VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE IV

 

               Na noite do décimo segundo dia, depois das orações que havia se tornado habituais, após as refeições, o eremita pediu para que os integrantes acordassem mais cedo que de costume na manhã seguinte porque naquele dia iriam preparar um lanche para levar, pois iriam ficar lá em cima muito mais tempo que de costume.

               Todos ficaram de certo modo mais aliviados pelo fato de que nos dias anteriores, subiam logo ao nascer do sol e só voltavam por volta de umas três ou quatro horas depois. E isso faziam sem terem comido coisa alguma antes e durante a estada lá em cima. Os participantes reclamavam ao mestre pois a subida roubava as suas energias e muitas vezes chegavam lá em cima já com fome.

               Carlos, por exemplo, passava uma fome terrível, pois tinha um bom apetite e sempre fora acostumado a comer diversas vezes ao dia. Tinha esse hábito devido ao trabalho com o pai nos tempos da juventude no mercado, visto que a casa ficava no fundo do mesmo e ele ficava o dia inteiro beliscando. Podia faltar muitas coisas na sua vida; comida entretanto nunca faltou. Aquelas manhãs de jejum lhe traziam recordações apenas do tempo em que trabalhou nas linhas de produção em empresas curitibanas. Tinha hora marcada para comer e aquilo para ele já era um verdadeiro martírio. Entretanto nada se comparava àquele jejum absoluto no meio da floresta devido ao fato de que o esforço da subida o deixava exaurido. Mas já que estava ali, tinha de cumprir as regras. E, mestre José já havia ensinado que esse era um excelente exercício espiritual. Falara sobre a utilização do jejum em quase todas as religiões do mundo. Do seu objetivo de purificar os fiéis. E dos benefícios espirituais que essa prática pode trazer aos iniciados na busca pelo conhecimento. Além de tudo isso, era uma regra e devia ser seguida à risca – dizia ele.

               Na manhã seguinte, com a alma mais aliviada, sabendo que não mais sofreriam os martírios do jejum, os jovens aprendizes iniciaram a escalada da íngreme montanha justamente, como de costume, no momento em que o sol iniciava a sua escalada no horizonte entre as duas serras que ficavam do lado oriental do acampamento.

               Somente após a costumeira subida, acompanhada pela ladainha do Pai Nosso, foi que mestre José fugiu da rotina das conversas dos dias anteriores. Pediu para que todos se acomodassem sob a sombra de uma das diversas árvores formando um semicírculo e o ouvissem com a máxima atenção pois aquele seria o dia em que começaria a expor seu despertar espiritual. Pediu novamente atenção total de todos e iniciou seu discurso:

               - A partir de agora lhes contarei a minha experiência espiritual e creio que isso será um momento crucial para o vosso aprendizado. No entanto, gostaria de ressaltar que não desejo em hipótese alguma que nenhum de vocês pense que irá conquistar alguma coisa se limitando a seguir os meus passos. A coisa mais importante que aprendi e é isso que quero passar a vocês é justamente o fato de que não existe um caminho específico para atingir a iluminação espiritual. Houve um tempo em que se pensava, e ainda existem muitos que pensam até hoje, que seu caminho espiritual é o único. Vislumbram a luz de Deus e querem passar isso a todos como se fossem os únicos que mereceram descobrir o caminho certo e querem a qualquer custo fazer com que os outros sigam atrás deles por aquele caminho. Pobres ignorantes. Não sabem que o caminho de Deus é o caminho de todos os homens. Todos! E que cada um o segue por um atalho diferente. Não percebem que existe um mundo individual para cada ser humano e que cada um vive imerso nesse universo subjetivo impenetrável aos demais. Quem não admite essa realidade não é ainda verdadeiramente iluminado porque "só o é" aquele que consegue enxergar a Unidade nas diversidades.

               Mestre José interrompeu seus comentários como que de um susto e falou de súbito:

               - Desculpem-me; me empolguei no discurso e falei em uma língua que ainda não compreendem totalmente. Mais tarde, compreendereis isso. E, posso lhes garantir, esta compreensão é muito simples e pode vir muito rapidamente a vós. Basta aprender a realizar o exercício que mantém todo o universo em funcionamento e que é a chave da iluminação espiritual. O exercício da emanação de amor.  Para encontrar a luz que brilha e ilumina todo o universo, nos seus planos físico e espiritual, basta exercitar a regra de ouro. Não pense, não deseje, não faça a nenhum semelhante aquilo que você não quer para si mesmo. Esse é o único segredo. Jesus resumiu toda a Lei e os profetas neste ensinamento. E olha que eu não estou falando de um mestre espiritual dos muitos que ajudaram e ajudam a humanidade. Estou falando do Cristo Vivo  e não de homem nascido da carne. Porque acreditem meus amigos: ele não era um dos nossos. Não era da nossa estirpe. Por isso, utilizo-me dos seus ensinamentos para passar minha aprendizagem. Porque suas palavras são espírito e vida. Foi Ele o Mestre dos mestres. Nós outros, somos todos aprendizes.   

               Mestre José deu uma pequena pausa, para tomar um fôlego, pensou por um momento e sentenciou:

-         Nunca se esqueçam destas palavras:  "O amor é a chave secreta que abre as portas do paraíso".

               Ditas estas palavras, permaneceu por alguns instantes em silêncio, como que para dar um tempo para que os aprendizes meditassem sobre elas. Todos ficaram calados. Um silêncio profundo. Fazia parte das regras rígidas ditadas nos primeiros dias. O mestre pediu para que em todos os momentos fosse falado apenas o mínimo suficiente; visto que o objetivo seria aprender com o silêncio da montanha e com a solidão da floresta.

               Diante de um silêncio aterrador, o eremita foi até o seu cantil e bebeu um pouco de água. Os aprendizes permaneciam calados quando mestre José chegou e continuou:

               - Antes de contar minha iluminação, vou esclarecer-vos a respeito do fato de somente hoje, após quase duas semanas de contato, achei que era chegada a hora de me abrir com vocês. Havia um motivo oculto para nossa subida ao monte sempre acompanhado pelas orações.  Lembram-se de que todos os dias, durante um momento, chamava cada um de vocês em separado e fazia questionamentos a respeito das peculiaridades do caminho.

               - Claro que lembro. - disse César. - E sempre notei que subíamos por locais diferentes a cada dia.

               - Lembro-me também que o senhor sempre pedia que prestássemos a máxima atenção nas palavras da oração do Pai-nosso, mas que fizéssemos isso de uma maneira bem simples e espontânea. - Replicou Suzana.

               - Pois é - continuou o mestre. - isso tinha um motivo muito especial. Na verdade esse foi um dos exercícios espirituais, visto que o jejum também se trata de um exercício importantíssimo na busca a Deus. Também a narração da vivência de cada um, sem restrições, conforme pedi a cada um, torna-se um exercício que alivia a alma e, por conseguinte, nos aproxima de Deus. É como o alívio da confissão de culpa que os católicos sentem quando saem do confessionário - entendem?

               - Sim! - responderam todos em uníssono.

               - Mas, continuando - prosseguiu mestre José - o segredo da oração era, além do seu objetivo prático, que é a comunicação com Deus, também o de revelar o nível de concentração de cada um de vocês. À medida que chamava cada um à parte e perguntava sobre o percurso, notava o nível de entrega de cada participante e de forma sutil reforçava sempre para que rezasse com o coração e com a alma. Todo aquele que dizia que não tinha prestado atenção em praticamente nada no percurso, eu o parabenizava em segredo, pois havia feito a entrega total no momento de oração. E, suplicava para que a partir de agora, pelo resto de sua vida orasse daquela forma. Esse é um dos segredos da oração: a entrega total. Não pensar, não ver e procurar não ouvir mais nada durante os momentos de contato com Deus. Fazer a entrega total. Não precisa ser uma oração bem elaborada, que resuma suas necessidades pois, como Jesus disse: Deus sabe das nossas necessidades antes de o pedirmos. Portanto o que vale, não são as palavras e sim a entrega. Somente através da supressão das coisas do mundo é que chegamos a Deus.

               - Meu Deus - pensou Carlos - Como fui ingênuo. Não havia percebido o sentido de tudo isso até hoje. Estou de certa forma envergonhado, visto que os companheiros  já devem ter descoberto o segredo da oração de entrega total bem antes e só estavam perdendo tempo naquele exercício por minha culpa.- Olhou para o mestre e para os demais integrantes com um sentimento de que era mesmo muito ingênuo.

               Mas interrompendo seus pensamentos de autocomiseração, como que adivinhando que um clima de dúvida pairava na mente de todos os aprendizes e não somente na cabeça de Carlos, mestre José dirigiu-se ao grupo e falou:

               - Meus amigos, não se enganem. A evolução espiritual é um processo lento e contínuo. Ninguém aqui é obrigado a conhecer os meus caminhos de aprendizagem antes que eu lho revele visto que, como já lhes disse antes, este é meu caminho, não o vosso. Cada pessoa encontra o seu caminho e sua própria forma de contato com Deus. E lembrem-se: Deus não nos apressa nunca. Fez a todos nós dotados de livre arbítrio, para que através desta liberdade, possamos descobrí-lo e resolver por livre e espontânea vontade, voltar para a casa que Ele preparou para cada um de nós desde a fundação do mundo. Um dos maiores segredos que levei mais de cinqüenta anos de minha vida para descobrir e que descobri somente aqui no meio dessa floresta através do isolamento, da oração e do jejum, foi de que por todos os caminhos que possamos seguir, estamos indo em direção a Deus. A doença, o sofrimento, a dor, o amor, a alegria, a felicidade, a maldade que alimentamos por ignorância; tudo isso, por incrível que pareça, mais cedo ou mais tarde acaba em Deus. O objetivo maior desse aprendizado que estou lhes passando é exatamente que vocês tenham consciência destas verdades que acabei de dizer. Verdades que não me pertencem, porque são verdades universais. Assim, não se preocupem pois esses dias de retiro retratam apenas uma pequena porção do vosso aprendizado. Eu estou aqui há onze anos e ainda continuo aprendendo.

               O mestre José ficou calado por alguns instantes esperando por algum questionamento da parte dos aprendizes. Todos permaneceram calados.

               - Vocês têm alguma pergunta.

               - Não. Responderam os jovens em coro.

               Não havia dúvidas. Todos estavam saciados pelos ensinamentos altruístas do mestre José.

               - Então por hoje chega de conversa. Vamos comer e dormir um pouco aqui no alto da montanha. Depois desceremos para os afazeres da casa.

               Na manhã seguinte lá estavam os jovens novamente no cume da montanha para ouvirem as histórias do velho eremita que todos já admiravam e respeitavam. Ainda mais agora que o mestre começava a revelar-lhes os segredos de sua vida.

               - Meus amigos! A partir de hoje contar-lhes-ei um pouco de minha história triste pelos caminhos tortuosos da vida. Falar-lhes-ei sobre coisas que só confio àqueles que tenho estima e consideração. Já os considero como filhos. Quero apenas solicitar que tudo o que ouvirem com respeito à minha vida particular morra aqui no alto desta montanha, visto que tenho um passado onde a minha vida social e política era muito ativa. E, se muitos souberem quem eu sou, acabar-se-á toda a minha privacidade. Posso confiar em vocês?

               Todos concordaram plenamente assumindo responsabilidade de sigilo absoluto sobre o que ouviriam. Então o mestre José iniciou:

               - Meu primeiro mestre espiritual foi minha catequista, na paróquia da pequena cidade onde passei minha infância. Mas depois eu evoluí intelectualmente e achei tudo aquilo muito simples e ridículo para mim. Que grande mal eu causei a mim mesmo quando me julguei dono da verdade. Não percebi que Deus estava nas coisas mais simples do dia a dia. Devido à ignorância criada pela falta de humildade, meu mestre após aqueles tempos foram: o abismo e a escuridão. Esqueci-me de Deus. Esqueci que Ele era simples e fácil de se ver e compreender porque era Luz. E a luz se vê de perto e de longe... E caí no abismo. Progredi financeiramente, tive sucesso e dinheiro; mas como não segui o caminho da luz, caí à beira do caminho. E, fui literalmente engolido pelas trevas. Hoje percebo que até as trevas foram como mestres. Até elas eram operárias da Luz. Também eram obrigadas a servir à Grande Obra da Criação. Tinham o objetivo de mostrar, através do seu jugo impiedoso que existe a luz. Entretanto, posso lhes assegurar que é melhor, bem melhor seguir o caminho para o qual fomos criados enquanto estamos enxergando a luz, mesmo que no fim do túnel.

               - Sr. José. - interrompeu Paulo. - Me desculpe; mas o senhor está falando de uma maneira muito enigmática para nós que somos iniciantes. Fale mais claramente para que possamos entender melhor.

               - Meus amigos; vocês não precisam entender literalmente tudo o que estou falando agora. Entretanto, peço que guardem as palavras que vos digo com carinho em vossos corações para serem lembradas no momento certo. E vou falar mais um enigma: a compreensão das coisas do alto vêm somente com a integração matéria e espírito, quando vocês aprenderem a prática do Amor sem limite. Guardem bem estas palavras para o momento pessoal de vossa iluminação. Uma ressalva! Essa iluminação dificilmente acontecerá nesse pouco tempo de convívio com a natureza, mas espero que seja um auxílio. Pode até acontecer aqui, como pode acontecer daqui a milhares de anos. Não se assustem porque Deus não tem pressa e a vida não tem fim. Sei que essas palavras podem parecer ridículas para vós agora, mas são coisas que um dia compreendereis. Posso dizer apenas que a iluminação espiritual, objetivo da existência de cada um de nós é o mesmo que ver Deus em tudo ao nosso redor. É compreender, aceitar e viver o "Amor sem limites". É ver a face de Deus em tudo; até mesmo nas tragédias, nas angústias e nos sofrimentos do homem. Como disse o bom Mestre: “buscai e encontrareis”. Mas buscai com afinco, porque fostes criados somente para isso. Fostes todos criados para manifestar a glória de Deus. E mais uma vez; não se esqueçam: Deus está nas coisas mais simples.

               - Senhor José; Diga-nos como podemos chegar a essa compreensão – Disse Suzana.

               - Acaso deveremos tornarmo-nos ascetas como o senhor. Isolarmo-nos do mundo para que possamos atingir tal grau de evolução? – completou Paulo.

               - Claro que não meus amigos. Deus é o Deus de todos os homens. Já repeti isso por diversas vezes. O caminho para Deus é o dos católicos, dos muçulmanos, dos místicos, dos ateus, dos evangélicos. Deus não faz acepção de pessoas. Cada um segue por um caminho mas o destino é um só. É claro que existem caminhos mais longos e caminhos mais curtos. As religiões funcionam como atalhos para Deus. Entretanto o caminho será sempre incerto. Somos como viajantes perdidos em uma noite escura e fria em busca do abrigo e da luz. Não existe uma verdade absoluta. Deus quis que fosse assim.

               - Dê nos exemplos de como nos aproximarmos de Deus – disse Carlos.

               - Posso dizer que a Bíblia pode ser um bom guia para se chegar a Deus. Entretanto não é o único, porque os analfabetos também devem ter as mesmas chances de salvação que um homem culto. E podem aprender por outros caminhos. Não se esqueçam jamais destas palavras: o caminho para Deus é um caminho para todos os homens. Todos! E, posso afirmar com absoluta convicção que aprendi muito mais com a natureza do que com as centenas de livros que li. Enquanto o papel aceita as idéias e devaneios de todos os homens, a natureza trabalha apenas coma as idéias do Criador. E as desenvolve e apresenta a todos os que querem ver. As lições de um livro podem ser verdadeiras ou falsas. As lições da natureza são sempre verdadeiras. E assim; entre perguntas e respostas, passaram o resto do dia a dialogar no alto do monte.

               No outro dia, depois o costumeiro descanso após a subida o mestre José iniciou nova preleção dizendo:

               - Devo dizer-lhes que até agora contei apenas a parte melhor da minha história de vida. A pior parte eu negligenciei de vocês porque estão aqui no ímpeto de evoluírem e tudo o que de negativo puder ser evitado eu farei, visto que o tempo é curto e as coisas más que são pensadas ou ditas têm um poder que vocês nem imaginam. Contarei entretanto um pouco da parte negativa de minha caminhada porque tem muito a ver com o início de minha evolução espiritual.

               Isso que procuro passar aos aprendizes que aqui vêm, levei muitos anos para assimilar sozinho. Por isso percebi como é importante ter alguém que possa sempre nos ajudar no nosso caminho. O auxílio solidário de uma pessoa a outra pode ajudar a encurtar muitas distâncias. Estamos sempre aprendendo com os erros e acertos dos outros. Por causa disso resolvi ajudar as pessoas  a encontrarem a grande luz que faz a semente divina germinar. Mesmo sabendo que a iluminação ocorre sempre a nível individual, creio que posso contribuir com meu exemplo. Além do mais, todo ser humano sente a necessidade de expressar o conhecimento adquirido. Todos nós sentimos a necessidade de repassar nossas experiências. E aquele que ensina é quem mais aprende.

               Senti que estava pronto a passar os conhecimentos adquiridos a partir do momento em que fui capaz de aliviar uma alma sofrida como a minha. Quando fui capaz de mostrar a luz através dos caminhos da natureza para alguém que chegou ao fundo do poço assim como eu. Em aproximadamente seis meses,  essa pessoa a quem me refiro havia de novo encontrado seu elo perdido. Creio que a maioria das pessoas que aqui aparecem, aprendem muito em bem menos tempo que eu e o primeiro aprendiz que aqui esteve há muitos anos. Eu e ele fomos dois cabeças duras e envelhecemos errando sem nunca aprender com os erros até que chegássemos ao fundo do abismo.

               Após preparar dessa forma o espírito dos jovens, mestre José pediu a atenção de todos pois a partir daquele momento contar-lhes-ia detalhadamente como havia chegado àquele local. Primeiramente contou-lhes com brevidade os acontecimentos menos significativos de sua vida. Sabia que o mais importante para os jovens seria saberem como ele havia chegado ao topo do poder, tornando-se um membro importantíssimo na política. Então ele iniciou sua história de vida dizendo:

               - Em determinada fase de minha adquiri grande fama e poder no mundo da política curitibana. Nos bastidores do poder conheci grandes glórias e, mergulhado nesse mundo de corpo e alma esqueci-me de que havia pessoas que de mim necessitavam para seguir adiante. A sede de poder afastou-me aos poucos de meus familiares e amigos. O poder era tudo que me interessava. Pelo poder eu mentia, corrompia, enganava o meu irmão. Quando percebi que havia perdido os bons valores era tarde demais. Estava isolado em um circulo vicioso de prepotência que eu mesmo havia criado. Daí para os vícios foi um passo. Primeiro veio o vício do jogo. Grande parte do que ganhava ia para os jogos de azar. Depois vieram as mulheres, o alcoolismo, o fundo do poço.

               Depois de um tempo meu mundo ilusório começou a desmoronar-se. Perdi prestígio politicamente. Saí candidato a deputado estadual por um partido menor e fui derrotado. Com a política, perdi também muito dinheiro. Ninguém mais estava ao meu lado. Meus parceiros políticos desapareceram. Meus únicos prazeres vinham dos meus vícios. E estes prazeres aos poucos me destruíam literalmente. Quando me dei conta, estava quase sem dinheiro e sem amigos. Nesse momento relembrei de Deus. Pedi socorro. Ninguém respondeu. Busquei socorro nas mais variadas crenças. Primeiro ingressei-me na magia. Tornei-me um assíduo freqüentador de cursos e reuniões com pessoas de igual interesse. Passei a fazer uso de artefatos mágicos para os mais variados fins. Pentagramas, círculos mágicos, invocações e rituais agora faziam parte do meu mundo. Conheci boas pessoas. Entretanto conheci também o lado negro da magia. Não obtinha entretanto os resultados esperados. Resolvi que iria procurar Deus por outros caminhos. Nesse tempo; aprofundei-me em livros de esoterismo e auto-ajuda. Conheci os livros que simplificavam Deus. Aqueles que ensinavam que o poder de Deus nada mais era que um pensamento em nossa mente. Agora eu achava que tudo aquilo que eu havia aprendido na magia não fazia sentido. Estava tudo no poder do subconsciente. Acreditei haver encontrado as respostas que eu precisava. Bastava acreditar. Bastava mentalizar para que meus desejos se realizassem. Achei ter descoberto o segredo dos segredos. Iria conseguir tudo o que havia perdido de volta. Bastava mentalizar. Nessa ilusão vivi por alguns anos. Mentalizava o que queria. Consegui algum progresso com isso, talvez por pura coincidência. Ou não. Entretanto, um dia percebi que eu não era dono do meu destino. Não poderia viver mentalizando todas as situações do dia-a-dia. A vida era complexa. Não podia submetê-la aos meus desejos. Eu não tinha o poder para guiar meu destino vinte e quatro horas por dia. O poder da mente não era a resposta ideal. Assim; desiludido nas minhas buscas resolvi isolar-me de tudo e de todos. Deixei alguns bens imóveis que ainda possuía para que fossem locados pelo mercado imobiliário de Curitiba e juntei minhas coisas  vindo parar neste lugar que agora me encontro. Assim; até hoje vivo isolado da civilização. Vivo aqui da renda mensal do aluguel de meus imóveis na capital. Além disso, tenho uma aposentadoria razoável. Aproveito essa liberdade financeira que o dinheiro me proporciona para executar o meu trabalho de espiritualização.

               Quando me mudei para cá, fiz isso num ato de raiva do mundo. Queria me isolar de todos porque eles me abandonaram. Não percebia que eram as mãos mágicas de Deus me mostrando o caminho espiritual que eu buscava há tanto tempo. Um caminho simples que eu demorei a descobrir porque o procurava nas coisas mais complexas. Não sabia que Deus era o Deus dos simples e dos humildes. Só percebi isso há alguns anos atrás quando pude de novo ajudar alguém a se reencontrar consigo mesmo. O meu primeiro aprendiz, como já disse antes.

               Antes que mestre José pudesse continuar, Carlos o interrompeu:

               - Por acaso esse primeiro homem que aqui esteve chamava-se Jonas.

               - Sim meu filho. Foi ele mesmo. Jonas tornou-se um dos meus maiores colaboradores. É uma boa alma. Já mandou muitas pessoas para cá, para conhecer os ensinamentos da natureza. Inclusive você, não é?

               - Exatamente - confirmou Carlos.

               Em seguida mestre José contou a história de seu Jonas. Foi ouvido atentamente por todos os jovens, principalmente por Carlos que via confirmar toda história que seu patrão havia contado antes.

               E assim os jovens passaram todo o resto daquele dia no cume da montanha a conversar sobre as coisas de Deus e da natureza com mestre José. Nem perceberam as horas passarem porque falavam de coisas que interessava a todos.

               Naquela noite o mestre José pediu para que todos ao deitar fizessem uma oração especial para que Deus os iluminassem visto que já haviam chegado na reta final do retiro espiritual e que, na manhã iriam ouvir uma preleção especial que seria também a última.

 

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