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ALQUIMISTA POR ACASO PARTE VII |
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E lá estava eu novamente de vagem rumo à Curitiba para o encontro de acerto de contas com o tal senhor Pacheco. Por volta das sete da manhã do dia seguinte, desembarcava na estação rodoviária de Curitiba. Peguei ansiosamente um ônibus porque o encontro, segundo nosso pacto, deveria ocorrer ainda naquela manhã. Por volta das dez horas da manhã, depois de pegar o segundo metropolitano, finalmente desembarquei na tal rua indicada há exatamente três meses atrás. Perguntei a alguns transeuntes, mas ninguém soube me falar a respeito do tal condomínio por aquelas bandas. Algumas pessoas chegaram até a manifestar uma certa ironia quando questionadas sobre a existência do local. Naquele momento, senti novamente que havia feito papel de idiota naquela história. Tive ódio de mim mesmo por ter acreditado em uma história tão absurda. Na certa aquele homem era um enganador. Nesse momento dúvidas e mais dúvidas pairavam em minha mente. - Será que o tal homem seria um louco ou um gozador. Como pude cair nessa – pensava. Envolvido nestes pensamentos continuei a caminhar quase que inconscientemente pela tal rua sem saber onde poderia chegar. De repente um susto e um calafrio toma conta do meu ser. O final da rua. À frente, um grande portão, totalmente aberto era o limite entre o final da rua e a entrada para um local grande, cercado por todos os lados. Que local era aquele? Um cemitério! - Meu Deus que horror – pensei. Aquele velho sacana foi além dos limites da sacanagem. Tirou o maior barato, com a minha cara. Pensei em voltar imediatamente para trás. Nesse instante parecia que havia uma voz interior que me dizia: entre! Segui adiante. Decidi fazer o jogo macabro daquele homem até o fim. - Disse-me que se tratava de um condomínio fechado. O cemitério é um condomínio fechado – pensei. Que velho sacana. Maldito seja! Se for para fazer papel de tolo, ia até o fim. Segui adiante conforme a instrução do senhor Pacheco que há três meses atrás havia me dito: - Siga em frente pela rua da entrada principal do condomínio. Ao final da segunda quadra dobre à esquerda. A segunda construção é minha morada. Ao executar o percurso: o terror. Ali estava diante dos meus olhos um túmulo grande e bem trabalhado. Incrustada nele uma lápide com uma foto do Sr. Pacheco. Na parte superior da mesma uma frase: Aqui jaz Moacir Fernandes Pacheco. Comecei a tremer da cabeça aos pés. Um terror incontrolável tomou conta do meu ser. Pensei em sair correndo dali naquele momento, mas minha curiosidade era maior. Olhei para as datas grafadas após a frase: O inacreditável! O homem havia falecido três dias antes do nosso encontro na rua XV. Loucura? Sobrenatural? Eu estava diante de um fato inexplicável. Passei longos minutos em estado de perplexidade diante do susto aterrorizante. Depois de algum tempo, um pouco mais restabelecido do impacto profundo provocado por aquela cena, pude me ater melhor ao restante do texto prescrito na lápide. Lá estava escrito: “Arquiteto e empresário virtuoso que teve por ideologia a fé em Deus, a caridade cristã e o amor ao próximo, comprovada por suas inúmeras ações solidárias e testemunhada no seu livro ‘EM BUSCA DE UM TESOURO ENCANTADO’, que tantas pessoas ajudou a encontrar os grandes tesouros espirituais”. Eu estava diante de um enigma que precisava ser revelado. Aquilo tudo deveria ser analisado com calma porque eu estava diante de um fato sobrenatural. Havia tido contato com uma pessoa que já não mais estava vivo naquela manhã na rua XV, três meses atrás. E agora? O que fazer? O que pensar? O homem me disse que se eu não encontrasse o tesouro ele me daria uma recompensa. Já sabia por todas as evidências que não se tratava de uma recompensa material. Morto não paga dívidas. Entretanto; intuitivamente eu mais uma vez sentia que havia um sentido para tudo aquilo. A resposta mais uma vez surgiu em minha mente como um clarão. - Claro! – exclamei em voz alta. A recompensa deve ser o tal livro descrito na lápide. Anotei o título do tal livro. O nome tinha tudo a ver com a minha busca. De posse de tais informações; ainda um pouco atordoado, pelas circunstâncias, saí dali direto para o centro da cidade em busca do tal livro. Não foi difícil encontrá-lo. Já estava em sua quarta edição. Imediatamente comprei-o. Ia estudar o seu conteúdo para tentar compreender melhor, os motivos daquele contato sobrenatural com o senhor Pacheco. Passei as duas semanas seguintes, trancado em meu quarto alugado em um pequeno hotel do centro da cidade, lendo aquele livro misterioso, onde o senhor Moacir narrava numa espécie de autobiografia, todos os segredos de seu despertar espiritual. Logo na primeira página havia um texto velado acerca dos quatro elementos e sua ação sobre a alma humana. Estava escrito: “O que está em cima é igual o que está embaixo; o que está fora como o que está dentro, baseado no princípio dos elementos: fogo, água, terra e ar. O fogo é uma vontade que consome, alimentada pela energia da fé; a água é um sentimento que nutre, mediante a força da esperança, resultando conseqüentemente na materialização, representada pelo elemento terra. E tudo isso se manifesta mediante o veículo do éter (mundo das origens), representado pelo elemento ar. Com a compreensão destes segredos pode-se dominar o quinto elemento que consiste na energia original criadora do universo e descer aos abismos infernais mediante o seu uso incorreto; ou ascender aos céus inefáveis mediante o uso adequado. Este é um tesouro que vale muito mais que qualquer riqueza profana. Buscai e encontrareis. Aonde? Dentro de você mesmo”.
Lembrei-me do sonho acerca dos quatro elementos sutis. Aquilo tudo começava a fazer sentido para mim. O doutor Pacheco referia-se o tempo todo a um tesouro interior. Só pude compreender o texto acima quando li todo o conteúdo do livro.
Logo ao final da primeira página do livro, quase no rodapé, havia em negrito, uma advertência do autor que dizia:
ATENÇÃO: “Ninguém deve colocar em prática o conteúdo deste livro com espírito impuro. As páginas que se seguem contém a sabedoria capaz de despertar os mais sublimes e terríveis poderes humanos. Consiste em um resumo do legado da sabedoria oculta das gerações; compendiadas dos tratados de ocultismo, magia, alquimia, cabala e da Bíblia. Se mal utilizadas, podem incorrer na perdição do espírito, levando o aprendiz ao mais terrível fim. Se bem utilizadas eleva o homem à categoria de venturoso filho do Grande Arquiteto do Universo”. Moacir Pacheco
Segundo o livro, o estudo oculto sempre têm início com base nos quatro elementos grosseiros da natureza: ar, terra, fogo e água. A partir de uma evolução interior o iniciado passa a estudar os quatro elementos sutis na natureza do ser humano através de uma analogia. O fogo representa o desejo, a vontade, a mudança, a transformação, a energia da ativação que em termos estritamente espirituais, pode ser representado pelo poder da fé. A água, segundo a maioria das correntes herméticas é relacionada às emoções do inconsciente; emoções que nutrem os nossos sonhos e ideais na vida; pode muito bem representar no processo espiritual construtivo, a energia da esperança que alimenta e mantém ativa a fé ou a crença do iniciado. A terra representa, hermeticamente falando, o lado visível da vida ou a manifestação concreta de todas as sementes que germinam no mundo das idéias, mediante a ação concreta do iniciado. O ar representa o meio onde todas as ações humanas se realizam; o nosso mundo. Espiritualmente falando, representa o éter ou plano astral que, em linguagem mais moderna, pode muito bem ser representado por termos como: psique ou inconsciente. Na análise do livro, todas as correntes herméticas expressam de modo mais ou menos complexos, todas as variantes da natureza humana exterior e interior, assim como o fazem os filósofos e os estudiosos da psique. Daí a origem da palavra pedra filosofal dos alquimistas. Elaborar a pedra filosofal então, segundo o livro, nada mais seria que controlar com sabedoria os processos psíquicos da alma. Há entretanto uma notável diferença entre os estudiosos da psique e os hermetistas no tocante às relações entre o mundo interior e interior. Segundo a antiga ou a moderna psicologia, o mundo da psique exerce influência em nosso mundo sob a forma de reflexos condicionados, capazes de estimular os processos criativos em sua forma positiva ou causar perturbações emocionais, transtornos ou doenças psicossomáticas em seu aspecto negativo. Nada além disso. Para os hermetistas, entretanto, tudo o que experimentamos em nosso “mundo dos fenômenos” teve sua origem no mundo da psique ou mundo astral, como preferem chamar. Assim, modificando-se a psique ou remodelando-a de uma forma sistemática, pode-se modificar o mundo à nossa volta, que nada mais é do que um espelho que reflete exatamente aquilo que acalentamos em nosso interior. O livro do senhor Pacheco apesar de dar ênfase a essa idéia de que refletimos como um espelho aquilo que cultivamos em nossa psique, deixa claro que as mudanças condicionadas através de práticas descritas em muitos tratados herméticos ou religiosos são perigosos porque não se leva em conta os hábitos arraigados em nossa alma desde a concepção. As diferentes condições físicas, ambientais e principalmente as concepções religiosas e culturais de cada um são fatores difíceis de serem transmutados através de simples fórmulas, da noite para o dia. Assim, exercícios de mentalismo, orações e rituais, palavras de passe, mantras, não serão suficientes para apagar tendências psíquicas de toda uma vida da noite para o dia. Segundo o autor, é por isso que ele se baseia na alquimia da alma, onde o estudante deve trabalhar arduamente a pedra bruta de sua psique adquirida do inconsciente coletivo. E se for persistente poderá, talvez com o decorrer dos anos trabalhando em seu laboratório interior, ver ao final, como resultado, a sua pedra polida e lapidada; objetivo final do labor alquímico. Em suma, o livro do senhor Pacheco encerra uma análise dos estudos filosóficos, teosóficos e metafísicos, acerca de determinadas leis que regem a vida humana. Creio que consegui uma relativa compreensão acerca de muitos aspectos da espiritualidade humana descritos no livro pelo fato de ter vivido a experiência solitária junto às forças da natureza. Notei que por acaso eu já havia deduzido muito daqueles processos da alquimia da alma nos momento de isolamento no meio da mata, em Cianorte. O senhor Pacheco havia me induzido a praticar o labor alquímico, mesmo sem saber nada sobre alquimia ou hermetismo. De posse dos conhecimentos adquiridos em contato com a natureza, pude compreender os segredos alquímicos e secretos revelados no livro. Tenho absoluta certeza que, sem a incursão no interior da mata e, por conseguinte, no meu próprio interior, a leitura de tal livro na me teria grade valia.
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