Felicidade: doação X recebimento
Há gente que tem a mania de pedir favores
todos os dias a Deus, aos protetores; pedem tudo: saúde, bem-estar, felicidade,
uma namorada, uma casa para alugar; tudo pedem. Mas eu pergunto uma coisa: "O
homem dá?" Está aí uma coisa difícil: dar. Sim, o homem dá a morte ceifando
plantas, atirando nos animais que vivem. É o que ele dá. As árvores são tão
amigas que chegam a perfumar o machado que as corta. E os animais morrem vítimas
dos heróis caçadores e dos atiradores de pombos. É o que o homem dá; fora disso,
não dá nada, nem risada, porque ele, naturalmente, pensa como aquele usurário
que não dava risada porque era tão seguro que não dava nada.
Ora, após contemplarmos um pouco a natureza, vemos que a natureza inteira dá
toda as horas sem pedir retribuição. Os pássaros dão o seu canto. Os pássaros
cantam por cantar, cantam porque são alegres, gostam da vida livre, glorificam a
natureza. O sol dá luz, calor, sem pedir coisa alguma; dá luz e calor aos ricos
e aos pobres, às flores e aos monturos. Ele dá: está em si dar luz e calor,
fazer brotar a vida. A chuva dá a sua água que rega os campos, fertilizando-os.
Tudo na natureza dá, está continuamente dando, sem pedir nada em troca. As
árvores dão. A árvore dá a sombra com seus galhos, agasalha melhor os pássaros,
dá flor e fruto. Ela dá e é companheira inseparável de nossa vida; dá-nos a
madeira para nosso berço, madeira para nosso caixão; nela nós nascemos e com ela
morreremos. A árvore é amiga da natureza inteira, sem pedir quase nada, sem
querer retribuição. Tudo na vida dá; tudo tem alegria de viver, tudo tem vida na
natureza e tudo dá ao homem, ao passo que este não dá nada, quase que
absolutamente nada, porque é profundamente egoísta, só pensa em si. Cada um de
nós pensa que foi o motivo da criação, que o mundo foi criado para si. Deus
criou a sua pessoa e tudo deve girar em torno dela; o resto do mundo foi feito
para glorificá-la. Essa idéia que temos no subconsciente é que faz com que
estabeleçamos uma luta na vida, um conflito, onde cada um quer o máximo para si.
Eis uma belíssima página de Amado Nervo sobre o assunto:
"Todo homem que te procura, vai pedir-te alguma coisa: o rico aborrecido, a
amenidade da tua conversa; o pobre, o teu dinheiro; o triste, um consolo, o
débil, um estímulo; o que luta, uma ajuda moral.
Todo homem que te busca, certamente há de pedir-te alguma coisa.
E tu ousas impacientar-te! E tu ousas pensar!... Que fastígio! Infeliz! A lei
oculta, que reparte misteriosamente as excelências, dignou-se outorgar-te o
privilégio dos privilégios, o bem dos bens, a prerrogativa das prerrogativas:
"dar". Tu podes dar!
Em todas as horas de que é feito um dia, tu dás, ainda que seja um sorriso,
ainda que seja um aperto de mão, ainda que seja uma palavra de alento. Em todas
as horas de que é feito um dia, tu te assemelhas a Ele, que não é senão doação
perpétua e perpétuo regalo.
Devias cair de joelhos e dizer: Graças, meu Deus, porque posso dar! Nunca mais
pelo meu semblante passará uma sombra de impaciência! Em verdade, em verdade vos
digo que mais vale dar que receber!"
Aprendamos a dar e encontraremos prazer na vida. Podemos dar todas as horas um
simples pensamento de amor, um pensamento de bem, um pensamento de alegria. Ao
acordar, elevemos nosso pensamento ao Criador e agradeçamos-Lhe mais um dia que
vamos viver para glorificá-Lo, para nos melhorar, para nos aprofundar, para nos
aproximar de sua Divindade. Glorificando o nosso pensamento, ergamos depois um
pensamento a todos os seres, a todos os que lutam e sofrem e, quando sairmos de
casa, encontraremos milhares de oportunidades para dar um sorriso aqui, a mão
acolá; adiante, passamos a mão na cabeça de uma criança, uma palavra de
fraternidade ao jornaleiro, uma graça para o condutor que vem receber nossa
passagem. Mas infelizmente nós não podemos fazer isso, nossa responsabilidade e
nossa seriedade não permitem, que conversemos com alguém. Não. Entre preto e
branco há distinção de classe, de poder. Se damos um sorriso para uma criada,
para um empregado, logo olham para nós desconfiados. Sim, porque uma criada, um
empregado são seres inferiores, cada um de nós tem um ser que lhe é inferior.
Cada um olha para baixo e vê um ser que lhe é inferior; e ele, portanto, quer
ter superioridade, quer guardar sua autoridade superior.
Conta Machado de Assis, numa de suas brilhantes páginas, que, em pequeno,
Quincas Borba teve um escravo moleque, a quem fazia de boneco, chicoteava, fazia
de cavalo e dizia uma porção de palavras ofensivas. Anos depois, Quincas Borba
dá liberdade ao escravo e vai para Minas Gerais. Voltando, um dia, ao Rio de
Janeiro e, passando numa daquelas ruelas da velha Capital Federal, viu ali um
moleque, um mocinho que sovava um preto, e dizia palavras que seu subconsciente
lhe trouxe à memória, as mesmas palavras que dizia antes ao seu escravo. O
mocinho era o antigo escravo de Quincas Borba, que depois de sua liberdade,
comprou um escravo para retribuir as palmadas que tinha ganho de Quincas Borba.
Por conseguinte, batia no escravo, dizia-lhe as mesmas palavras, montava nele
para se vingar, e para desabafar transmitia a outro o que recebera de seu amo.
É conhecido o caso de um preso que teve de trabalhar de picareta e encontrou
dificuldades, má vontade. Um amigo de prisão, um dia, perguntou-lhe: "Diga-me
uma coisa, por que está você aqui?" "Foi por causa de um amigo que me traiu".
"Então, pense na cara desse amigo, pegue na picareta e bata com força. Quando
você bater a picareta, lembre-se da cara de seu amigo". Assim ele conseguia
trabalhar e não se cansava, porque não estava trabalhando, mas estava dando
picaretadas na cabeça do amigo.
Ora, devemos livrar-nos desses recalques, devemos criar em nossa mente uma
atitude de alegria, de prazer, uma atitude vitoriosa. Eu já disse e continuo
dizendo: Sei como é difícil, porque a minha psicologia individual tem-me feito
estudar o indivíduo, dissecá-lo e acabei conhecendo profundamente o pensamento
de cada um. Da psicologia individual se extrai a psicologia coletiva.
No prédio de apartamentos onde moro, alguém diz com orgulho: "Resido aqui há
cinco anos e não conheço ninguém!" Pode ser que eu não conheça ninguém, mas
cumprimento todos; entro pela porta de trás, dou para todos uma risadinha.
Alguém há de pensar que sou errado. Não faz mal, continuo cumprimentando, dando
minhas risadinhas, dirigindo duas palavras ao padeiro, ao açougueiro, etc.
Muitas vezes, nas minhas frases eles encontram algum consolo, e saem
satisfeitos, dizendo: "Aquele senhor falou comigo". Sim, porque para alguém
necessitado, somos alguma coisa mais, devemos dar alegria, prazer aos outros.
Precisamos falar com alguém, contar a alguém coisas para nos tornarmos alegres,
felizes.
Se sentirmos a glória e a alegria de viver, não precisamos de riqueza, nem do
auxílio de todos, porque todos são nossos companheiros na jornada da vida, todos
lutam, amam, sofrem, padecem — homens e animais — todos caminham para o mesmo
fim, para a mesma morte, direi mesmo, para o desconhecido, ainda que só se creia
no desconhecido; caminhamos todos para o mesmo fim na mesma jornada. E, então,
por que não fazemos todos uma grande amizade?
Recordo-me de uma viagem que fiz num transatlântico, onde os passageiros de
primeira classe não se cumprimentavam e ainda no terceiro dia não conversavam.
Um olhava para o outro e pensava: "Esse sujeito será batedor de carteira?" Era a
impressão que tínhamos uns dos outros. Mas, no terceiro dia de viagem fomos
surpreendidos com um formidável temporal; o mar jogava violentamente; o céu
estava escuro e de todos os lados apareciam nuvens negras. Então, um passageiro
foi-se chegando ao outro e perguntando: "Será que vem a tempestade?" "Será que
não vem?" "Será que vamos passar por esse temporal?" Todos os passageiros, de
primeira, de segunda, de terceira classes, estavam unidos, não havia mais
distinção de categoria social, de nada. Só queriam saber se a tempestade viria
ou não e, naquela hora, todos se sentiam como irmãos. No dia seguinte, o mar
estava sereno e cada classe se isolou da outra; cada um voltou à sua importância
e à sua responsabilidade, porque, na vida, o passageiro de primeira não pode
conhecer o passageiro de terceira classe.
Se nós sentíssemos, como a natureza, a glória de viver! E quem vive entre a
natureza, quem acorda, como eu, e vê os pássaros alegres e as flores
desabrochando, sem perguntar: "Qual é o meu destino?" Sim, porque as flores não
sabem se vão morrer no pé, se vão enfeitar um vaso, se vão ornar um ramalhete de
casamento ou um caixão de morto. Elas florescem, abrem-se pelas glórias, pela
alegria de viver e oferecem o seu pólen às abelhas e aos colibris. Toda a
natureza vive alegre, feliz. Eu sinto nos animais, nas plantas, nas flores e
mesmo nos minerais, a alegria de viver, a glória de viver. Só o homem é triste;
só o homem não tem alegria de viver sua vida; para ele a vida é permanentemente
um fardo pesado. Triste Criador, ó Deus, que não soubeste dar à tua criatura,
feita à tua imagem e semelhança, outra coisa senão um fardo e a ambição.
Belíssima esta oração de S. Francisco de Assis, entregue a todo o mundo:
Senhor, fazei-me instrumento de Vossa Paz
Senhor, fazei-me instrumento de Vossa Paz.
Onde haja ódio, consenti que eu semeie amor;
perdão, onde haja injúria;
fé, onde haja dúvida;
esperança, onde haja escuridão;
alegria, onde haja tristeza.
Ó Divino Mestre! Permiti que eu não procure tanto ser consolado, quanto
consolar; ser compreendido, quanto compreender; ser amado, quanto amar. Porque é
dando que recebemos; perdoando que somos perdoados. E é morrendo que nascemos
para a Vida Eterna.
Depois da morte não é que começa a vida; a morte é uma continuação da própria
vida, é o caminho para a nossa própria vida, é o caminho para a nossa própria
glorificação. Vamos fazer, então, dentro de nós mesmos, um projeto: Tornemo-nos
alegres desde este momento em diante, vamos ter um rosto alegre, porque, se há
alguma coisa desanimadora, é um rosto triste, uma cara de choro. Vamos modificar
nossa atitude mental; vamos buscar dar, em vez de pedir; dar a todas as horas
alegria, e quando não tivermos mais para dar, demos um sorriso, um profundo
amor, um aperto de mão que é tão fácil.
Precisamos modificar, para isso, um princípio que nos puseram na mente, que é um
princípio profundamente errado e que é preciso ser modificado: TU ÉS PÓ E EM PÓ
HÁS DE TORNAR-TE !
Não é verdade; o certo é: TU ÉS UM DEUS E EM DEUS HÁS DE TORNAR-TE !
Texto Extraído do livro: Hei de Vencer, de Arthur
Riedel
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