VIVÊNCIAS DE UM APRENDIZ

PARTE FINAL

 

               O aprendiz permaneceu naquela mansão até o final do dia. Sentia-se já como se estivesse em casa. A afinidade que adquiriu com os presentes, entretanto, em nada se comparava ao sentimento que sentia com respeito a Heloyse. Pela primeira vez depois de muito tempo sentia-se novamente atraído por alguém. A reciprocidade de Heloyse era visível.

               O aprendiz divertiu-se muito em companhia daquelas pessoas. Naquele lugar havia muitas áreas de lazer. Nadaram durante um bom tempo na piscina térmica da casa, jogaram voleibol, baralho, assistiram a um filme no cinema particular do doutor Henrique entre outras coisas que fizeram o tempo passar despercebido.

               Já eram quase cinco horas da tarde. Muitos dos convidados despediam-se. Carlos percebeu que era chegada a hora de ir. Sabia que aquele seria um dia que ficaria marcado para sempre em sua vida. Seria o dia em que cumpriu o seu dever espiritual de passar sua experiência aos demais. Sabia que aquela semente que ele plantou no íntimo de cada um dos presentes não morreria ali. O que ele ainda não sabia ainda, era que alguém havia plantado no fundo de seu coração uma pequena semente que germina como uma praga quando encontra solo fértil: o amor. Procurava agora forças para eliminar essa pequena semente que germinava em seu coração, pois pensava que seria mais um amor impossível. Afinal parecia predestinado a gostar de pessoas que não eram do seu mundo. Heloyse pertencia a um mundo de glamour assim como Patrícia. Não ia dar certo. Pensava assim porque não aprendera ainda que jamais poderia fugir das tramas do destino que a Mão Divina escreveu. Só percebeu que estaria intimamente ligado àquela garota no instante em que foi despedir-se dela. Um beijo inesperado, um brilho no olhar, já havia sentido aquilo antes. Meio sem graça, tentou disfarçar com uma mentira inventada para disfarçar o ato impensado.

               - Tenho que ir logo senão perco o ônibus das cinco.

               - Quando nos veremos de novo Carlos?

               - Eu lhe telefono depois.

               - Não lhe dei meu telefone.

               - Caramba! É verdade! Qual é o número? – perguntou meio sem graça.

               A garota deu-lho número de seu celular pessoal, cuidadosamente embrulhado em um pequeno papel, como se quisesse esconder algo que pudesse deixá-la envergonhada perante Carlos. E saiu imediatamente para o interior da casa.

               O doutor Henrique que enxergava sempre mais longe já havia percebido algo.

               - Carlos. Parece que você está querendo desencaminhar minha sobrinha rapaz?

               - Claro que não doutor! É apenas amizade – falou constrangido

               - Sei. Me engana que eu gosto.

               O rapaz permaneceu calado sem saber o que dizer. Em tom de seriedade o doutor Henrique dirigiu-se novamente a palavra dizendo:

               - Antes que vá embora preciso falar contigo. Venha até meu escritório para conversarmos a sós. É assunto sério rapaz.

               Dúvidas e mais dúvidas passavam pela cabeça do jovem no trajeto entre o salão de festas e o escritório residencial do doutor Henrique.

               - Será que o homem viu-me beijando sua sobrinha? Na certa vou levar uma advertência para aprender a me colocar em meu lugar – pensou o rapaz.

               O doutor Henrique fez o percurso em silêncio como se estivesse a meditar nas palavras que teria de proferir ao jovem. Chegando ao enorme escritório, a primeira coisa que o doutor Henrique disse foi:

               - Esse é um lugar em que ocorrem coisas boas e más ao extremo. Sempre que chamo alguém até aqui é para que seja efetivada uma admissão ou uma demissão de algum funcionário importante.

               Carlos não entendeu nada e ficou mais apreensivo ainda.

           - Como assim? Não estou entendendo.

               - Ora meu jovem. Não percebe que estou lhe convidando para fazer parte do nosso time de funcionários?

               - Continuo não entendendo nada doutor - disse o rapaz já ofegante e extremamente apreensivo.

               - É o seguinte. Estamos precisando de aprendizes a executivos que realmente tenham ambição e que desejem fazer nossa organização prosperar. O problema é que existe uma enorme dificuldade para encontrarmos no mercado pessoas confiáveis. A maioria trapaceia em cima da gente. Entretanto percebi que você é uma destas pessoas especiais que todo empreendedor busca como agulha em um palheiro e não encontra porque a honestidade e a lealdade estão em extinção neste mundo. Você é uma destas pessoas que eu procuro. Não tem experiência nem formação adequada mas tem o que é mais importante. O resto me é fácil facultar-lhe porque são coisas que o dinheiro compra. Em tempo razoável de treinamento posso transformá-lo em um bom executivo. Apenas devo salientar que deverá começar pelos primeiros degraus. E que o salário inicial não é lá grande coisa. Entretanto se você for ambicioso e dedicar-se com afinco ao mundo dos negócios irá prosperar em pouco tempo. Vale lembrar também que tenho a astúcia de todo negociante. Se não houver progresso você será descartado imediatamente. Terá de corresponder às minhas expectativas.  E então, aceita o desafio? Quer entrar para o nosso time?

               - Claro que eu tenho sonhos de ambição. Entretanto jamais esperava que as coisas acontecessem de tal maneira. O senhor me deixou sem palavras.

               - Esse é um dos segredos dos homens de negócio. Não perder as oportunidades. Não estou perdendo a oportunidade visto que já o conheço o bastante para lhe confiar um posto de trabalho. Cabe a você decidir se aceita ou não a oportunidade que ora lhe dou.

               - Me conhece há apenas uma semana doutor.

               - Não lhe disse que o conheço há muito tempo. Disse-lhe que já o conheço o bastante. E então aceita a minha proposta garoto?

               - Claro que sim doutor Henrique! Aceito! Não preciso nem de tempo para pensar. Preciso apenas resolver a minha situação com meu patrão no supermercado.

               - Então lhe darei uma semana para que resolva a sua situação com o dono do supermercado em que trabalha. Não é lícito abandonar um emprego sem deixar todas as pendências em dia. Como parte dessa semana de preparação dar-lhe-ei uma oração que me foi passada por um mago dos negócios há muitos anos atrás e que utilizo até hoje em meu dia-a-dia. Tem me trazido boa sorte. É uma oração simples e desconhecida. Entretanto é muito poderosa. Peço que leia esta oração e medite nela todos os dias dessa semana. Saiba que eu a repassei a poucas pessoas a quem tenho alta estima e consideração. É uma oração que dá resultados para quem entender seu sentido oculto. 

               - Pode deixar! Não irei decepcioná-lo doutor.

               - Conscientize-se de que você está prestes a entrar em um mundo altamente competitivo. E será muito difícil servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Se você conseguir equilibrar esta balança tornar-se-á um homem realizado. Caso contrário; seria muito melhor que nunca tivesse me conhecido. Posso ser a sua benção ou a sua maldição. Lembre-se disso sempre que for tentado pelo sentimento de poder ilusório que o dinheiro provoca nas pessoas.

               Falando estas coisas o Dr. Henrique entregou ao jovem aprendiz um pequeno pedaço de papel onde escreveu a misteriosa oração a lápis. Ordenou a um de seus motoristas que o levassem até a pensão. E retirou-se para o interior da casa.

               Durante o trajeto Carlos ficou curioso para ver as duas coisas: a oração do doutor Henrique e o telefone de Heloyse. Entretanto como estava ao lado do motorista resolveu ser mais displicente. Iria lê-los somente quando estivesse em seu quarto. O jovem estava radiante de felicidade diante da perspectiva de uma nova vida que a Mão Divina magicamente lhe trazia como um presente por sua dedicação. Sabia intuitivamente que tudo iria dar certo. Como disse o mestre José: bastava fazer a sua parte. 

               Chegando à pensão dirigiu-se imediatamente ao seu quarto tal era ansiedade em ler o conteúdo da oração. No papel amassado e escrito com letra de forma se lia:

               “Senhor; fazei com que eu seja sempre diante de ti e daqueles que trazem o teu selo, nada mais que uma simples ovelha de seu rebanho. Entretanto perante os lobos; fazei com que eu adquira a aparência do tigre audacioso e voraz, para que assim parecendo, eu não seja devorado por eles”.

               Era uma oração fabulosa. Específica para quem vive no mundo dos negócios. Carlos entendeu logo o seu significado, visto tratar-se de um jovem com a espiritualidade já bem desenvolvida. Agora ele entendia como aquele homem conseguia servir a Deus e ao dinheiro ao mesmo tempo. Percebeu que isso era absolutamente possível.

               Lembrou-se do outro papel. O número do telefone de Heloyse. Iria ver a letra para relembrar-se dela. Desenrolou-o cuidadosamente como se estivesse a acariciá-la. Quando abriu; uma surpresa: Abaixo do número do telefone ela havia desenhado uma figura: um coração flechado, símbolo dos apaixonados. Era a senha através da qual a menina abria-lhe o coração.

                Daquele dia em diante a vida de Carlos foi paulatinamente transformando-se para melhor em todos os sentidos. Os encontros com Heloyse tornaram-se cada vez mais freqüentes. Em alguns meses de namoro, era sua companheira inseparável. A paixão inicial já havia se transformado em amor. Como era também altamente desenvolvida espiritualmente tudo tornava-se mais fácil para eles porque ambos seguiam a mesma trilha.

               Na organização do doutor Henrique, começou executando serviços inferiores na escala de cargos. Entretanto; sua perspicácia nos trabalhos que executava e sua dedicação aos estudos, cursos e seminários que a organização oferecia, fizeram com que, algum tempo depois, ele já estivesse galgando postos mais avançados.

               E assim o jovem aprendiz foi evoluindo mais e mais até se tornar um alto executivo da organização do doutor Henrique. E cresceu além dos seus sonhos mais caros. Sobre a sua mesa de trabalho, entalhada em um pedaço de madeira artisticamente trabalhado, lê-se uma frase incompleta, enigmaticamente interrompida por reticências:

 

“Somos todos aprendizes...”

 

Fim

 

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