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ALQUIMISTA POR ACASO PARTE VI |
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A partir daquele dia passei a agir em conformidade com o que havia proposto antes. Descobri que o tesouro não estava sob aquela goiabeira como havia deduzido naquele momento de desespero e ansiedade. Resolvi então continuar a seguir as instruções até acabar o período estipulado. Passei então as duas últimas semanas do mês seguindo as instruções de acordo com o sonho que tive. Agora consciente de que minha busca devia estar concentrada no meu interior, pois não adiantaria virar aquela mata de cabeça para baixo sem uma pista mais concreta a respeito do tesouro. E, quanto mais eu penetrava nos segredos do meu íntimo em busca dos quatro elementos, mais eu me sentia uno com a natureza e com a vida. Tinha um sentimento íntimo de que minha busca pelo ouro perdido não traria bons resultados, visto que o prazo estava se esgotando. Entretanto, agora eu já não tinha a menor vontade de abandonar aquele plano de busca interior porque isso me mostrava coisas fantásticas do meu próprio eu até então ignoradas. Teria de passar muitas horas falando sobre as coisas que aprendi no contato direto com os elementos da natureza. Ia ser ignorado por muita gente, pois, como eu já havia compreendido, esta era realmente uma “ciência incomunicável”. Só se aprende vivendo-a. Eureka! Esse era o segredo da frase. Havia descoberto por conta própria que a tal frase mágica que me abriu as portas da fazenda faziam sentido. Estava inconscientemente aprendendo a ciência incomunicável Esses últimos dias foram de constantes extremos em minha experiência. Ao mesmo tempo em que era afetado por um profundo desânimo em decorrência do insucesso em minhas buscas, era acalentado por uma imensa felicidade que tomava conta do meu ser à medida que executava as instruções do senhor Pacheco. Já tinha quase certeza de que não encontraria o tesouro encantado até o dia proposto. Por outro lado, a incursão interior, em busca dos quatro elementos, dentro do meu ser, trouxeram-me naqueles últimos quinze dias, a perspectiva de que não estava jogando aquele tempo fora. Tive por diversas vezes, vontade de ficar ali para sempre admirando e aprendendo os segredos infindáveis da natureza. O tal tesouro poderia até ser uma utopia; entretanto tudo aquilo havia causado profundas transformações em meu íntimo. Sabia que nunca mais seria o mesmo. Havia conquistado um equilíbrio interior tão intenso que ofuscava o brilho do ouro dentro de um baú de cobre, procurando desde o dia em que encontrei o Sr. Pacheco na rua XV, em Curitiba. Passei o resto daquele mês tentando entender as palavras do misterioso sonho que tivera. Busquei os quatro elementos dentro de mim incessantemente. Apesar de já ter noção de muitas coisas boas adormecidas no meu ser eu não fora capaz de descobrir o meu tesouro. E isso me deixava muito triste porque Regina, outro tesouro, também estaria fora do meu alcance. Os três meses se passaram. No final, estava dividido entre a frustração e a certeza que não havia lutado em vão. Busquei o ouro e não encontrei. Em compensação aprendi muitas coisas boas e positivas para a minha vida. Havia encontrado um grande amor. Tudo tinha valido a pena. Iria cumprir a parte final do pacto indo ao encontro do senhor Pacheco. Diante dele, iria fazer minhas colocações a respeito do que aconteceu. E cobrar uma explicação mais plausível. Naquela semana, aproveitei para comunicar ao senhor Ferrari da minha saída da fazenda. Iria voltar novamente à capital para começar a vida de onde parei. Sabia que dificilmente iria esquecer meu grande amor. Entretanto, a vivência, perante os mistérios da natureza me ensinou até isso: que quem ama verdadeiramente uma pessoa, não tem sentimentos de posse. Prefere estar longe da pessoa amada se isso for o melhor a fazer no momento. Se houvesse um amor verdadeiro, tudo se encaminharia para unirmo-nos de novo. Tinha agora estas esperanças. A natureza havia me falado da existência de um poder que trabalha mediante leis infalíveis ordenando todas as coisas. Esse poder que satisfaz as necessidades de plantas e animais pode seguramente satisfazer os desejos nobres de um homem. Eu tinha agora essa filosofia de vida.
Na hora do acerto de contas, fui surpreendido por uma pergunta misteriosa feita pelo meu patrão: - E então, conseguiu alcançar seus objetivos durante esse tempo? - Como assim? - A ciência incomunicável, respondeu ele. Nesse momento pensei seriamente em contar-lhe tudo. Fui interrompido pelo temor de ser chamado de louco ou ainda pior: poderia ser acusado de espionar uma propriedade privada em busca de algo que, em suma, pertencia ao seu dono. Isso é claro, se o tal tesouro existisse. Preferi ficar calado. O que eu dissesse poderia ser prejudicial a mim mesmo, de uma maneira ou de outra. Seria chamado de tolo ou de usurpador. - Não sei muito bem o que significa tal coisa – disse meio indignado, sabendo que não estava falando a verdade. O senhor não quis dizer o significado de tal frase quando aqui cheguei. Bem sei que sabia que eu não compreendia o que estava falando. - Ora meu jovem! Se fosse fácil falar sobre tal coisa não teria esse nome. Imaginei que o Sr. Pacheco tivesse dado a você algumas instruções a respeito. - Olha Sr. Ferrari, não quero falar mais nisso. Quero apenas acertar as contas e partir para Curitiba. - Tudo bem. Quero dizer apenas que me simpatizei com você desde o princípio. Assim, se você não tiver sucesso novamente na cidade grande, quero que saiba que lhe darei o emprego novamente. É o mínimo que posso fazer. - Posso assegurar-lhe que não voltarei porque descobri que não tenho o dom para o serviço na fazenda. Além disso, não existem boas perspectivas para a vida de um homem em se tratando de contentar-se em ser sempre um simples peão. - Bem garoto! Se quiser posso arrumar um emprego na minha empresa de confecção. O tal homem me surpreendeu. O homem realmente foi com a minha cara. Era a minha chance de continuar por perto de Regina. - Você me contou que já trabalhou no ramo de confecções lá em sua cidade – continuou ele. Tenho algumas vagas abertas em minha empresa. Se quiser, pode começar a trabalhar amanhã. - Tenho alguma prática na área, mas tenho outros sonhos para minha vida. O senhor bem sabe que o salário de costureiro é muito baixo. - Qual o seu grau de instrução? Perguntou-me o homem. - Estudei só até o Ensino Médio, antigo segundo grau. Depois fiz alguns cursos na área da informática, iniciei mas não terminei um curso de mecânica de máquinas de costura e... - Tudo bem; então lhe ofereço um emprego como aprendiz na área administrativa da empresa. Se você for esforçado, pode progredir com o tempo. Eu estava pasmo com a insistência do homem. Jamais alguém havia demonstrado tanto interesse e boa vontade para comigo, à exceção de meus familiares. Eu não podia deixar escapar aquela chance. Entretanto; deveria estar em Curitiba dali a dois dias. Tinha que encontrar uma maneira para segurar o emprego. Quase desisti da viagem. Entretanto; por uma questão de honra eu desejava ir até a capital para o encontro com o homem que me prometeu um tesouro que na sua concepção física e paupável, decididamente, não existia. - Fico muito lisonjeado com sua estima senhor Ferrari. Gostaria de trabalhar em sua empresa No entanto; preciso ir a Curitiba resolver algumas questões que ficaram pendentes. - Posso saber do que se trata? Meio sem jeito, inventei uma desculpa que, em parte, encerrava uma parcela de verdade,ainda que metaforicamente. - Tem uma pessoa me devendo um dinheiro há algum tempo em Curitiba. Preciso ir até lá para ver se recebo, visto que o cara prometeu-me que me pagaria por essa época. - É muito dinheiro? - Confiei-lhe muito dos meus esforços. No entanto, um pouco que me pague, será de grande valia. - Pois bem. Faça como convier. Se resolver voltar, mantenho minha palavra de confiar-lhe um emprego por quinze dias. Depois disso, se não vier, contrato uma outra pessoa.
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