VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE VII

 

               Carlos admirava cada vez mais mestre José, pois o velho sempre conseguia cumprir aquilo que prometia. Havia conseguido todos os contatos para que o aprendiz pudesse efetivar a mostra de sua pintura ao mundo. 

               No dia marcado para a apresentação na galeria de artes, o quadro de Carlos estava lá entre dezenas de outros. Foram feitas as preleções dos demais artistas, que Carlos ouviu atenta e ansiosamente até que chegou a sua vez de falar.

               - Boa noite senhoras e senhores. Meu nome é Carlos de Almeida Santos. Sou pintor principiante e esta é a minha primeira obra que trago a conhecimento público.

               - Boa noite! – responderam os presentes.

               Então o aprendiz iniciou sua apresentação.

               Este quadro que agora vêem tem um valor inestimável para mim. É resultado de um aprendizado que muito me ajudou em minha busca por uma nova vida, com mais paz de espírito, alegria e felicidade. E posso lhes garantir que tudo isso foi conseguido em poucas semanas em contato com a natureza, no alto de uma montanha da serra do mar paranaense, sob o comando de uma pessoa iluminada. Essa felicidade de realização interior estimulou-me a exercitar o dom de pintar que tenho latente dentro de mim desde a infância. O resultado foi esta obra que ora vos apresento.

               Carlos deu uma pequena pausa. Não deveria se empolgar – pensou. Afinal; falava para intelectuais e seu conhecimento espiritual poderia não ser tão interessante para aqueles homens de cultura elevada. Afinal eram todos figurões da cidade: Empresários, industriais, homens de negócio. Assim; agindo agora mais pelo lado da razão que da emoção, Carlos recomeçou a explanar sobre o sentido de sua obra, de uma maneira sutil, sem sobressaltar muito o sentido espiritual do quadro:

               - Aqui os senhores vêem a pintura de uma paisagem natural. Observem para as imagens que se sobressaem por suas peculiaridades, pois aí está o sentido interior e oculto, objetivo primário da criação do quadro que vos apresento. Devo ressaltar que as três imagens humanas visíveis na obra, representam a minha própria evolução interior. O Sol brilhando sobre o monte representa Deus. É o que dá vida à planta, desde a germinação até a sua fase adulta. Na imagem do quadro, portanto, o sol representa de forma pitoresca e metafórica o poder de Deus e as sementes e a árvore em destaque representam o homem. Mais precisamente: eu mesmo. Na parte inferior, do lado esquerdo do quadro, notem que há uma grande semente sobre a qual se sobrepõe a imagem de um homem deitado em seu interior. Simboliza o homem que não despertou ainda o seu lado espiritual. Está dormindo; ou seja: adormecido para Deus. A luz está lá em cima, brilhado e dando vida a todos os que a buscam, mas o homem está protegido pela casca da semente, da energia criadora do sol. Ainda não encontrou as condições propícias para desenvolver suas potencialidades adormecidas. Está ali sobre o solo, muito próxima às forças que a fariam germinar mas ainda não encontrou a ajuda necessária. Precisa ser enterrada e morrer para o seu estado atual, para que possa ressuscitar em um novo mundo.  É o símbolo que encontrei para representar o homem materialista que ainda não encontrou o solo fértil e apropriado para desenvolver-se espiritualmente. Todos nós, assim como a semente, raramente conseguimos fazer germinar sozinhos os dons que Deus nos deu. Precisamos da ajuda dos outros. Aí é que entra a nossa necessidade de apoio em uma religião, uma ideologia ou a pessoas altruístas que buscam a Deus.

               O aprendiz deu uma pequena pausa para disfarçar a emoção crescente que tomava conta de seu ser quando falava sobre estas coisas. Passou para a outra ilustração em destaque no quadro e falou:

               - No canto inferior direito, os senhores vêem uma semente em estado de germinação, também com a imagem sobreposta de um homem ajoelhado. É a simbologia que encontrei para representar o meu despertar para a espiritualidade. O homem que habita o interior da semente está de joelhos em estado de oração. E, a oração e a humildade perante Deus, representa o início de nossa evolução espiritual. Um homem ajoelhado, demonstrando humildade e devoção perante o Criador, é como uma semente em estado de germinação, apto a receber, aos poucos, na medida em que persiste na oração, toda energia que emana de Deus. O homem está com os olhos fechados. Não consegue ainda ver a grande luz - o sol para a planta; Deus para o homem - que lhe dá energia para a germinação de sua semente espiritual plantada pelo criador desde sempre em sua alma. Entretanto, embora não veja a Deus, a semente divina dentro dele está em estado de germinação, recebendo energia e crescendo para o alto. Sabe por intuição que lá em cima num mundo que ela ainda não vislumbrou porque ainda não pode ver, existe uma grande luz que lhe dá forças para que ela possa crescer e cumprir sua missão.

               Todos os presentes permaneciam atentos ao que Carlos dizia. E o rapaz passou para a parte final de sua explanação, dizendo:

               - No alto do monte há uma árvore adulta da mesma espécie que produziu as sementes. Notem os senhores que também sobre a árvore vê se a imagem sobreposta de um homem. Desta vez, o homem é que está representado de forma desproporcional ao contexto geral da paisagem. É gigante e alcança as proporções da araucária. Está com os braços abertos levemente levantados para o alto. Agora ele está com os olhos abertos. Entretanto, não pode olhar para o sol (Metaforicamente simbolizando o poder de Deus na natureza). Não pode olhar diretamente para a face de Deus; mas pode senti-lo em tudo que o cerca. E vê o esplendor de toda a sua luz brilhando acima, abaixo e por dentro de todas as coisas que existem. Simboliza aqui o homem espiritualmente despertado. Este é como a árvore adulta, pronta para florescer, frutificar e dar seus frutos, cumprindo o papel para o qual foi criada e alimentada pela grande luz.

               Carlos deu uma pequena pausa para tomar fôlego e sentenciou:

               - Senhores; eis é o sentido da minha pintura. Espero que tenham gostado.

               Foi acalorado com uma grande salva de palmas de todos os visitantes.

               De imediato percebeu que sua historia e sua pintura havia agradado os presentes; pois seguiu-se um burburinho entre os participantes. Foi preciso por mais de uma vez que os organizadores pedissem silêncio para que os outros artistas continuassem a apresentação de seus trabalhos.

               Logo ao final das apresentações, Carlos foi assediado por mais de uma dezena de pessoas que desejavam adquirir sua obra. Embora já houvesse decidido por não vendê-la, ficou surpreso, pois não esperava que houvesse tantas pessoas que se interessariam por sua pintura. Estava convicto de que não disporia do quadro, pois sabia que a arte no Brasil não tem muito valor. Na certa ofereceriam alguns reais pelo quadro, mas nada que fizesse diferença substancial na sua vida financeira – pensou.

               Ao contrário do ele que pensava, alguns daqueles homens, amantes da arte ofereceram uma quantia razoável de dinheiro pelo quadro. Algo muito além de suas melhores expectativas iniciais. Carlos, entretanto, disse estar decidido. A obra não estava à venda. A não ser que houvesse um louco capaz de lhe pagar a imensa quantia que ele viu-se a receber no sonho – pensou.

               Logo os compradores cessaram de tentar adquirir o quadro, visto que o jovem parecia decidido. Dispersaram-se pelo salão observando as obras dos demais pintores Somente um senhor alto e  aparentando uns cinqüenta anos permaneceu insistindo em comprar sua pintura. O senhor demonstrava que pertencia a um status elevado da sociedade curitibana e era dono de uma cultura admirável. Ficou conversando com Carlos por um longo período sobre a história que o jovem havia descrito. Parecia a esta altura estar muito mais interessado na história do jovem do que pelo quadro em si. Insistiu mais algumas vezes, chegando a ponto de oferecer pelo quadro uma quantia de dinheiro que Carlos nunca tivera de uma só vez em sua vida. Era uma oferta tentadora. O jovem começou a meditar sobre a sua decisão.

               - Quem sabe ele faria com aquele dinheiro um investimento em seus estudos e o conteúdo do sonho tornar-se-ia realidade um dia – pensou.

               Carlos refletiu sobre a oferta do doutor Henrique – esse era nome do senhor interessado em seu quadro. Entretanto sua consciência lhe dizia agora que seu quadro valia ainda mais do que aquela quantia em dinheiro pelo sentido oculto que possuía. Quem lhe garantiria que aquele senhor de muitas posses não jogaria o quadro no lixo assim que lhe desse na cabeça.

               - Olha doutor Henrique; prefiro doar esse quadro para um museu onde todos possam vê-lo e quem sabe alguns até cheguem a interpretar seu enigma do que vender a qualquer um que talvez não tenha nenhum objetivo mais nobre.

               O homem pensou por alguns momentos como que se uma grande dúvida pairasse em sua mente. Depois de algum tempo, sentenciou:

               - Para seu governo; vou lhe informar uma coisa que ninguém que aqui está sabe a meu respeito. Pertenço a uma sociedade hermética e secreta na qual seu quadro e, principalmente a sua história terão um valor inestimável em nossos trabalhos espirituais. Posso lhe garantir que será pendurado na parede lateral de nosso templo. E servirá de estímulo em nossa busca por Deus.

               - Puxa, bom saber que o senhor é um homem espiritualizado. Posso saber qual a sua religião?

               - Eu não disse religião. Disse sociedade secreta. E isso basta para você saber. Acho que já falei demais.

               Carlos pediu um tempo para repensar a idéia de vender sua obra. Ponderado, o doutor Henrique deu o seu telefone e despediu-se do rapaz. Há alguns passos o homem parou, virou-se para o rapaz e disse em tom desafiador:

               - E se eu lhe pagar uma quantia de dinheiro que lhe possa proporcionar a realização de todos os seus sonhos?

               - Aí a coisa muda de figura doutor e...

               Carlos percebeu que não deveria continuar. O homem virou-se e continuou andando sem esperar a resposta, indo juntar-se ao resto dos presentes para admirar as demais pinturas  em exposição.

               Naquela noite o rapaz voltou para casa orgulhosíssimo de sua obra. Havia agradado alguns daqueles senhores de gosto exigente. Também havia passado a eles um pouco do seu conhecimento espiritual adquirido junto ao mestre José. E sentiu-se extremamente feliz pelo fato de poder mostrar aos outros um pouco do que havia aprendido na serra do mar. Sentiu na pele a alegria de dar. E viu que essa era melhor do que a alegria de receber. Exatamente como diziam as palavras que lera na Bíblia.

               Seu mestre o aguardava para saber o resultado de sua preleção. Estava na pensão. Não quis ir à amostra. Disse que não gostaria de ser identificado por algumas pessoas que lá estariam.

               - Boa noite, meu filho! E a apresentação? Como foi?  - perguntou o mestre curioso logo que o viu.

- Tudo bem.

- Só isso?

- Foi ótima. Recebi muitos elogios e até muitas propostas de compra.

               - Eu já sabia que sua pintura iria despertar a atenção de pessoas sensíveis, como são todos os interessados pela arte – disse o mestre.

               Em seguida o aprendiz contou-lhe todos os detalhes de sua apresentação. E falou também sobre suas dúvidas.

               - O que o senhor acha? Devo vender o quadro? O homem parece disposto a pagar um bom preço. No final da conversa, vendo a minha resistência o homem chegou a perguntar se eu não seria capaz de trocar o quadro por uma quantia de dinheiro que representasse a realização de todos os meus sonhos materiais. Será que ele seria capaz de pagar o preço que eu vi no sonho?

               - Bobagem garoto. Acho que aí tem um pouco de exagero da parte dele. Pode tratar-se de um jogo de palavras para tentar convencê-lo de que tudo tem um preço, visto que se trata de um homem de negócios. Entretanto se ele oferecer uma quantia que você ache justa, venda-o. Afinal; a idéia do quadro está na sua cabeça. O mesmo pode ser refeito em outros termos. Melhor ainda; você pode criar outros quadros relacionados ao seu aprendizado. E lembre-se. O conhecimento que não é repartido é conhecimento perdido. Quanto ao conteúdo do sonho. Creio agora que seja absolutamente verídico. Você teve um sonho premonitório.  No entanto; a riqueza nem sempre precisa ser manifestada materialmente. As riquezas espirituais são melhores porque nem a traça nem a ferrugem corroem. Pense nisso. Se for para a sua pintura ficar no seu quarto apenas para satisfazer o seu ego é melhor que se venda por qualquer valor para alguém que consiga melhor utilizar-se dela para a glória de Deus. Quando você me disse que o Dr. Henrique tinha um destino especial para o quadro diante de sua irmandade percebi que o seu sonho era real.

               - O homem disse que pertence a uma sociedade secreta. Como será isso senhor José?

               - Isso não nos interessa. Cada um tem suas convicções e crenças. O que vale é que o homem usará sua pintura para fins nobres como lhe assegurou.

               - Ok Sr. José. Se ele mantiver o preço, venderei o quadro – disse o rapaz já com convicção.

               O aprendiz acordou na manhã seguinte com dona Tereza batendo à sua porta, com um olhar de espanto.

               - Carlos, tem um doutor lá embaixo querendo conversar com você antes que saia de casa. Pelo jeito trata-se de um sujeito muito rico, pois está acompanhado por mais três pessoas com aparência de serem homens de segurança. Corre lá para atender o homem.

               Assustado o jovem preparou-se rapidamente enquanto pensava quem seria o visitante inesperado.

               - Não pode ser o Dr. Henrique – pensou Carlos. Ele não pegou meu endereço.

               Carlos estava enganado. Era o Dr. Henrique. E o homem parecia obstinado. Foi direto ao assunto, sem dar tempo para que o rapaz pudesse fazer a cortesia de anfitrião.

               - Bom dia, meu jovem. Desculpe-me por estar importunando-o tão cedo. O problema é que eu sou meio teimoso e gosto de resolver as coisas logo. Não gosto de pendências e antes de ir para o trabalho, resolvi passar para saber da tua decisão. Assim, seja ela sim ou não, prefiro que seja dada logo para que eu desocupe minha mente para outros assuntos. E aí!  Pensou na minha proposta?

               - Sim Dr. Henrique. Se o Senhor realmente estiver disposto a pagar o que me ofereceu eu vendo-lhe o quadro – sentenciou Carlos.

               - Ok, meu jovem!

               Após a combinação do preço, Carlos resolveu investigar qual a real intenção do Dr. Henrique quando perguntou se ele não trocaria o quadro por uma quantia de dinheiro que simbolizasse a realização de seus sonhos.

               - Já que o negócio está fechado, vou fazer uma pergunta um tanto indiscreta.

                - Pode falar, meu jovem.

               - O senhor realmente pagaria qualquer preço que eu pedisse pelo quadro, conforme tentou sugerir ontem à noite?

           O Dr. Henrique riu.

               - Meu amigo, sou um homem de negócios e tenho também uma boa experiência no ramo da arte. O que paguei pelo seu quadro é um valor mais do que justo. Não ofereceria um único centavo a mais se percebesse que você estivesse querendo se aproveitar do meu interesse. Aliás, o que eu mais valorizei quando ofereci esta quantia elevada pelo seu quadro, foi pela suas vivências e aprendizagens na serra do mar. Usarei o quadro apenas para tornar sempre presente e viva a sua experiência para que eu e meus amigos possamos aprender com ela. E note que esta parte você me passou de graça. Mesmo se eu não ficasse com o quadro; levaria sua experiência muito edificadora e não lhe pagaria um único centavo por isso, não é mesmo.

               - Bem, isso é verdade doutor.

               - Então, esteja ciente de que sua pintura tem um certo valor artístico. Entretanto, como a verdade deve ser dita, saiba que muito do valor que eu ofereci pela pintura foi por essa parte que não se vê. Sua vivência e seu crescimento espiritual. Para finalizar, se não estiver lhe pedindo demais, gostaria de convidá-lo a participar de um almoço especial na minha casa que pretendo realizar no próximo domingo pela manhã. Nele, preciso que você apresente o quadro para os meus irmãos espirituais. Isso não faz parte do trato. No entanto, ficaria muito feliz se pudesse apresentar sua arte e seu crescimento espiritual por suas próprias palavras aos meus amigos.

               - Puxa Doutor! Faria isso com muito prazer.

               - Vamos esperá-lo no Domingo então, meu amigo. Fique com o quadro até lá.

               - Mas Dr. Henrique; O senhor já me pagou. Então pegue de volta o cheque e no domingo o senhor me devolve.

               - Ora meu amigo Carlos. No mundo dos negócios conheço muita gente em quem não sou capaz de confiar um único centavo. Entretanto, já tenho experiência o bastante para separar o joio do trigo. Confio em você. Não tenho a menor dúvida de que você é um cumpridor de suas obrigações. Está escrito em sua fronte que você é um do rebanho. Espero-te no domingo meu amigo. O Dr. Henrique despediu-se.   Nesta hora Carlos lembrou-se das palavras do mestre José que disse certo dia no cume da montanha:

               - Lembrem-se destas palavras: Todos os seguidores do cordeiro estão marcados. Quem alcançar um bom grau de evolução espiritual conseguirá reconhecer tal marca. Isso demanda tempo e dedicação.

               E, num ímpeto se viu a repetir sozinho a oração dos “seguidores do Rei”: “Senhor Jesus Cristo; dissestes aos vossos discípulos: eu vos deixo a paz; eu vos dou a minha paz. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima os vossos seguidores. Dai-nos segundo o vosso entendimento a paz e a unidade. Vós que sois Deus com o Pai e o Espírito Santo. Amém!”

               Imperceptivelmente havia começado a desenvolver o terceiro olho. Intuitivamente percebera que o doutor Henrique era uma ovelha do rebanho. Venderia o quadro ao homem. Algo lhe dava a certeza de que o mesmo estaria em boas mãos.

               Estava ainda meditando nestas coisas quando mestre José surgiu à sua frente, visto que havia dormido na pensão naquela noite.

               - Bom dia Carlos.

               - Bom dia senhor José.

               Tomaram o café da manhã juntos. Carlos contou-lhe os detalhes do encontro matinal com doutor Henrique. Após, o jovem acompanhou-o mestre até à estação rodoviária de Curitiba e de lá seguiu para mais um dia de trabalho no supermercado de seu Jonas. É claro que a primeira coisa que fez foi contar tudo o que acontecera ao seu patrão.

 

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