VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE III

 

               Uma semana depois daquela conversa, o aprendiz preparava-se para conhecer mestre José. Já lera muitas histórias de pessoas que viviam isoladas em sua busca espiritual através de livros. Agora iria conhecer um ermitão de verdade. Quem sabe o seu Jonas tinha razão. Do contrário seria uma experiência a mais. Além disso, o homem não cobrava nada por seus ensinamentos. Apenas pedia uma contribuição que seria suficiente para a alimentação dos aprendizes.

               A viagem; o jovem preferiu fazer descendo pela estrada da graciosa para admirar as belezas da serra do mar. Por volta das nove horas da manhã desembarcava na bela cidade de Morretes em busca de uma promessa de realização de seus sonhos. Mal sabia que seus sonhos mais caros ainda eram apenas uma sombra de outros sonhos que ele viria a vislumbrar e, por conseguinte realizar em sua vida. Nem imaginava que de agora em diante iria trabalhar não apenas em prol da realização de seus sonhos, como também em prol da realização dos sonhos do Sonhador. Realizar os ideais do Grande Idealizador de todas as coisas.

               Depois de uma breve pausa para alimentação em Morretes,  com o trajeto do caminho desenhado à mão por seu Jonas, Carlos foi logo em busca de um táxi que pudesse levá-lo até as imediações do lugar onde habitava o eremita. Ficava bem perto de um vilarejo de agricultores que plantavam hortaliças, chamado Vila Verde.

               Pouco tempo depois, o aprendiz chegou ao seu destino. O eremita já o esperava no lugar combinado. Mestre José parecia mais velho do que a idade que Carlos deduzira, pelas contas que fez quando seu patrão contou sua passagem pelo lugar. Parecia um mago daqueles livros misteriosos que ele gosta de ler e que de certa forma o assustam um bocado. Isso se devia ao fato de o velho possuir barbas e cabelos longos; totalmente brancos como a neve. Sentiu entretanto, uma mística benéfica naquele senhor que transmitia-lhe um sentimento de segurança muito grande e uma paz infinita. No caminho por uma pequena trilha na mata os dois foram conversando sobre trivialidades até chegarem à casa.

               Ao chegar ao local onde morava o homem, Carlos ficou mais aliviado sobre o modo de trabalho de mestre José, quando viu num pedaço de madeira pendurado na varanda frontal da casa um letreiro habilmente trabalhado, com a seguinte mensagem:

"SOU APENAS UM APRENDIZ E ESTOU NESTE MUNDO A SERVIÇO DO GRANDE REI..."

               Logo abaixo da frase, entalhada na madeira, havia uma imagem do rosto de Jesus Cristo, dando um complemento ao sentido daquela frase magnífica. Carlos entendeu a mensagem. E isso afastou seus pensamentos de cisma do velho eremita. Com certeza, aquele não seria mais um dos muitos pseudomagos que ele conhecera através dos livros e mesmo da vida real.

               Ao contrário do que ele imaginava a casa era espaçosa e possuía um certo conforto. Tinha energia elétrica e até televisão e geladeira. Mestre José contou-lhe que já fora muito mais radical, mas que agora havia adotado de novo algumas mordomias da cidade grande, visto que não precisava mais de isolamento total para encontrar o que precisava. Já havia encontrado o caminho que procurava e agora só ficava ali por opção de vida e, principalmente para cumprir a sua missão de ajudar os outros.

               - Quem precisa de isolamento total a partir de agora serão vocês - disse ele. Portanto, a partir do início dos trabalhos, ninguém mais terá contato com o mundo exterior. A televisão, o rádio e o celular serão banidos durante o aprendizado.

               Carlos observou atentamente e não notou a presença de mais ninguém na casa.

               - E os outros participantes? - perguntou.

               - Um deles, o César, deve chegar até à noite porque mora aqui nas redondezas. Um está dormindo, pois chegou há pouco, veio de Santa Catarina e a última que é uma mulher, ainda não chegou.

               - Não sabia que o Senhor aceitava mulheres no grupo.

               - Não faço acepção de pessoas. Homem e mulher são iguais perante Deus. Mas já vou avisando: não admito nenhum tipo de envolvimento durante o aprendizado, sob pena de excluir imediatamente os dois do grupo. Qualquer afinidade, além dos laços de irmandade espiritual entre os membros deverá ser descartada. Nada deve afastá-los do seu aprendizado nesses dias, porque não há um minuto se quer a perder visto que o vosso tempo é curto e o meu também. Todos que aqui vêm são pessoas destinadas por amigos meus de grande estima, com a garantia expressa de que virão em busca de exclusiva iluminação espiritual.  Sobre estas regras gerais falarei mais detalhadamente depois com o grupo, de um modo geral.

               No fim da tarde, todos os quatro componentes já estavam devidamente instalados em seus aposentos. Por volta das oito horas da noite todos foram convidados ao jantar e logo após o mestre começou a discorrer sobre as regras impostas ao bom andamento daquilo que ele chamava de retiro.

               A primeira surpresa é que aquele seria o primeiro e único jantar cordial oferecido por ele. Todas as demais refeições e cuidados gerais com a casa, asseio e limpeza, correriam por conta dos aprendizes. Quem não soubesse fazer alguma das obrigações necessárias ao bom andamento da pousada, que o aprendesse com urgência, sob pena de estar sobrecarregando os outros em seus afazeres.

               A primeira semana de treinamento tratou da adaptação à vida isolada da civilização, conhecimento da vida de cada um, bem como da aprendizagem e divisão de tarefas entre os membros.

               Carlos passou os três primeiros dias com uma ansiedade latente, devido à solidão do lugar. Também percebia esta angústia de adaptação nos demais companheiros. A harmonia com o lugar, foi-se conseguindo aos poucos. Nesses dias o que de positivo se conseguiu, foi o conhecimento mútuo entre os participantes.

               Logo após o café da manhã iam os quatro jovens e mestre José para um local bastante aprazível no lado esquerdo da casa onde havia uma espécie de área de lazer para os participantes. Próximo a uma nascente que descia deslumbrantemente da montanha formando naquele local uma bela cachoeira, havia uma área com alguns bancos de madeira e uma mesa, onde faziam todos os dias uma espécie de piquenique, no qual o importante era que cada um contasse suas experiências de vida. Segundo o mestre, aquele já era o primeiro exercício. O exercício da amizade e da troca de experiências.

               Somente no final do sexto dia, como que encerrando aquele tipo de atividade, mestre José disse aos aprendizes:

               - Como vimos; através desta experiência de conhecimento mútuo, ninguém aqui é perfeito. E todos devem aprender a respeitar as diferenças, bem como a perdoar as pequenas falhas dos companheiros. Os outros são os nossos maiores mestres se aprendermos a observar sem espírito crítico e julgador. Aprendemos tanto com seus acertos quanto com seus erros. Daqui a mais alguns dias será a minha vez de expor a minha experiência de vida. Antes porém, quero treinar o espírito de vocês para que se torne mais compreensível e útil o que vou lhes contar a meu respeito.

               No dia seguinte, após o café e a oração da manhã, o mestre especificou que os quatro participantes deveriam subir junto com ele até o topo da montanha maior cuja base ficava há cerca de um quilômetro à direita da casa onde estavam. Segundo ele; lá em cima ficariam reunidos por um bom tempo para ouvirem uma série de conhecimentos que ele havia adquirido no contato com a natureza. Esse ato seria repetido por alguns dias e seria a base de todo o “treinamento”.

               Uma exigência que chamou a atenção dos jovens foi o fato de que todos deveriam seguir o mestre na íngreme subida repetindo continuamente, de forma pausada e ininterrupta a oração do Pai-nosso. A única exigência do mestre José: todos deveriam orar prestando atenção absoluta nas palavras da oração. Ninguém deveria pensar em qualquer outra coisa. Deveriam, entretanto, com a máxima simplicidade possível, prestar atenção nas palavras que pronunciavam. Somente isso. Isso deixou os integrantes do grupo encucados.

               - Porque será que o mestre faz essa objeção? Seria esse um exercício espiritual incutido pelo mestre de uma maneira sutil? - Pensou César.

               Apesar da curiosidade ninguém teve a coragem de perguntar. Não tinham ainda um laço de amizade mais íntimo com mestre José e todos receavam expor suas curiosidades iniciais.

               Um outro fato curioso, percebido por todos os participantes logo nos primeiros dias era que, após a subida, chegando ao topo da montanha o mestre perguntava sobre as peculiaridades que cada um havia notado no trajeto, visto que a cada dia a equipe fazia a subida por uma trilha diferente. Feitas as observações de  cada aprendiz, o mestre falava durante seguidas horas, expondo de forma espontânea, sobre as leis universais e sobre como tudo no universo é regido através de leis imutáveis; demonstrando um conhecimento profundo, tanto da ciência tradicional como das ciências ocultas. Ele explanava de maneira magnífica sobre as semelhanças entre as leis da matéria e as leis do espírito.

               - Tudo o que existe no universo é regido por leis infalíveis desde o mecanismo de gravitação dos planetas até o de um átomo ou molécula - disse ele certa ocasião. Vários cientistas afirmaram nas leis da Física e da Química que para toda ação existe uma reação. Outras vezes a ciência disse: no universo nada se cria, tudo se transforma. Creio que todos vocês aqui presentes já tiveram conhecimento destes enunciados através dos livros didáticos na escola. Devem saber que até mesmo a energia se transforma continuamente em outras formas de energia.

               O mestre deu uma longa pausa seguido de um silêncio geral dos participantes.

               - Da mesma forma as coisas funcionam no mundo espiritual ou como queiram no nosso mundo interior. Jesus Cristo, de forma análoga aos cientistas da matéria repetiu estes mesmos enunciados, referindo se à maneira de Deus agir em nós. Quem lê a Bíblia com um pouco de atenção vai encontrar alguns dizeres como: "Não julgueis e não sereis julgados... porque com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos". Percebam vocês que aqui se trata de uma alusão à lei universal da ação e reação, aplicável ao homem como um ser espiritual. Ele ensinou também a regra de ouro, que é a máxima da vida: “Não faça aos outros o que não desejaria que vos fizessem", demonstrando a inexorabilidade da lei da ação e reação ou a lei de causa e efeito.

               - Sr. José, o que o senhor diz a respeito da nossa condição de vida e morte? De onde viemos? Para onde vamos? - perguntou César numa outra ocasião.

               - Sobre de onde viemos e para onde vamos parece-me que é um segredo absoluto que não nos é permitido conhecer. Tendo em vista que todas as coisas de Deus são para o bem e para a evolução, creio que a vida continua sempre de uma maneira melhor e mais elevada. Entretanto, tudo que eu dissesse a mais a esse respeito seria mera especulação. Não nos é permitido saber nem o que acontecerá daqui  cinco minutos na nossa vida porque assim foi determinado pelo Criador.

               Sobre a morte, que aparentemente suprime a existência do homem, Jesus provou sua inexistência com sua própria experiência de vida e ressurreição. Assim, devo afirmar a vocês que um dos maiores conhecimentos espirituais que vocês devem aspirar será o reconhecimento de que a morte não existe. Como disse o apóstolo Paulo: "Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados".  Entretanto sempre devemos ser meticulosos a respeito dos segredos que pertencem a Deus. Jamais queiram saber ou julgar que saibam alguma coisa a respeito do futuro. Já disse: estes segredos pertencem a Deus. Tudo o que vos disserem sobre o além vida; céu, inferno, reencarnação é mera especulação. Pelo menos eu creio assim. A nossa vida e nosso conhecimento são: o passado e o presente. O amanhã a Deus pertence. Vocês não precisam acreditar no que estou dizendo agora porque todos têm a liberdade de pensar e acreditar no que julgam correto. Entretanto, digo que quando reconhecerem que a vida vem de Deus e que nada que vem de Deus não tem fim, estarão realmente espiritualmente desenvolvidos. Isso não deve ser imposto a vós por mim, nem por ninguém. Somente pela auto-espiritualização e pela busca constante de Deus é que vocês tomarão consciência destas realidades. Quando chegarem a ponto de perceberem a presença de Deus agindo em tudo; tereis atingido o conhecimento. É muito difícil compreender a presença de Deus em tudo e em todos, mas esta sabedoria é o limiar da iluminação espiritual.

               E assim o mestre foi passando com o decorrer dos dias, suas experiências aos jovens aprendizes que o admiravam cada vez mais porque ele falava com autoridade e convicção.

 

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