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VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ PARTE VI |
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Tudo começou a mudar radicalmente na vida de Carlos desde que resolvera participar de um retiro junto a um eremita de nome José que vivia na serra do mar paranaense ensinando as pessoas a reencontrarem a paz interior, através do poder mágico da natureza. Foram três semanas de isolamento total da civilização, onde ele aprendeu a acalmar a alma e escutar os conselhos que a floresta ensinava, utilizando-se para isso de um velho homem solitário como ferramenta. Descobriu que as leis da vida são simples como o são todas as coisas realmente de Deus. Viu os animais louvando as dádivas da criação, que na floresta eram graciosamente apresentadas em todo o seu esplendor. Ouviu o canto incessante da mãe natureza louvando o Criador de todas as coisas. Viu as plantas executando a sua missão; cada uma fazendo a sua parte para que a floresta manifestasse vida em abundância. As palavras do mestre José eram apenas um complemento aos ensinamentos que a natureza sabiamente havia lhe incutido na alma. José era um homem a quem Deus havia incutido uma missão. E, como ele todos os homens têm a sua missão; embora muitos não tenham consciência disso. Carlos agora tinha um profundo conhecimento dessas coisas. Conhecia agora o propósito de sua existência. Era um missionário como todos os demais seres humanos. E agora sabia que a sua missão era muito simples: tornar o mundo um pouquinho melhor. Em outras palavras: Sabia que devia apenas fazer a sua parte. Carlos sentia esse desejo latente em expressar ao mundo esses conhecimentos desde aquele momento em que tivera o sonho em plena serra do mar paranaense, onde ele se via pintando um quadro mágico que lhe daria as chaves para um mundo maravilhoso em que todos os seus desejos se tornariam realidade. Iria seguir os conselhos de sua intuição: retratar sua experiência mística em um quadro e assim contribuir para a Grande Obra da Criação que não acaba nunca. Sabia que tudo não passara de um sonho. Entretanto, sentia que aquele sonho tinha algo de especial. Era a maneira ideal pela qual ele retrataria sua experiência mística vivida no meio da floresta. Sabia que estaria fazendo a coisa certa porque havia sido estimulado por uma força superior durante o sonho a dar vida à sua experiência mística através da pintura. Iria pintar o quadro imaginário visto no sonho. Durante mais de uma semana ficou isolado em seu quarto de pensão, trabalhando na elaboração do quadro. No final pode admirar com orgulho a beleza mística de sua obra.
Na pintura estavam expressas, de uma maneira bem original e até de certa forma genial, as imagens que ele havia vislumbrado em seu sonho. Imagens que ele sabiamente interpretou como sendo a visualização do resultado de sua busca e evolução espiritual. Compunha-se de uma paisagem da natureza composta por um pequeno monte todo coberto por pequenos arbustos dentre os quais ressaltavam se três imagens, todas relacionadas à araucária. Nota: No seu sonho, Carlos não conseguiu distinguir a árvore visualizada no quadro. Teve a idéia de utilizar-se da araucária por tratar-se de um forte símbolo do Estado do Paraná. “Na primeira figura em evidência, desenhada ao lado esquerdo do pequeno monte há uma semente gigante de araucária. Seu tamanho é desproporcional ao restante da paisagem natural pois tem o objetivo de demonstrar algo fundamental no quadro. Sobreposta à imagem da semente aparece, de forma sombreada, a figura de um homem acomodado em uma posição horizontal, como se estivesse dormindo, com as mãos esticadas ao lado do corpo. Está com os olhos fechados. Do lado direito do quadro, na base do monte, também em tamanho desproporcional ao restante do contexto da paisagem, vê-se uma semente da mesma árvore em estado de germinação. A semente aparece como uma sombra, sob o solo, enquanto que do seu lado emerge um broto que já aponta por sobre a terra. Também sobreposta à imagem da semente em germinação existe a imagem de um homem ajoelhado, com os olhos fechados e as mãos juntas como que em estado de oração. O curioso nesta imagem é o fato de que o homem parece harmonizar-se perfeitamente à imagem; pois à medida que o corpo acompanha o broto, a parte inferior da perna que fica dobrada abaixo do joelho, segue a extensão da semente sob o solo. Na parte superior da pintura, no alto do monte, mais proporcional ao restante da paisagem, há uma araucária adulta. Sobreposta à imagem da árvore, nota-se a figura de um homem. Desta vez, porém, o homem aparece de pé e ele é que está desproporcional ao restante da paisagem. Parece gigante e acompanha quase toda extensão da árvore. Está com os braços abertos em forma de cruz e seus olhos agora estão abertos; olhando para o alto”. Para quem olha para o quadro, à primeira vista, parece uma coisa anormal todas aquelas figuras. Para Carlos, no entanto, aquilo simbolizava muito e ele estava ansioso em mostrar aquilo ao seu mestre. Estava decidido. Iria voltar à serra do mar, para mostrar ao Sr. José o seu quadro. Alguns dias depois do término do quadro, o aprendiz estava de novo a caminho da casa de mestre José, nas proximidades de Morretes. Fazia questão de que ele fosse o primeiro a conhecer o resultado dos seus ensinamentos. Chegando a casa, foi logo exclamando alegremente: - Mestre, digo: Sr. José – lembrou-se que o mestre não admitia que o chamasse assim. – acabei de retratar minha experiência espiritual como o senhor havia me aconselhado. Agora tenho uma maneira de passar aos demais a minha experiência de iluminação espiritual. - Mostre me o que tens aí, meu filho – indagou mestre José. – Estou curioso. Carlos ansiosamente desembrulhou o quadro e mostrou-o ao seu mestre: - Vamos ver se o senhor descobre o enigma da minha pintura. - Puxa Carlos, você disse certa ocasião quando estávamos no cume da montanha que gostava de pintar, mas não sabia que era tão hábil nesta arte. É muito interessante a maneira peculiar com que trabalha com as imagens. - Ora seu José, não lhe contei que já até havia feito um curso de pintura quando morava na minha cidade natal e... - Psiuu! – Fez o mestre num tom baixo e calmo para o rapaz enquanto olhava para o quadro de uma maneira estranha. Parecia estar viajando enquanto admirava silencioso o trabalho do rapaz. Carlos permaneceu calado. Mestre José ficou por longos minutos observando o quadro, até que de súbito olhou para o rapaz e exclamou: - É uma pintura maravilhosa e creio que interpretei muito do que você quis retratar através dela. Mas não quero bancar o adivinho. Decifre para o seu amigo os enigmas de tua obra de arte, meu caro. Carlos já havia percebido que o mestre havia entendido a mensagem do quadro. Apenas não queria estragar sua felicidade em contar. Dessa forma, explicou todo o sentido enigmático das imagens. Quando terminou a explanação, notou que seu mestre demonstrava uma expressão de felicidade e extrema alegria. - Estou feliz pelo quadro. Demonstra que você realmente aprendeu a lição, meu filho. Meu esforço não foi em vão. Você conseguiu uma boa iluminação espiritual e, na graça de Deus, a partir de agora, vai alçar vôos cada vez mais altos. Basta conservar o seu conhecimento sempre vivo em seu interior da mesma maneira que o materializou neste quadro. E, é claro, utilizar-se desta sabedoria para concretizar seus sonhos através de boas e sábias ações. - Por isso, Seu José, vou manter este quadro sempre pendurado na parede de meu quarto, para sempre relembrar das verdades que ele representa para mim. - Não acho isso absolutamente certo, meu filho. Creio que você deveria arrumar uma maneira de apresentar esta pintura ao mundo, pois você sabe que o conhecimento que não é dividido é conhecimento perdido. - Ora mestre; mas sempre procurarei ensinar o sentido interior do quadro para aqueles que me solicitarem. Posso contar essa história para muitos. - É uma boa idéia. Mas tenho uma sugestão para lhe fazer, pois entendo um pouco de arte e sei que seu quadro é bom. - Diga senhor José! - Tenho muitos conhecidos na capital. Conheço muita gente que mexe com arte e posso dar-lhe uma ajuda para que você apresente a sua obra ao público que aprecia a pintura. Você não precisa vendê-la se não quiser. Basta mostrar ao mundo a luz que o quadro representa. Vai acontecer uma mostra de pintores no mês que vem e se você quiser eu posso arrumar um espaço para você. - Puxa mestre, seria um grande prazer. - Então ficamos combinados. Vou contatar meus amigos artistas de Curitiba e se conseguir uma vaga para o seu trabalho eu lhe telefono.
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