Onde está a Verdade?

Que é a verdade? A verdade é o que a percepção dos nossos sentidos mostra ser a realidade. Todavia, é necessário não confundir verdade com realidade. A verdade, segundo a mitologia, mora no fundo de um poço, com um espelho. Não entendo muito bem por que o espelho no fundo do poço. A verdade anda nua. Quer isto dizer que nenhum de nós deve colocar o "manto diáfano da fantasia"; devemos dizer a verdade nua e crua. Mas, que é a verdade? Saindo da verdade comezinha, dissecando a verdade, falsificando-a, chegaremos à conclusão de que ela é perfeitamente subjetiva. Não é objetiva. A verdade não é o que nossos olhos vêem.
Ora, já o velho S. Tome queria ver para crer e, naturalmente, S. Tome viu e creu. Acontece que nós hoje sabemos que o que nós vemos não é a verdade. Muitas coisas nós vemos que não são realidades. Por exemplo, nós vemos no céu um arco colorido, o arco-íris; no entanto, o arco-íris não existe. É um raio de sol que, atravessando gotas d'água, projeta na vista do observador o realmente inexistente; no céu não há arco nenhum. Vemos o colorido, mas ele não existe; por conseguinte, vemos uma coisas inexistente. Nós sabemos que o arco-íris é uma composição de raios solares. Há também o prisma. Se colocássemos um prisma no centro de uma praça e perguntássemos a diversas pessoas que estivessem em torno desse prisma, qual a sua cor, teríamos todas as respostas diferentes. A pessoa que estivesse de um lado, diria vermelha. A outra corrigiria: "Você está errado; é alaranjada". Uma outra terceira: "violeta". E assim, cada um diria uma cor diferente, conforme visse por um dos sete lados do prisma. Quer dizer, teríamos sete cores diferentes, sete pessoas vendo num mesmo objeto de sete cores diferentes. Cada uma delas seria capaz de jurar que estava com a verdade, pois a verdade é o que ela está vendo. Se essa pessoa andasse um pouco de lado, viria duas cores. Então diria que o prisma tem duas cores: violeta e vermelha. Se andasse mais um pouco, diria que o prisma tem três cores: vermelha, alaranjada e violeta. À medida que fosse andando, quando completasse a volta em torno do prisma, diria aos que estivessem parados: "Vocês não vêem; o prisma tem sete cores!" Sim, realmente viu sete cores; no entanto, quem não viu coisa alguma, quem estudou um pouco de física sabe que o prisma não tem cor nenhuma; ele decompõe apenas o raio solar. Por conseguinte, o prisma não tem cor e apresenta sete cores.
Nós vemos um céu azul, um mar verde, uma infinidade de coisas que nossos sentidos percebem e que, no entanto, não existem. Diria: mas, então, ver para crer não é uma verdade? Hoje sabemos que a nossa percepção é maior do que a nossa visão. Mas nós cremos naquilo que vemos, ou cremos naquilo que nos disserem? A nossa cultura, a nossa mente, nos mostra a verdade; daí termos: "ou crê ou morre". Nós cremos ou sabemos uma série de coisas que o passado nos diz ser verdade, mas que é diferente daquilo que a ciência nos apresenta como uma verdade nua.
Quando alguém procurar apresentar-nos uma verdade nova, uma verdade diferente daquela que tínhamos como certa, que acontece? Nós aceitamos a ciência oficial que grita e que proíbe quase tudo. A ciência oficial vive sempre fazendo barulho contra as descobertas modernas. Sempre a ciência oficial fez barulho, porque sempre ela dogmatizou tudo.
"O dogmatismo é uma teoria do conhecimento que atribui ao homem a faculdade de atingir, pela razão, a verdade absoluta. Com gradações importantes, constitui o fundo das doutrinas platônicas, peripatéticas, estóicas, neoplatônicas, cartesianas, leibnitzianas e spinosistas. Apesar da revolução feita por Kant, o dogmatismo é a base das grandes metafísicas que, durante uma parte do século, estiveram em voga na Alemanha. O dogmatismo comporta pelo menos duas formas: uma positiva (a mais freqüente) e outra negativa. Negar com certeza é ainda dogmatizar. Na história da filosofia é o cepticismo que tem sido, de ordinário, oposto ao dogmatismo".
"O dogmatismo baseia-se sempre em fatos, teorias ou estudos, comprovados e aceitos como verdadeiros. A verdade, como disse, é subjetiva, e uma verdade deixa de ser verdade quando descobrimos algo mais avançado do que o que sabemos. Assim, a verdade para nós, hoje, amanhã deixará de ser verdade. Tem que deixar de ser verdade, porque nossos conhecimentos atingem um maior grau de evolução".
Quando Galileu estudou as Leis de Copérnico e apresentando-as à Real Sociedade, fez avançar a teoria do movimento da terra, a Inquisição o condenou a retratar-se porque era o sol que girava em torno da terra, segundo queria a ciência oficial de então, e, absolutamente, a terra não podia girar em torno do sol. A terra estava bem parada, não podia ter movimento, e Galileu, aos 70 anos, diante da Inquisição, foi obrigado a retratar-se e saiu dali, segundo conta a história, batendo os pés e dizendo: "E pur si muove". Apesar da Inquisição não querer, a terra está se movendo até hoje. Para eles, a verdade absoluta, a verdade bíblica deixou de ser verdade. Parece-me que a terra está girando, embora haja muita gente que não o aceite.
Há tempos, quando estive no Norte, conversava à noite no alpendre, diante da casa, com vaqueiros e sertanejos e, contemplando as estrelas, comecei a fazer uma dissertação astronômica. Iniciei-a com aquela história que aprendemos nos grupos escolares: "O sol é milhares de vezes maior do que a terra". "O sol está a tantos quilômetros de distância da terra". "As estrelas estão a milhares de quilômetros de nós", etc.
Depois da conversa, eles saíram e ouvi, então, um dos vaqueiros olhar para o outro e dizer: "Homem mentiroso". Sim, para ele eu era um mentiroso. Ele não podia acreditar que a terra girava quando estava vendo a terra parada. Para ele, naturalmente, quem girava era eu.
Cada* qual tem uma verdade relativa de acordo com a sua percepção. O que tem impedido a descoberta da verdade, o que não nos faz ainda caminhar em busca da verdade, é a ciência oficial e, também, a religião. As religiões o têm entravado porque se baseiam em livros dogmáticos, como a Bíblia e o Alcorão. "O homem foi feito de barro" (até hoje não sei onde Deus arranjou o barro) e daí por diante. A ciência oficial tem combatido todas as descobertas novas. Todas as descobertas que a ciência tem feito, foram antes condenadas pela ciência oficial e pelas academias reais.
Assim, Anton Von Leewènhoek, um holandês, descobriu que uma gota d'água continha uns bichinhos que se mexiam. Ele tinha uma lente, observou e viu os bichinhos mexerem-se. Achou o fato bastante interessante, porque não supunha que pudessem existir animalzinhos tão pequeninos que a vista humana não os poderia ver. Colocou no microscópio outra gota d água e viu outra vez os bichinhos que se mexiam. Pegou uma gota de sangue que havia caído e viu que também tinha bichinhos. Achou o fato surpreendente e o comunicou à Real Sociedade de Londres e à Academia de Medicina de Londres, e elas resolveram não tomar conhecimento, e na sessão em que tal assunto foi apresentado, o presidente da Academia tomou em plena sessão um copo d'água e disse: "Vou beber bichinhos", e a assistência disparou numa risada. Acredito que no outro mundo esse respeitável membro da Real Academia, com sua toga, sua beca e sua cabeleira, deve estar morrendo de vergonha ao saber que hoje qualquer criança conhece a existência dos micróbios.
Semmelweis, que não era médico, impressionou-se com a mortalidade que havia entre as parturientes naquela ocasião. Observou, no hospital em que trabalhava, que as parturientes que eram atendidas pelos médicos, pelos professores, morriam, e as que eram atendidas pelas enfermeiras não morriam. Constatou isso, observou e descobriu que os médicos que operavam não lavavam as mãos. Naturalmente, achou que transmitiam moléstias (não sabia ainda dos micróbios) e aconselhou os médicos que lavassem as mãos. Pois, esse homem foi preso e morreu num hospício de Viena. Hoje a ciência oficial sabe perfeitamente como se transmitem os micróbios, conhece os micróbios que causam todas as moléstias, e os médicos, atualmente, graças a Deus, lavam as mãos, põem luvas, máscaras, vestem-se como fantasmas brancos antes de operar, e ficam quase enciumados diante dos velhos médicos que operavam de cartola e luvas, e levavam seus animais para passearem.
A ciência oficial não admite nunca uma verdade nova, e mesmo o povo também não a aceita. Quando Fulton, possuindo o primeiro barco a vapor, subiu o Mississipi, não tendo cavalo atrelado ao barco, foi apedrejado pelo povo, porque, diziam, nele havia o diabo. Aquele barco fazia um barulho danado, soltava fumaça, tinha o diabo dentro. A ciência oficial e o povo, portanto, não aceitam as verdades novas. Religiosamente ficamos nas velhíssimas verdades. Se observarmos desde as primeiras idéias religiosas, até nas religiões mais avançadas, notaremos que as modificações religiosas foram bastante pequeninas, isto porque as religiões são baseadas em livros dogmáticos que não aceitam a evolução da ciência.
Estamos numa época em que devemos falar a verdade, na qual os homens "estão pondo as manguinhas de fora", não se importando com as religiões, mas isso porque não existe a Santa Inquisição, pois, se tal existisse, alguma coisa lhes aconteceria. Eu seria pendurado numa figueira porque estou pregando heresia. Não estou longe, porque Sócrates, dizendo menos do que isto, foi obrigado a suicidar-se, pois estava "corrompendo a mocidade".
A verdade, sendo subjetiva, cada um de nós a vê dentro de um aspecto e, se nós estamos imbuídos de uma idéia, se temos uma verdade, não queremos discutir nem aceitamos a verdade dos outros, porque o homem (embora eu tenha lido em alguns livros de cientistas que o homem é o rei da criação, o animal mais inteligente), fico, às vezes, admirado da sua falta de discernimento. O homem é um animal perfeitamente gregário; busca o convívio dos outros homens, e é imitador. Ele imita tudo para acompanhar os outros. Um imita no seu modo de agir, de vestir, de pensar, todos os outros homens; daí ter sido estabelecida a linha dos explorados e dos exploradores. Uns, mais espertos, exploram outros, pregando teorias, que todos aceitam como verdadeiras, porque discernimento e alta compreensão raramente o homem emprega quando crê, isto porque ele deve crer no que o mandam os outros. Deve aceitar o que os outros dizem, não pensar por si. Na Idade Média procuravam o mais possível conservar o homem na ignorância. Não devia aprender ou crer em nada. Faz pouco tempo que a mulher adquiriu alguma liberdade, porque o homem, como "rei da criação", não permitia que a mulher tivesse a menor instrução; tinha que ser sua escrava, ficar dentro do lar, ou como as índias, trabalhar enquanto o marido permanecia em casa, deitado na rede. Hoje tudo mudou.
Nós sabemos que no mar, nas grandes profundidades, moram peixes cegos, peixes que nas grandes profundidades vivem no escuro, e que por isso não tiveram necessidade de olhos. Lá, portanto, vivem peixes cegos, que não podem mesmo, devido a seu aparelho respiratório, vir à superfície.
Um dia os grandes peixes resolveram reunir-se numa assembléia para discutir como era o mundo. E, em assembléia, um deles, naturalmente o presidente, começou a dizer: "Olhem; o mar é um paraíso; na terra existe uma porção de pedras, os animais não respiram como nós", etc. Quando chegou outro peixe que estava dando pulos para fora d'água, para assistir à assembléia e, escutando o que o presidente estava dizendo, respondeu-lhe: "Vocês estão enganados. O mundo não é só isso. O mundo tem mais alguma coisa lá em cima. Tem água clara e prateada; quando vou à superfície, vejo um azul que os homens chamam céu, uma coisa brilhante que chamam sol, e à noite uma coisa prateada, que é a lua. O mundo não é só isso que vocês dizem". Então o presidente, um velho peixe, passou a mão numa vara de marmelo e deu uma sova no peixinho, dizendo-lhe: "Saia daqui, seu mentiroso, nós sabemos o que é o mundo". E o peixinho teve que escapar para não morrer. Assim é o mundo. Cada vez que um sábio, um cientista, descobre algo novo, levanta a celeuma dos peixes velhos e o pobre coitado é apedrejado. Copérnico, quando apresentou a teoria de que a terra não era o centro do sistema planetário, foi tido como absurdo. "O sol maior do que a terra?" "Onde se viu isso?" A vaidade do homem de então não permitiu nem aceitou as teorias de Copérnico. Anos depois, após muito estudar e meditar, Darwin chegou a dizer: "Sabem de uma coisa? Deus não criou Adão e Eva; do macaco fez o homem", e apresentou todas as provas possíveis. No entanto, por pouco escapou à fogueira por causa dessa teoria. Até hoje existe muita gente que não acredita nessa teoria, assim como até hoje existem positivistas que não acreditam nos micróbios. É assim a verdade.
A verdade não pode ser exposta. Quando homens de estudo e de ciência, como Camilo Flammarion, dizem ao mundo que outros planetas devem ser habitados, surgem os doutos e dizem: "Não. Só na terra existem homens". Não dissemos que lá existem homens, mas devem ser habitados. A ciência oficial não acredita.
Deus fez este mundo para o homem. Fez o paraíso. Depois o homem foi transformando o paraíso em inferno. Nós vivemos no paraíso; o que não sabemos é viver nele. Deus só podia criar o Paraíso e não outra coisa.
Todas as ciências, todas as descobertas são combatidas. Assim, quando queremos estudar alguma coisa, logo dizem: "É proibido. A ciência oficial e a religião oficial não deixam. Quantas obras-primas do espírito não foram devoradas na fogueira da fé!"
Creio que não há religião superior à verdade. A verdade é o caminho para o qual devemos seguir cada dia. Caminhamos para a verdade porque ela está no alto da montanha com o espelho na mão. Caminhamos para ela, vamos em busca dessa verdade, como o caminheiro que sobe a montanha e cada dia avista mais um vale. Quanto mais subimos, mais a nossa vista alcança a verdade, mais novas verdades vamos descobrindo. Saindo do caminho da verdade, estaremos dogmatizando.
Se eu disser que este papel é branco, estou dogmatizando, porque ele pode não ser branco. Tenho certeza? Não. Suponho que seja branco, devemos ter uma dúvida, porque a teoria da relatividade é bastante interessante. Vamos, por exemplo, tomar outra cor. O vermelho. Se eu disser que vejo uma coisa vermelha e tiver perto de mm um daltônico, ele dirá que estou enganado, que essa coisa não é vermelha e sim verde. Posso chamar testemunhas. De qualquer forma o daltônico continuará dizendo que é verde. Se chamar 1000 pessoas e essas 1000 pessoas acharem a coisa vermelha, para o daltônico essas 1000 pessoas estão erradas. Sim, o daltônico vê verde no vermelho. Se fosse uma cidade só de daltônicos, que aconteceria? O errado seria eu. Eu que estou certo, para eles não estava. Entre o verde e o vermelho, a diferença é questão de impressão.
Os filósofos antigos enfileiravam as cores entre as propriedades específicas dos corpos, tais como a dureza, etc. Notando Epicuro que a coloração dos objetos variava segundo os tons da luz, pensou que os corpos não possuíssem, de per si, coloração alguma. Descartes e Boyle adotaram esta hipótese. Mas foi Newton que estabeleceu primeiro uma teoria a que deu o nome de Cromática. Hoje sabemos que as cores não são propriedades dos corpos. Os corpos determinam a cor, logo é uma questão de impressão. Nós podemos ter determinada impressão e, por conseguinte, quando supomos que temos a verdade, não a temos. Toda a verdade, principalmente a verdade filosófica, cada um tem que a descobrir por conta própria.
Crer ou não crer não resolve o problema. A gente crê no micróbio, porque tem o micróbio; a gente crê na evolução, porque existe a evolução. São fatos provados. Mas a questão é ser ou não ser, e isto podemos descobrir através de nossa evolução, de nossa impressão, do nosso próprio conhecimento. Devemos desenvolver cada dia mais a nossa capacidade de meditação, de raciocínio. Vamos sentindo os fenômenos cada vez de uma maneira melhor. Haja visto o fenômeno do espírito. Religiões, ciências e filosofias o têm procurado resolver por processos diferentes, os quais, se satisfazem a uns, não atendem a outros mais exigentes, e a muitos levaram a descontentamento e à desilusão. De maneira geral, admite-se a existência do espírito imortal; em torno dele se edifica uma crença, vaga, nebulosa, que não exerce nenhuma influência construtiva no caráter da maioria de seus crentes ou indagadores. E qual a conseqüência prática disso? É que na vida cotidiana, crentes e indagadores, ou não, se confundem todos na mesma massa humana temerosa da morte, sedenta de gozos materiais, e indiferente aos direitos e liberdade dos outros. Ora, devemos estudar, observar, meditar e alcançar uma verdade, não por sugestão, não porque alguém no-la disse. Devemos descobrir a verdade, que alcançaremos o caminho da evolução, porque ninguém progride nem evolui, a não ser pelo seu próprio esforço. Não há predileção, não há alguém que receba mais do que outros. Todos somos caminheiros na estrada da vida; todos temos que caminhar, percorrer essa estrada em busca de uma fé, mesmo além da morte.
Depois da morte, a vida deve continuar, mas esse é um problema que cada um tem que descobrir e buscar por si, não crer e nem "Tomizar". Cada um deve buscar desvendar o seu passado, buscar desvendar o seu presente, desvendar o seu futuro através de sua vontade, através de seu raciocínio, através de sua percepção. Não acreditar em nada como sendo verdade. Não aceitar nunca o que os outros disserem. Não! Deve, antes, estudar, observar e acreditar o que for melhor, porque a verdade, se for objetiva, é uma verdade para aquele que a está vendo, como para mim são verdades determinadas coisas que alcancei, tal qual a verdade que lhes contei de que a terra gira, mas que para o meu amigo do Norte não é uma verdade. Isso ele não pôde aceitar e não aceita até hoje. Cada um de nós terá uma verdade quando a alcançar, e é meditando, estudando, observando, que podemos alcançar a verdade. A verdade está onde a pomos. Devemos caminhar para ela, devemos procurar a verdade aqui, ali, até a atingirmos, e assim daremos o primeiro passo no caminho da verdade da luz.
2 de agosto de 1948

Texto Extraído do livro: Hei de Vencer, de Arthur Riedel
 

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