VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE V

 

               No outro dia subiram mais cedo que de costume, pois segundo o mestre teriam muito o que fazer.  Chegando ao alto do monte após descansarem por alguns minutos mestre José disse uma frase que fez os aprendizes se lembrarem de um momento do ritual católico.

               - O Senhor esteja convosco!

               - Ele está no meio de nós – responderam os jovens imitando o culto católico.

               - Demos graças ao Senhor nosso Deus!

               - É nosso dever e nossa salvação!

               Ditas estas palavras, fez-se um breve silêncio. Ninguém ousou comentar a atitude inusitada do mestre em imitar o costume católico. Sem dizer mais nada, o mestre foi até uma bolsa que sempre trazia junto consigo para carregar o cantil de água e a Bíblia; objetos sempre presentes, mesmo nos dias de jejum. Dessa vez havia algo mais na bolsa. Uma sacola cheia de sementes das mais variadas espécies nativas da floresta. Ainda em silêncio pegou as sementes e as espalhou pelo chão com cuidado e até com uma certa reverência. Só então iniciou seu discurso, dizendo:

               - Vou exemplificar o segredo da minha iluminação espiritual através de uma metáfora. Quero que prestem a máxima atenção. Estas sementes foram colhidas de diversas espécies vegetais que habitam esta montanha. Como elas, existem milhões de outras por essa mata afora. Estas no entanto; simbolizarão agora, no nosso aprendizado, a humanidade em geral. Espiritualmente falando; sementes são como os homens que ainda não descobriram o propósito espiritual para o qual foram criados. Apesar de terem sido criadas pela  árvore mãe com o objetivo de germinar, crescer, florescer, frutificar e cumprir a sua missão na grande obra da criação, as sementes ainda estão adormecidas, porque não encontraram condições propícias para isso. Nesse ínterim, podem vir a apodrecer e servir de adubo para outras plantas, alimentar os animais selvagens ou até servir de base para o preparo de um prato que alimentará o homem. Noutras palavras, podem contribuir de diversas maneiras para a evolução da vida.

               Entretanto, o objetivo maior de sua existência, será sempre o de germinar e crescer à imagem e semelhança da árvore mãe. Conhece sua missão e sabe em sua sabedoria de semente que existe uma grande luz lá em cima que pode lhe proporcionar o pleno desenvolvimento de suas faculdades latentes e adormecidas. Necessita para isso de condições propícias para vir a desenvolver-se. Deve isolar-se na escuridão da terra sofrer uma verdadeira morte para o seu estado atual, receber a força dos elementos da natureza, que a ajudarão a crescer  e encontrar a luz que lhe dará uma nova vida. Permanecerá ainda coma as raízes fincadas na terra, mas agora poderá contar com a energia poderosa da grande luz que a fará crescer e produzir seus frutos. Cem, duzentos, mil por um...

               Quando descer à escuridão, a semente terá de lutar contra as forças da terra que inicialmente desejarão matá-la, para em seguida alimentar-se dela. Mas sendo persistente e determinada; encontrará as condições propícias, lutará e vencerá o poder da terra, pois deseja encontrar a grande luz e crescer. E a terra não pode destruir os que buscam a luz, porque todos os elementos, inclusive ela (a terra) foram criados e mantidos pelo poder daquela grande luz. A terra também respeitava e temia a grande luz porque lhe era muito superior.

               Dessa forma, a semente que germinou, encontrou na terra uma aliada que a partir de agora iria ajudá-la. Agora a terra tornou-se sua serva, dando sua energia para ajudá-la a subir para cima e encontrar a força edificadora da grande luz que estava lá em cima ajudando todos os seres a cumprirem o seu papel. E, ajudada pelos poderes da terra, iluminada pela energia e pelo poder da grande luz do sol a planta cresceu e cumpriu o seu propósito sublime na Grade Obra da Criação: multiplicar os dons que lhe foram confiados por outra Grande Luz que comanda todas as luzes. Esse será o destino de muitas destas sementes que aqui se encontram. E, nós somos como estas sementes para Deus.

               O mestre deu uma pequena pausa, com o objetivo de ocultar daqueles jovens aprendizes uma lágrima que teimava em escorrer por seu rosto.

               -Entenderam a comparação e o sentido da parábola?

               - Sim; responderam os jovens emocionados.

               - Dessa forma ocorreu a minha iluminação espiritual. Espero que vocês encontrem a luz. Cada um à sua maneira. Minha história serve apenas de exemplo. Mas lembrem-se, volto a repetir: os caminhos de Deus são muitos e, há muitas, muitíssimas moradas na casa de nosso Pai. Foi Jesus quem disse isso.

               Os jovens realmente entenderam a parábola. Naquele dia todos se alimentaram felizes no alto da montanha. Era como se houvessem adquirido uma nova maneira de ver as coisas. Carlos particularmente, entendeu profundamente a mensagem de mestre José. Percebeu que poderia a partir daquele momento fazer germinar com toda a força a sua semente espiritual que ele havia deixado adormecida por falta de cuidados simples que a mesma exigia. Bastava regá-la e adubá-la todos os dias com bons pensamentos e boas atitudes. Devia ser um jardineiro no Jardim do Éden. Devia cultivar a semente que o Dono do Jardim havia lhe confiado. Compreendeu que cada um precisava cuidar apenas de sua própria semente para que o Jardim de Deus crescesse mais e mais. A partir de agora ele iria cuidar da sua. Faria a sua parte. Esse era o preço que Deus cobrava de cada um.

               - Faça a sua parte - Dizia a voz da sua consciência.

               Após o almoço no alto da montanha todos os aprendizes estavam com ânimo redobrado. Parecia que as palavras do mestre naquela manhã havia despertado algo adormecido dentro deles. A parábola das sementes fez os jovens tomarem consciência do dever de evolução espiritual imanente a todo ser humano.

               Mestre José havia percebido que os aprendizes entenderam a lição da natureza, uns com mais e outros com menos profundidade. Entretanto; de alguma forma todos sairiam dali melhores que antes.

               Ao final, convidou todos a fazerem uma oração especial, visto que aquele seria o último dia que estariam juntos. Pela primeira vez perguntou a religião de todos.

               - Muito bem! Já que todos se dizem católicos faremos uma oração da igreja. Tomei a liberdade de mudar algumas palavras já que não estamos no ambiente de uma missa. Peço que todos repitam cada frase que eu disser. Lembrem-se de fazer a entrega total.

               E proferiu a oração dizendo:

               “Senhor Jesus Cristo; dissestes aos vossos discípulos: eu vos deixo a paz;

eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima estes vossos seguidores. Dai-nos segundo o vosso entendimento a paz e a unidade. Vós que sois Deus com o Pai e o Espírito Santo”.

               Repetiram a oração umas cinco vezes. Segundo o mestre tal prece tem o poder de fazer os aprendizes a reconhecerem as ovelhas do rebanho e a distinguí-las dos lobos.

               - Lembrem-se destas palavras: Todos os seguidores do cordeiro estão marcados. Quem alcançar um bom grau de evolução espiritual conseguirá reconhecer tal marca. Isso demanda tempo e dedicação. Esta oração vos ajudará - falou o mestre José.

               Dizendo estas coisas deu-se por encerrado o retiro espiritual. Ordenou a todos que descessem, arrumassem suas coisas e partissem assim que possível.

 

               Na manhã seguinte todos os aprendizes já tinham ido embora. Apenas Carlos havia ficado até mais tarde visto que resolvera subir a Curitiba de trem que passaria por Morretes no final da tarde. Passou a manhã toda conversando com mestre José o que lhes conferiu um contato mais afetuoso. Afinal era a primeira vez que conversavam sozinhos depois do início do retiro. O jovem aproveitou para confessar ao mestre que havia encontrado muito mais do que buscava.

               - Vim em busca de um alento para a minha desilusão amorosa e encontrei um novo amor; muito maior e mais sublime. Aprendi que o amor é a chave do segredo que abre as portas do paraíso como o senhor disse. Ainda me lembro de Patrícia, mas já não sinto tanta falta de sua presença. É como se algo dentro de mim dissesse que eu tenho coisas muito importantes a fazer agora. Creio que ainda leve algum tempo para esquecê-la. Entretanto tenho certeza de que não voltarei a procurá-la. Tenho outros objetivos em mente. Estou sentindo um desejo ardente em trabalhar o meu lado espiritual.

               - Tudo bem Carlos. Apenas cuidado para não ficar bitolado a isso. Lembre-se: o homem é matéria e espírito. Estes dois elos devem permanecer unidos. Cuidado para não tornar-se um fanático. Deus não precisa disso. Não é necessário salvar o mundo. Apenas faça a sua parte.

               - Ok senhor José. Eu compreendo tudo isso. 

               Durante a viagem de volta, a morosidade da viagem de trem e as belezas da serra do mar fizeram Carlos divagar pelo mundo da imaginação. Pela primeira vez depois de todos aqueles dias de isolamento pode retirar o seu walk-man da bolsa. Ligou-o no momento exato em que tocava uma música que tinha tudo a ver com o momento que estava vivendo. Era uma música mensagem do saudoso cantor Gonzaguinha. A música dizia que devemos viver sem ter vergonha de ser feliz e cantar ao mundo a beleza de ser um eterno aprendiz.

               A música, a paz da floresta, o balançar do trem criou na mente do rapaz uma paz tremenda e uma espécie de semi-transe passou a tomar conta de sua mente. De repente surgiu-lhe na mente a vontade de expressar seu aprendizado ao mundo, de um modo que pudesse ajudar a outras pessoas, bem como tornar mais vívida para si mesmo sua experiência. Os segredos que havia aprendido agora seriam parte integrante de sua vida e ele já conseguia enxergar as coisas por um ângulo mais amplo. Foi meditando sobre tudo o que aprendera e como iria utilizar aquele aprendizado sagrado em todos os setores de sua vida que o rapaz adormeceu...  

               Em pouco tempo passou a ter uma espécie de sonho místico onde se passavam vários acontecimentos de sua vida.

               Relembrou no sonho o dom que desde pequeno trazia adormecido. A pintura; um dom inato que ele teve a oportunidade de desenvolver na adolescência.

               “Sempre tivera vontade de fazer um curso de pintura para desenvolver suas potencialidades. No início seu pai era contra, pois dizia que a arte não tinha valor no Brasil e que isso seria uma perda de tempo. Apesar da resistência, Carlos acabou, com a ajuda da mãe, convencendo o pai a matriculá-lo num curso de pintura. Depois da adolescência, passou a se envolver com outras atividades e seu dom de pintar foi deixado de lado. Apenas fazia alguns quadros para enfeitar as paredes de sua casa ou para presentear os amigos. Muito embora sempre alimentava o sonho de um dia, criar uma pintura especial que realmente pudesse chamar a atenção das pessoas. Esse momento havia chegado”.

               Agora; o seu sonho intuitivo o havia presenteado com uma idéia bem original. Viu-se pintado um quadro no qual retratava sua experiência espiritual com mestre José. Na pintura ele via nitidamente os estágios de sua experiência mística. Três figuras seqüenciais distintas onde a imagem de um homem que ele interpretou como sendo ele próprio, aparecia nos três estados de que tinha consciência de ter vivido: o antes, o durante e o depois do retiro espiritual. Sonhou que sua vida mudaria para sempre a partir daquele momento. Teria uma nova vida, alcançaria a felicidade e a realização pessoal. Venderia o quadro por uma imensa quantia de dinheiro que lhe daria total independência financeira Conheceria um novo amor que seria sua cara metade, ajudando-o a cumprir a missão que o criador havia lhe confiado.

               Quando o trem passava pelo último túnel do percurso de volta a Curitiba, Carlos despertou assustado pelo barulho. Foi a primeira vez que  teve uma premonição. Havia sido presenteado com uma visão do futuro que o aguardava caso ele cumprisse a sua missão.  Não seria uma missão especial; mas sim aquela comum a todos os homens. Trabalhar, progredir e ajudar a construir um mundo melhor para todos.

                De fato todas estas coisas vieram a acontecer na vida do aprendiz. Não da forma exata que foi desenrolada no sonho.  Basta dizer que o quadro que pintou fora vendido a um estranho por uma pequena quantia de dinheiro e não pelos milhões que havia sonhado. Entretanto; a arte de sua pintura foi como uma chave mágica que abriu muitas e muitas portas para um novo mundo cheio de amor, felicidade e paz interior.

 

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