VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE I

 

               O aprendiz estava sentado à cabeceira de sua cama, na velha pensão onde morava desde que chegou a Curitiba olhando para um quadro que havia pintado há alguns dias com o  intuito de expressar o resultado de um aprendizado que inconscientemente vinha buscando para sua vida desde a adolescência. E que encontrou de uma maneira estranha e inesperada no meio de uma floresta em plena na serra do mar paranaense. O objetivo inicial quando da pintura era apenas de enfeitar o seu quarto. Ao mesmo tempo em que seria uma lembrança viva, sempre pronta a reativar o conhecimento espiritual adquirido nas últimas semanas. Conhecimento que mudaria para sempre todo o rumo de sua vida, muito além de suas melhores expectativas.

               Aquele quadro tinha um valor inestimável para ele. Entretanto; isso era uma coisa pessoal, já que o mesmo simbolizava a maior conquista a que um ser humano possa almejar: a felicidade. Para as demais pessoas poderia não valer mais que alguns míseros reais, para outros nada. No entanto; era fato consumado que agora ele olhava para o seu quadro pela última vez. Aquele desconhecido misterioso o havia convencido a dispor-se do mesmo.

               Envolto nesses pensamentos, com os olhos fixos no quadro, sua imaginação voou ao passado para o tempo em que buscava a felicidade constantemente no mundo sem nunca tê-la encontrado, pois ninguém o havia ensinado que a felicidade devia ser buscada e encontrada dentro de si mesmo. Só agora ele compreendia que independente das condições externas a que um homem possa ser submetido, ele pode encontrar a felicidade e a alegria de viver. Quem encontra dentro de si a felicidade que vem do alto, pode viver em plenitude, mesmo que esteja exteriormente trancafiado nas grades de uma prisão, numa favela, no meio de uma floresta ou num hotel cinco estrelas. É difícil ao homem mediano chegar a essa conclusão.  Mas agora ele compreendia isso. Sabia que essa compreensão por outro lado não suprimia seus sonhos de evolução; de voar cada vez mais alto. Embora agora compreendesse que isso poderia ser buscado de uma maneira mais serena e tranqüila. Não se pode apressar os desígnios de Deus - pensava. Envolvido por estas lembranças, sua mente foi trazendo de volta todas as experiências vividas nos últimos anos...

                Tudo começou há mais ou menos três anos atrás, quando já imbuído de um sonho antigo de vencer na vida, resolveu partir da pequenina cidade de Nova Olímpia, no noroeste do Paraná, onde nasceu e viveu toda sua infância. A tristeza que levou consigo ao deixar para trás os parentes e amigos mais íntimos seria um espinho que ele carregaria na alma por muito tempo. No entanto, sabia que esse era o preço que todos os homens têm de pagar quando são chamados por suas aspirações e ambições, a realizar coisas mais grandiosas e alçar vôos maiores, longe do confortável e seguro ninho que é o seio da família. Ele sabia que não tinha o privilégio de ser como as árvores que, sem nunca sair do lugar, conseguem cumprir a sua missão na Grande Obra da Criação. Entendia que o homem ao contrário, tem de vagar de um lado para outro para traçar o seu destino, representando como um ator numa peça de ficção, muitas vezes por linhas tortuosas, o destino que a Mão Sagrada escreveu. Agora sabia que todos nós somos intérpretes de Deus. Aos poucos, vamos percorrendo o livro da vida, página por página. Não nos é permitido, como num livro, viver os episódios em seqüências diversas. No livro da vida, temos que gravar a cada dia sua história, com suas surpresas e seus dissabores. Para o Criador do livro da vida, nosso destino pode já estar todo escrito, com suas linhas, vírgulas e, cujo ponto final é Ele próprio. Para nós, os aprendizes, nada está definido. Somos criadores do nosso destino, os continuadores da Criação de Deus. Esse é o nosso grande objetivo: continuar a Grande Obra.

               Só agora Carlos compreendia tudo isso e muito mais. Ainda era um aprendiz, como todos os homens o são, desde o mais ignorante até o mais sábio de todos. A diferença era que agora estava apto a evoluir pelo caminho que todos os homens inevitavelmente têm de percorrer, às vezes ainda aqui neste mundo, bem como em outras dimensões da vida, nas muitas moradas que habitaremos na grande casa de Deus: o caminho da evolução espiritual.

               Durante os dois primeiros anos de aprendizado nos caminhos tortuosos da cidade grande, Carlos encontrou muitos inimigos que constantemente o desviavam do rumo que ele desejava percorrer para a realização dos seus sonhos. O convívio com almas de todas as espécies, que passavam por aquela velha pensão, muitas vezes o fizeram fraquejar. Por lá passava gente boa, mas a grande maioria, tratava-se de pessoas desajustadas na vida. Seres solitários que, em busca de um destino melhor acabavam destruídos pelo álcool, pelas drogas e outros vícios como o desânimo e a desilusão que são, como aqueles, igualmente destrutivos. Muitas vezes pensou em sair daquela pensão, pois poderia acabar como um daqueles nômades que por ali passavam deixando apenas lembranças de cenas tristes e melancólicas. Melancolia esta que já parecia incutida nas paredes do lugar. Parecia contagiar até mesmo os mais entusiasmados novos inquilinos em pouco tempo. Muito embora o lugar parecesse inóspito, Carlos era uma pessoa que não gostava de viver mudando de um lugar para outro. Além disso, com os poucos recursos que recebia nos empregos que arrumava, não conseguiria um lugar muito melhor que aquele na capital. Assim foi ficando, acomodado naquela velha pensão nos últimos anos. As únicas mudanças que ele fez nesse tempo foram algumas trocas de emprego, pois nunca estava contente com o mísero salário que as empresas pagavam  pela dura labuta diária para cumprir as metas terríveis estabelecidas nas linhas de produção.

               Depois de muitas tentativas durante quase dois anos em Curitiba, o rapaz resolveu esquecer a idéia de trabalhar nas empresas com a esperança de progredir na hierarquia da cadeia produtiva. Percebeu que as chances eram mínimas. Pensou então em abandonar aquela vida solitária, voltar para sua cidadezinha e levar a vida como Deus quer. Não sentiria vergonha em voltar depois de uma tentativa frustrada. Pelo menos ele havia tentado, quando a maioria das pessoas, temendo as incertezas do caminho, preferiam permanecer sugando a energia e os bens de seus pais, até muito depois do tempo estabelecido pela natureza do ser humano. Era isso que não o conformava. Seus pais já havia feito a sua parte. Cuidaram dele até quando necessitava de cuidados especiais. Dali em diante, achava que todo homem deveria alçar vôos rumo ao seu destino. Foi assim que seu pai o havia ensinado. E ensinado da forma mais correta: através do exemplo.

               Seu pai, embora filho de um comerciante abastado da capital paulista, não pensou duas vezes quando teve vontade de buscar o seu caminho. Viajou rumo ao desconhecido junto a diversos outros emigrantes que vieram colonizar o Norte do Paraná. É claro que o aprendiz sabia que o pai não havia conquistado muita coisa, mas tinha ousado sonhar e seguir seus sonhos. Por causa desse exemplo do pai, ainda teimava em tentar algum futuro na capital. Tinha o sonho de se formar em Administração de Empresas, além de muitos outros que não podiam ser concretizados, dentro das possibilidades do pai, bem como da localização de sua terra, longe de qualquer Universidade.

 

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