal; o homem prometera uma recompensa se minhas buscas não trouxessem resultados. Poderia ser o suficiente para que eu conseguisse levar Regina comigo para vivermos juntos. Assim, utilizei aquele contato para me aprofundar mais no contato com a natureza já que agora eu havia adquirido a capacidade de conversar com ela e descobrir grandes segredos ocultos. Parei de pensar um pouco no tesouro do senhor Pacheco e me dediquei totalmente ao tesouro interior que eu havia encontrado sem querer no meio daquela mata.
Só me animei de novo com a idéia de que o tesouro existia por volta da metade do último mês, quando, seguindo o curso do rio chamado rio dos índios que cortava a fazenda, ouvi o barulho das águas em uma cachoeira perdida na mata. Ao aproximar-me do local, tive a impressão de que eu havia juntado as peças do quebra-cabeça. Lembrei-me da instrução onde se lia que o tesouro estaria onde os quatro elementos se juntam ar, água, terra e fogo. Havia decifrado o enigma. Ou pelo menos parte dele. Próximo àquela cachoeira eu podia realmente verificar o trabalho dos elementos juntos. Enquanto os pequenos animais bradavam em seus sons característicos, a força das águas batendo nas pedras causavam um barulho ensurdecedor jogando partículas de água pelo ar. Bem próximo à margem do rio havia muitos pés de bananeira, aparentemente plantados pelas mãos do homem, já que não era uma planta nativa dessa região. Era a festa da macacada remanescente que vivia naquela floresta. Havia ainda uma série de outras árvores frutíferas cuidadosamente distribuídas naquele trecho da mata, próximo à cachoeira: jabuticabeiras, goiabeiras, amoreiras, caquizeiros e outras espécies frutíferas. Todas essas árvores, juntas, certamente foram plantadas por alguém que habitou naquele lugar. Alguns destroços espalhados como: restos de tijolos, pedaços de porcelana e outros materiais demonstravam que alguém já havia morado ali. Jogado ao lado da imensa cachoeira, descobri restos de um moinho d´água. Tinha conhecimento através das lembranças de minha infância desses moinhos que utilizavam a energia da água, represada geralmente nas cachoeiras dos rios aproveitando o desnível do solo. Eram utilizados para a moagem de grãos ou para fabricação artesanal da farinha de mandioca. Agora, aqueles resquícios da civilização eram utilizados pelos pequenos animais, remanescentes da agressão do homem. Aquela quantidade imensa de árvores frutíferas eram banquetes para os pequenos animais como os macacos, quatis, preás, tatus e muitos outros que eu já havia visto durante minhas incursões pela mata. Foi observando toda aquela festa propiciada pelos animais que instantaneamente surgiu um clarão em minha mente. - Ali estaria o tesouro – pensei. Ansiosamente busquei as instruções que trazia no bolso e corri os olhos até o local em que se fazia uma alusão ao fato. Li atenciosamente o trecho que dizia: “Os alimentos que os animais buscam no seu dia a dia consistem seu verdadeiro tesouro. Só o homem ambiciona outros tesouros além destes. O tesouro dos animais baseia-se no seu estômago. O do homem, no seu coração. Essa é a diferença. Estes dois tesouros estão muito próximos, como o estômago está do coração”. Muito próximos, como próximo está o estômago do coração – pensei. Aquilo fazia sentido. Com certeza o tesouro estaria nas proximidades. Pensando nisso, li novamente o trecho do manuscrito que o descrevia: “Observando estes dois elos da natureza: os animais e os vegetais criar-se-á um entendimento íntimo que lhe permitirá encontrar o caminho para o tesouro. Aos pés de uma frondosa árvore que dá seus frutos amarelos como o ouro, estará enterrado o seu tesouro. Como reconhecer tal árvore? É a maior e a mais frondosa de todas. É a árvore da vida. Energia geradora de beleza, saúde e vida...” Agora, bastaria encontrar a árvore mais frondosa de todas. Andei por longos momentos de ansiedade procurando a tal árvore. Pela descrição eu deveria procurar por uma árvore frutífera. Após uma longa procura encontrei uma árvore que julguei ser a maior de todas as encontradas naquele local. Era uma goiabeira gigantesca repleta de frutos maduros, amarelos como o ouro, exatamente como descrevia a instrução. Só podia ser ali. A goiabeira estava extremamente próxima à cachoeira e o barulho era ensurdecedor. Passei alguns momentos saboreando alguns de seus saborosos frutos enquanto lia novamente o trecho que falava sobre os quatro elementos. “Na natureza estão presentes quatro elementos. Ar, água, terra e fogo. No lugar onde se forem observados juntos estes quatro elementos: aí estará o tesouro...” O trecho mais incompreensível, segundo minhas deduções, consistia no ponto em que se falava sobre o fogo: “O mais difícil de ser encontrado será o fogo. Conhecer, compreender e detectar o lugar onde brota o fogo será o propósito de toda a busca que culminará na descoberta do tesouro. O ar estará em todo lugar, a água segue em curso o rio que corta a mata e a terra estará sempre sob os seus pés quando estiveres galgando o caminho. Mas e o fogo? Onde estará? Decifre este enigma e o tesouro será seu”. Li essa parte das instruções por diversas vezes sem entender absolutamente nada. Até que de repente imaginei que o fogo poderia ser representado pela luz do sol que também estava presente naquele local através de uma abertura naturalmente criada na floresta pela existência de grande um lago abaixo da cachoeira. Aquilo me pareceu ser a resposta que buscava. Conscientizei-me de que havia decifrado o enigma quando li uma palavra escrita em sulcos no tronco daquela imensa goiabeira. Lá estava escrito com todas as letras: VIDA. Decidi naquele momento que iria cavar naquele local em busca do tesouro. Como não tinha nenhuma ferramenta teria que voltar à sede da fazenda e prepara-me para a tarefa no dia seguinte, visto que o sol já estava quase a se por naquele momento. Passei grande parte da noite excitado, com a idéia de que havia encontrado o meu tesouro. Pela primeira vez naquela noite passou pela minha cabeça a idéia de que aquele tesouro teria dono: o fazendeiro. Afinal, era ele agora era o dono da fazenda e, por conseguinte: dono do tesouro. E minha formação moral não permitia agir daquela maneira, apesar de lembrar-me de que o senhor Pacheco ter me dito no meio da conversa que o tesouro não tinha nada a ver com a fazenda. Seria somente meu se o encontrasse. Isso, entretanto, não aliviava um certo sentimento de culpa por estar fazendo aquela busca escondido numa propriedade privada. Lembrei-me que sempre que eu tomava uma decisão importante no decorrer de minha vida, apareciam forças contrárias em minha mente, empurrando-me para o lado contrário dos meus objetivos. Decidi que dessa vez seria diferente: eu iria a te o fim. Nessas divagações entre a busca ao meu objetivo; entre o certo e o errado; adormeci. No dia seguinte por volta das duas horas da tarde lá estava eu, sob a sombra da imensa goiabeira, com uma pá manual de escavação empunhada, em busca do meu tesouro. Cavei buracos por todos os lados da árvore durante todo o resto do dia. Não encontrei sequer um sinal do tesouro. Numa ânsia desesperada em busca do tal baú, nem vi o tempo passar. Quando percebi já estava anoitecendo. Resolvi parar. Continuaria as escavações nos dias seguintes até encontrar o meu tesouro. Desanimado e já sem forças, voltei para a sede da fazenda quando já era noite. Naquela noite, ao cair na cama, simplesmente me apaguei em um sono profundo. Não sei se devido à ansiedade latente da minha busca frustrada, pouco antes do alvorecer, tive uma série de sonhos, todos relacionados ao tesouro perdido. Um deles porém, chamou muito minha atenção. Aconteceu um pouco antes do despertar. No sonho eu estava a escavar o solo em um imenso buraco que já havia feito sob a árvore quando, de repente, ouço uma voz ressonante de um homem que estava à beira do buraco que, nesse momento já havia se transformado em um túnel escuro, no qual eu estava imerso. - Paulo – dizia o homem misterioso, desista. O tesouro que estás buscando é verdadeiramente encantado e só conseguirás teu intento quando estiverdes apto a quebrar tal encanto. - Como posso fazer isso? Perguntei. -Poderás quebrá-lo somente de duas maneiras: pelo sofrimento ou pelo conhecimento. Escolhendo o sofrimento escavarás sem parar por toda a extensão dessa mata. Através desse sacrifício desesperado poderás por sorte encontrar o tesouro em alguns anos. Se por outro lado, escolherdes o caminho do conhecimento, deverás seguir fielmente as instruções e com sorte, no tempo prometido, encontrarás o que buscas. - Qual das opções, devo seguir? – perguntei já sabendo qual seria a resposta. - O caminho do conhecimento é mais suave e menos doloroso - respondeu-me a voz. Pelo sofrimento levará anos para encontrar o seu tesouro. Seguindo a senda do conhecimento revelado pelas forças da natureza, ainda poderás atingir o objetivo no prazo estipulado. - Como posso fazer isso? – perguntei gritando a ele do fundo do imenso buraco. - Deves buscar a mistura dos quatro elementos na sua forma sutil e não na forma grosseira – respondeu-me o homem. - Como assim? – Insisti. Não entendo o que quer dizer. - O ar, a terra, a água e o fogo, portanto, elementos superiores; não os ordinários, respondeu-me ele. - Continuo não entendendo o que significa isso – insisti. - Deves buscar os quatro elementos dentro de você – respondeu. - Como conseguir tal intento? - Não posso dar mais detalhes porque você deve ser digno do tesouro por seu próprio esforço. Apenas posso falar a respeito do significado dos quatro elementos no homem: o fogo representa um forte desejo, a água representa o sentimento que o nutre e a terra representa a manifestação desse desejo mediante a lei universal irrevogável de causa e efeito. - E o elemento ar? – Perguntei-lhe. - O ar representa o éter, meio onde tudo se manifesta. Buscai e encontrareis a mistura dos elementos dentro de si. Esse é o segredo para o seu tesouro. Agora saia desse buraco porque o tesouro não está aí no escuro. Ele está na luz. Estas foram as últimas palavras ditas pelo homem misterioso em meu sonho antes do despertar. Quando pensei em fazer mais algumas perguntas acordei assustado com a incrível lucidez vivida naquele sonho. Parecia um fato real. O buraco escuro do sonho mostrou um relevante contraste mediante a luz que agredia meus olhos pelo vidro da janela. Eram os primeiros raios do sol, anunciando o nascer de mais um dia. - Quem seria aquele homem misterioso – pensava enquanto executava as tarefas matinais. E aquele sonho? Seria um fato sobrenatural ou um sonho comum como todos os outros que já tive? Não; aquele não era um sonho comum baseado em minhas experiências já vividas pelo fato de que eu nunca havia estabelecido aquele conceito à respeito da natureza dos quatro elementos. Estas eram perguntas que ficariam provavelmente sem resposta para sempre. Seria melhor esquecê-las – pensei.
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