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VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ PARTE II |
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Naquele dia, Carlos - esse era o nome do aprendiz - pela primeira vez na vida, resolveu contar essa história para a dona Tereza, proprietária do pensionato, para justificar o súbito desejo de voltar à casa dos pais. - Carlos; você é o inquilino mais honesto, correto e comportado que já passou pela minha pensão. Não quero que vá embora daqui. Por essas e outras vou fazer alguma coisa por ti. Nunca mais vou achar um bom pagador como você - brincou ela. - O que a senhora quer dizer? - Sou amiga de um pequeno empresário, dono de um supermercado no centro da cidade e vou pedir para ele arrumar um emprego pra você. Você me disse que trabalhava no caixa do mercadinho de seu pai, não é? - Sim, respondeu Carlos - mas um supermercado de grande porte é muito diferente da mercearia Santa Clara de meu pai. - Ora; Seu Jonas, dono do Supermercado Bom Preço, não precisa saber dos detalhes. Basta saber que você já trabalhou como caixa e que é um bom moço. E assim, uma semana depois, o aprendiz estava empregado como caixa do Supermercado Bom Preço. O salário não diferenciava daqueles pagos pelas empresas em que ele trabalhou. Entretanto, era um trabalho mais apropriado a ele pelo fato de já estar acostumado com a rotina do comércio. Sem dúvida o trabalho no supermercado era muito melhor do que as linhas de produção das grandes empresas. Depois que arrumou esse emprego, Carlos tinha mais ânimo para sair à noite, coisa que quase não fazia antes porque chegava do trabalho exaurido e só queria cama. O único problema era que a noite na cidade grande o assustava. Era perigoso até se divertir. Era o perigo dos trombadinhas, da violência gratuita, tão comum nas grandes cidades; o perigo das drogas, sempre a espreita para tentar uma brecha na sua vida. Apesar de tudo, nunca se deixou levar pelos caminhos do mal. Seu pai o havia ensinado. O velho falava pouco, pois era de muito pouca conversa; mas sabia transmitir de forma profunda e incutir na alma do filho os bons ensinamentos porque o ensinava da forma mais correta: através do exemplo. Isso ele nunca ia esquecer. Dessa forma, saía na noite curitibana, sem se deixar cair por suas armadilhas cruéis. Numa dessas noitadas em uma danceteria do centro da cidade, Carlos conheceu uma garota que balançou seu coração. Era a primeira por quem ele havia se apaixonado de verdade na cidade grande. E, a paixão foi recíproca. Naquela noite, os dois se divertiram e se confidenciaram apaixonados um pelo outro. Depois disso, passaram a se encontrar freqüentemente, cada vez mais apaixonados. Carlos confidenciou toda a sua história. Em pouco tempo Patrícia já conhecia toda a sua vida e ele a dela. Foi aí que surgiu o primeiro conflito na vida amorosa dos dois. Patrícia era filha de um rico empresário da cidade e sempre andava cercada de seguranças. E o que é pior; de pretendentes ricos. Muito embora ela não desse confiança a nenhum dos rapazes que viviam pajeando-a, visto que estava apaixonada por Carlos, começaram a surgir conflitos na cabeça do rapaz. - Ela é rica, eu sou um pobre coitado, sozinho no mundo. Isso nunca vai dar certo. Eu a amo e ela também diz que me ama. No entanto, por muitas vezes ela não tivera coragem de contar às suas amigas que nos interpelavam sobre a minha origem humilde e o meu trabalho - pensava ele angustiado. Essa situação ficou insuportável quando Patrícia deliberadamente pediu a Carlos para mentir, fingindo-se de filho de algum cidadão famoso e rico perante seus amigos. Foi a gota d'água. A formação moral do rapaz não o permitia viver naquela farsa. - Conviver com alguém que se envergonha de mim diante dos outros: jamais - pensava. Diante disso, Carlos resolveu dar um basta na relação dos dois. O que ele não sabia era que isso não seria tão fácil como abandonar um emprego ruim. Ambos sofreriam muito, porque apesar das circunstâncias da vida, o amor não está sujeito à razão. Assim viveram os dois por um período de idas e vindas; de fins e recomeços de uma história de amor cheia de conflitos pessoais. Mas apesar de tudo, permaneciam apaixonados um pelo outro. Nesse ínterim, por força de tais circunstâncias, começou a germinar na cabeça de Carlos uma obsessão pela riqueza. Freqüentava os lugares mais ricos e badalados da cidade, na maioria das vezes bancados com o dinheiro de Patrícia. E era isso que mais o incomodava. Aceitava a situação porque só assim poderia permanecer perto da menina. Por outro lado sentia-se ferido no ego. Desejava a todo custo subir na vida, progredir rapidamente, para que pudesse estar a altura de sua amada. Na sua obsessão, não percebia que seus sonhos de sucesso e riqueza o estavam afastando de todas as suas boas virtudes e ele estava, em curto espaço de tempo, tornando-se uma outra pessoa. As mudanças na personalidade de Carlos foram percebidas logo, tanto por dona Tereza como pelo Seu Jonas, visto que até esse já havia se afeiçoado pelo rapaz, que sempre se mostrava uma pessoa diligente, prestativa e eficaz no trabalho que desempenhava no supermercado. Muito embora o homem percebesse uma mudança estranha no comportamento do rapaz, não comentou nada, pois não se sentia íntimo dele o suficiente para interpelá-lo sobre suas atitudes. Dona Tereza, pelo contrário sempre o interrogava, querendo saber o motivo de tão brusca mudança. - Carlos, durante esse tempo de sua estada na pensão já me sinto meio que sua mãe. Me diga, por favor, o que o aflige? Acaso você está envolvido com alguma coisa errada? - perguntou a mulher. - O que a senhora quer insinuar dona Tereza? Acha que virei um marginal só porque saio de noite e volto tarde? A senhora está muito enganada! - Isso não meu filho, mas temo que alguém possa tê-lo envolvido com alguma coisa ruim. - O que, por exemplo? - Drogas, por exemplo! Está se drogando meu filho? - Claro que não! A senhora deve estar louca. - Tomara que você esteja sendo sincero porque eu muito lhe estimo e não quero vê-lo numa pior. - Pode ficar tranqüila dona Tereza, não entro mais nessa roubada. Já passei da idade pra isso. Falando isso, retirou-se rapidamente da cozinha da pensão em direção ao seu quarto. - Puxa vida! Será que estou agindo de forma tão diferente para chamar tanto a atenção. Preciso tomar mais cuidado pra não magoar as pessoas que me tem estima - pensou. Por ironia do destino, quem mais sentiu a mudança de comportamento em Carlos foi Patrícia. Ele não era mais aquele por quem ela havia se apaixonado. Na verdade, muito diferente de Carlos, Patrícia era uma menina mais vivida da cidade grande, cheia de histórias para contar e de vivências diversas. Sua vida era permeada por festas de muito glamour, viagens por todos os lugares bonitos; enfim, todas as coisas que o dinheiro podia comprar. Entretanto, aquela vida de futilidades sem objetivo mais profundo, carecia de um novo sentido. Tudo o que se aprende, tudo o que se vê, tudo o que se conhece, se não tiver um objetivo prático, perde o sentido tornando-se fútil. O homem tem necessidade de servir aos demais. Todo aquele que vive uma vida desprovida de um sentido de utilidade, começa a sentir-se vazio. Era assim que Patrícia estava se sentindo. Antes conhecer Carlos, sua vida que, de fora parecia um conto de fadas, cheia de glamour, badalações e viagens, na verdade não a fazia mais feliz. E ninguém havia ensinado a felicidade das coisas simples. Quando conheceu Carlos; o que despertou interesse nela, foi justamente sua simplicidade e sua naturalidade. Tais qualidades ela não havia encontrado em nenhum outro jovem de sua classe social, justamente pelo fato de os mesmos estarem ofuscados pelo brilho falso do glamour e do status. Aquele rapaz do interior simbolizava toda simplicidade que ela, inconscientemente, procurava há tempos. No entanto, Carlos agora estava estranho, não havia mais nele aquele brilho invisível que todos logo percebiam com os olhos interiores quando olhavam para ele, e o admiravam. Diante dessas mudanças em sua personalidade e dos problemas antigos, a chama da paixão foi se apagando para Patrícia, que aos poucos foi afastando-se do rapaz. Como não tinha mais ninguém que pudesse oferecer a ela um sentido mais verdadeiro, foi se deixando levar pelos velhos hábitos de outrora. Foi enturmando-se novamente com os velhos amigos, buscando a diversão e a felicidade que o dinheiro podia comprar. Era tudo o que ela tinha ao alcance. Foi esquecendo-se aos poucos dos valores elevados que buscava para sua vida, pois já não tinha ninguém mais em seu mundo para que ela se espelhasse. Carlos, seu espelho, havia se quebrado. Mostrou um mundo diferente a ela, mas agora nem ele mesmo pertencia ao mundo no qual que ela o conhecera. Era mais uma ilusão para o seu mundo de ilusões... e desilusões. Sendo assim, melhor seria voltar às antigas fantasias artificiais. Resolveu dar um basta no namoro com Carlos, afastando-se definitivamente. Deu-se início a uma obsessão desenfreada de Carlos pela reconquista de Patrícia. E, diante desta obsessão, a menina afastava-se dele cada vez mais. Ela já não mais o admirava porque ele havia mudado demais nos últimos meses e agora já o odiava porque ele não a deixava viver em paz. Vivia perseguindo-a em todos os lugares que ela freqüentava e não admitia vê-la com outros namorados. O rapaz estava transtornado. Nem ao menos imaginava que o maior responsável por aquele abismo criado entre os dois era ele mesmo. E que tudo começou quando ele quis transformar-se em algo que não era. Nos dois meses seguintes Carlos fez tudo o que imaginava ser possível para reconquistar Patrícia. Chegou ao cúmulo de procurar um desses homens, que se anunciam nos jornais, dizendo-se magos e que são capazes de desfazer maus feitos, arrumar caminhos, trazer de volta amores perdidos. Tudo em vão. As coisas iam de mal a pior. Mas ele continuava tentando de tudo. Continuava freqüentando círculos de pessoas envolvidas com esses tipos de procedimento. Conheceu um cidadão que disse que o levaria a um feiticeiro capaz de reatar qualquer relacionamento. Na noite marcada foram os dois para o lugar onde morava o bruxo. Vendo os procedimentos do homem e as exigências necessárias à concretização do feito, ficou assustado com tudo aquilo e resolveu cair fora daquele mundo sombrio. Nessa noite chegou tão assustado na pensão que dona Tereza percebeu a excitação em que o rapaz se encontrava. Perguntou se ele havia sido vítima de um assalto. O aprendiz disse apenas um não mal respondido e entrou para o quarto assustado com o que acabara de presenciar. Naquele dia, Carlos acordou disposto a por um fim em tudo aquilo. Iria pedir as contas ao Seu Jonas, fazer as malas e voltar para sua terra. Levantou-se bem mais cedo que de costume. Queria conversar com o dono do supermercado de antemão. Afinal, o homem era tão bom com ele, merecia uma explicação. Às sete da manhã já estava no escritório do supermercado que ficava nos fundos do prédio. Sabia que Seu Jonas chegava bem cedo ao serviço. Chegou sério e de supetão adentrou ao escritório do patrão. - Com licença seu Jonas, gostaria de conversar alguns minutos com o senhor. - Pois não meu bom garoto, que novidades o trazem tão cedo ao serviço? O rapaz contou brevemente o seu objetivo, bem como os motivos que o levaram a desistir de tudo e voltar à sua terra. - Bem meu rapaz, sua cabeça é seu guia. Mas vou lembrar-lhe que os amores da juventude vêm e passam. Você não pode jogar tudo pro alto só porque um namoro não deu certo. Você não é mais criança. Embora nunca tenha lhe perguntado, vasculhei sua ficha funcional e descobri que já tem vinte e um anos meu rapaz. Além do mais, posso lhe garantir que daqui a algum tempo você já nem se lembra mais dessa guria. - Não é bem assim seu Jonas... - Pode crer! Vamos! – exclamou o homem - vá tomar um café na cozinha e prepare-se para encarar mais um dia. O trabalho é o melhor remédio para apagar os males da mente e também os do coração meu amigo. O rapaz ficou sério e depois de meditar por alguns segundos concluiu: - Mas não é só por isso seu Jonas. Tudo deu errado para mim. Vim para a cidade grande com o objetivo de crescer. E, ao contrário, não evoluí em nada, ou quase nada. Continuo trabalhando no caixa de um supermercado como nos tempos antigos, a única diferença é que agora tenho outro patrão que não é meu pai. Mas continuo sem perspectivas de progresso mais ambicioso para a vida. - É meu filho. Aqui no supermercado você não terá grandes chances de progresso. Muito embora com todos os percalços por que você passou nestes últimos tempos, já devia ter aprendido que o progresso pessoal é uma coisa que só acontece no momento em que você encontra a oportunidade e o momento certo. Muitos passam a vida inteira perseguindo tal intento e assim perdem a oportunidade de realizarem o verdadeiro progresso a que todos nós estamos predestinados por Deus. Não estamos aqui para evoluir apenas materialmente. Estamos aqui para evoluir em todos os sentidos: física, mental e espiritualmente. A evolução desse todo, seria a máxima realização da vida humana. Pouquíssimas pessoas atingem esse objetivo nesta vida. Entretanto a evolução espiritual deve ser sempre colocada em primeiro plano, visto que os demais são transitórios. Só o espírito é eterno. Desenvolver a espiritualidade é o objetivo maior da vida. Os demais campos do desenvolvimento humano devem ser sempre colocados em segundo plano. Carlos começou a pronunciar alguma palavra mas foi interrompido pelo patrão: - Por favor Carlos ouça primeiro tudo o que tenho a lhe dizer, só depois faremos o acerto de suas contas se você o desejar, tudo bem! - Está certo Sr. Jonas. - Meu jovem; se estou querendo ajudá-lo é porque tenho muita estima e consideração por você. Por isso, antes que você decida tomar uma atitude impensada, vou contar-lhe um pouco da minha história que nesse ponto da decepção amorosa, tem um pouco a ver com a sua. Espero que a minha experiência sirva de exemplo para que você não tenha que passar pelos mesmos transtornos que passei. Muito embora quero que saiba que amor e paixão são duas coisas diferentes e, pelo visto você ainda não conhece a diferença. Mas, vamos aos fatos. "Tudo aconteceu quando eu tinha vinte e seis anos de idade. Estava namorando uma mulher há dois anos e resolvemos nos casar. Ao cntrário de sua história, nós nos dávamos muito bem e tudo se encaminhava para uma vida plena e feliz. Se era paixão, aquilo já havia se transformado em um amor verdadeiro. Em pouco tempo nos casamos. Vivíamos em uma relativa harmonia visto que eu vinha de uma família de posses e todo o resto se completava por nós. Não tínhamos muitos problemas. Foi quando de repente, por uma ironia do destino, justamente quando preparávamos para ter o nosso primeiro filho, Rosália, minha esposa, foi acometida por uma doença cruel e incurável que em um ano e meio ceifou-lhe a vida. Nos dois anos que se seguiram, minha vida se tornou um martírio. Fui entrando em uma depressão terrível que me levou a um tratamento psiquiátrico duradouro. Como se não bastasse, nesse ínterim perdi a minha mãe, ficando praticamente sozinho no mundo, visto que minhas duas irmãs já haviam se casado e moravam em lugares longínquos que nos afastaram definitivamente. Diante do ocorrido fizemos a divisão dos bens que meu pai e minha mãe, com seu trabalho duro e persistente na lavoura havia conseguido. Uma pequena fazenda lá pelas bandas de Cascavel, no sudoeste do Paraná. Era uma quantia razoável de dinheiro que deixaria nós três em bom estado financeiro. Minhas irmãs conseguiram fazer um bom proveito da herança. Uma delas comprou alguns imóveis em uma cidade do interior de São Paulo e a outra já mais apegada à agricultura, comprou uma bela porção de terras em Mato Grosso do Sul. O único que desperdiçou em pouco tempo o sacrifício de uma vida inteira de meu velho pai e minha mãe fui eu. Devido ao fato de todos esses transtornos ocorridos precocemente em minha vida, em pouco tempo me transformei numa outra pessoa. Entreguei-me então, por uma fraqueza de espírito a uma vida desregrada. Nada mais fazia sentido para mim. Não admitia ter perdido a pessoa que amava tão rapidamente. Julgava-me um azarado e injustiçado. Desliguei-me das coisas de Deus e cheguei ao ponto duvidar de sua existência. Entreguei-me ao vício da bebida e da prostituição. Assim; em pouco tempo destruí toda a minha parte na herança. Quando dei por mim estava sem nada. Chegou um dia em que eu estava já no fundo do poço, encurralado pelo vício do álcool. Ninguém já não me confiava emprego. Desesperado e envergonhado de tudo o que havia feito, resolvi sair pelo mundo, sem destino. E, passei a viver pelos albergues ou marquises das ruas; de cidade em cidade. Certa ocasião, para arrumar alguns trocados para o vício e o pão de cada dia, fui para o litoral do Estado. Estabeleci-me em Guaratuba. Era alta temporada para o turismo e eu faturava alguns trocados vendendo refrigerante e cerveja na praia. Meus únicos bens materiais nessa época eram; uma mala velha com algumas peças de roupas sujas e uma caixa térmica de isopor. Olhava para aquilo e lembrava de todos os bens que eu havia jogado pelos ares pelo simples fato de ter sido um fraco, incapaz de encarar as adversidades da vida. Quantos passaram pelos mesmos tormentos que passei e permaneceram de pé. Sentia-me um fracassado e sabia que tudo o que fiz de errado em nada havia me ajudado. Nesse trabalho de vendedor de praia, arrumei um companheiro, também alcoólatra. Fora o vício era um cara legal. Trabalhávamos juntos e à noite íamos para um pensionato, onde alugamos um quarto em conjunto. Conversávamos muito sobre as nossas tragédias e essa amizade até elevou um pouco nossa estima a tal ponto que ficamos um mês e meio sem tomar nada de álcool. Mas sabíamos que bastava o primeiro gole. A fraqueza veio novamente no final de uma semana ruim para o nosso negócio, quando não conseguimos vender nada devido a um tempo chuvoso que afastou as pessoas da praia por diversos dias seguidos. Não tínhamos dinheiro nem para pagar a pensão. E, como não éramos de confiança para a dona do lugar, sabíamos que não seríamos perdoados. Teríamos que pagar ou a velha chamaria a polícia. Nesse momento, resolvemos encher a cara para anestesiar nossa dor e angústia interior, consumindo toda a bebida que não havíamos vendido. Depois do porre, totalmente embriagados, desaparecemos estrada afora na esperança de ir para outra praia e, principalmente fugir da velha. Adormeci em um canto qualquer da mata e só acordei na manhã seguinte quando o sol já se despontava alto no horizonte. Só aí me dei conta de que havia perdido meu companheiro. Não sei se ele havia se perdido devido à embriaguez ou se realmente fugiu de minha companhia pesada e triste. A partir daí, sem destino, vaguei três dias seguidos, ora nas estradas pegando carona, ora pelo meio da floresta, onde muitas vezes buscava o repouso noturno. Foi assim que na manhã do quarto dia de andança e desespero aconteceu um encontro que mudou toda minha vida. Estava andando nas proximidades da cidade de Morretes olhando as belezas da serra do mar, quando resolvi entrar mata adentro sem rumo em busca de algo que nem eu mesmo sabia o que era. Cerca de meia hora depois, avistei uma casinha incrustada na base de uma montanha. Resolvi ir até lá para pedir um prato de comida. Foi aí que encontrei de novo a luz brilhando no fim do túnel. Aquele ser estava ali, predestinado por Deus para por um fim no meu caminho sombrio e cheio de trevas. Era a mão de Deus agindo por seus caminhos mágicos e desconhecidos. Pedi um gole de água e de quebra um prato de comida. Travamos uma breve conversa informal, quando notei que aquele senhor demonstrava interesse por mim. - Você parece uma pessoa bem instruída para um mendigo, meu jovem! Disse-me ele. - Por que pensa assim? - indaguei. - Pelo seu modo de falar, nota-se que és uma pessoa que tem uma certa cultura – disse o homem. Nesse tom de informalidade fui aos poucos me abrindo e contando-lhe toda a minha história. Ele também acabou me contando uma pequena parte da sua naquele dia. Digo isso porque sua história de vida foi contada somente depois de termos adquirido confiança mútua, pois ele fazia - e faz - questão de manter ocultas as suas origens, visto que fora um personagem muito conhecido da elite curitibana em um passado distante e não gostaria de chamar a atenção pelo fato. Carlos ouvia atentamente seu Jonas sem fazer questionamentos. Era de sua índole não interromper os outros quando falavam. - Seu nome era José – continuou o outro. Tinha mais ou menos uns cinqüenta e poucos anos e me disse que vivia ali isolado da civilização, como um ermitão há pouco mais de dois anos. Foi o lugar onde ele finalmente disse ter encontrado o seu verdadeiro destino e também a sua paz interior. Diante de meu estado precário, me propôs hospitalidade em sua casa por um período de tempo em que achasse conveniente. Nesse ínterim, se eu desejasse, ele passaria o seu aprendizado dos últimos dois anos de solidão, que tanto o ajudaram. Como eu não tinha nada a perder, aceitei o convite. Embora o achasse um sujeito meio esquisito e não ter mais afinidades com coisas místicas, resolvi ficar uns tempos com ele. Pelo menos teria uma casa e comida por alguns dias. Acabei ficando mais de seis meses na solidão daquelas montanhas. Poucas vezes íamos à cidade somente em busca de mantimentos. Foram seis meses sagrados para mim. Significaram a salvação de minha vida... Talvez; a salvação de minha alma. Saí de lá um novo homem, espiritualizado pelos ensinamentos, não do mestre José; que é um mero observador e comunicador das coisas de Deus. O nosso mestre foi a natureza, uma coisa tão original e simples que está ao alcance de todos; como todas as coisas que são verdadeiramente de Deus. - Puxa! Nem imaginaria que um homem bem sucedido como o senhor já passou por tudo isso – disse Carlos pela primeira vez interrompendo seu interlocutor. - Pois é meu filho. A vida é cheia de idas e voltas. De fins e recomeços. Ascensões e quedas. - E o que aconteceu depois disso para que o senhor em pouco tempo conseguisse se reerguer? - Um dia, com mais tempo, contar-lhe-ei como vi chover bênçãos dos céus a partir do momento em que passei a trabalhar para o Grande Patrão. Agora o que interessa é como posso ajudá-lo. Sei que não posso dar conselhos porque cada um aprende mais com vivências que com palavras. E creio que se você for receptivo aos ensinamentos da floresta irá aprender muitas coisas novas. - Então; por favor! Diga-me onde o senhor quer chegar com essa história. Sou todo ouvidos. - Então continuemos com os fatos - continuou ele - dois anos depois do ocorrido, já totalmente transformado, voltei à casa de meu mestre para uma visita. Descobri que ele havia tomado gosto pela coisa e agora vivia ensinando a quem o procurasse. Hoje, onze anos depois, sua fama correu toda região e ele regularmente atende grupos de quatro a seis pessoas para um retiro de evolução espiritual que dura de quinze a vinte dias. Sempre mantenho contato com ele porque nos tornamos grandes amigos. Por coincidência, falei com ele antes de ontem após uma celebração em que participamos juntos aqui em Curitiba, ocasião em que me disse que daqui a alguns dias fará um retiro com algumas pessoas interessadas em seu processo de evolução espiritual. Muitas pessoas que eu indiquei, voltaram de lá iluminadas por seus ensinamentos. Outros não vislumbram nada de especial para suas vidas. Entretanto, afirmo que se você se identificar com os ensinamentos do mestre e seguir os seus passos, descobrirá o poder capaz de realizar todos os seus sonhos mais caros. Todos. Se você quiser tentar, posso falar com ele a seu respeito. Encontro-me com ele todos os domingos pois participamos da celebração da missa na mesma igreja. - Como assim? A serra do mar não fica tão perto daqui. Não tem outra cidade mais perto? - Morretes. - E porque ele vem à Curitiba? - Isso se deve a um fato curioso meu jovem. Correm boatos na cidade que mestre José é um bruxo da floresta que enfeitiça as pessoas e que abusa sexualmente dos jovens que lá vão em busca de resultados mágicos. Coisas desse tipo. Por isso ele é mal visto por muitos de lá. Principalmente pelos religiosos. Prefere vir a Curitiba, onde anonimamente exerce o seu catolicismo fervoroso. Não tenha medo do que lhe disserem quando procurar pelo homem. São apenas mitos que o povo cultiva quando defrontam-se com alguém que vive de um modo diferente.
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