CARÍCIAS

Uma criança sem alimentos, por mais afeto que receba de seus pais, não terá um desenvolvimento normal.

A maior preocupação dos pais e médicos sempre foi a de que a criança recebesse alimentos e que seu corpo estivesse bem protegido quanto às intempéries (principalmente do frio) e também da sujeira. É impressionante como um grande número de mães envolve os filhos em panos, quando estão doentes, mesmo no mais forte verão.

Então, em caso de uma doença, o tratamento resume-se geralmente à matéria médica, com indicações de remédios e repouso. Contudo, todos nós conhecemos algum caso de pessoa doente, tratada por um ótimo médico e tomando os melhores remédios, que permanece enferma (isso pode, inclusive, estar acontecendo com você, neste momento).

Spitz estudou os efeitos nefastos da falta de contato físico em casos de tratamento de doenças. Uma criança sem carinho – contato físico apesar de todo o tratamento orgânico, pode não sarar por estar mantendo uma doença oriunda da falta de afagos.

A criança necessita ser tocada; beijada, olhada, percebida!

O leite materno, quentinho em sua boca, estômago satisfeito, é um TOQUE! O corpo quente é um TOQUE!

Os estímulos são tão importantes para a saúde como o são os alimentos!

Muitos pais formam idéias errôneas sobre as crianças ou sobre a sua educação, como por exemplo: 'Não vou pegar no colo para não acostumar mal', 'Não vou dar muita atenção porque quero que ele aprenda a ser independente'.

O berço da criança acaba sendo uma cela solitária ... da qual o prisioneiro fará tudo para sair.

Vai chorar alto ... e pode ser que alguém diga: 'É manha; acabou de mamar!'

Poderá ficar levemente enfermo e dirão: 'Não sei o que acontece com ele, que está sempre doente'.

Poderá ficar gravemente enfermo ... e dirão: 'Meu Deus, é melhor não tirá-lo do berço'.

Poderá, em caso extremo, vir a morrer (e existe uma série enorme de experimentos mostrando como isso é verdadeiro).

O reconhecimento da existência é, basicamente, o que motiva a humanidade. 'Papai, olha, aqui estou eu' (Presidente dos EEUU) ou

'Papai, olha, aqui estou eu' (sentado na cadeira elétrica).

Essas idéias são para introduzirmos o conceito de CARÍCIAS e sua IMPORTÂNCIA.

CARÍCIA (toque, afago, estímulo) é a unidade de reconhecimento humano.

Começa no nascimento, com o toque físico. Depois passa para palavras, olhares, gestos e aceitação.

Sem dúvida o toque físico é o mais potente meio de reconhecimento ...

Com o passar dos anos, o toque físico pode, razoavelmente, ser substituído pelo toque verbal. Então, um acariciamento no rosto da esposa pode ser substituído por um 'Que bom que você veio!'

Todos nós queremos ser reconhecidos!

Todos nós necessitamos de carícias! Tanto quanto precisamos de comida).

Chamamos de "CARÍCIAS" porque CARÍCIAS são o que o bebê necessita quando nasce.

E, nesse sentido, apesar de adultos, necessitamos de CARÍCIAS, TOQUES, CARINHO. Tudo isso compõe o ALIMENTO IDEAL para o desenvolvimento do ser humano. Sem isso ele pode apresentar um quadro de retardamento mental (oriundo da carência de toques na infância), fechar-se em seu mundo e tornar-se, até, um psicótico.

Nenhuma criança (ou adulto) aguenta a indiferença dos pais! Um beijo é melhor que um tapa. Mas, um tapa é melhor do que a indiferença...!

E, por não aguentar a indiferença, a criança vai experimentar condutas diferentes para chamar a atenção, até encontrar algumas que funcionem ..

Para receber ESTÍMULOS, se não tem afeto, qualquer coisa pode servir: um tapa dos pais, gritos, beliscões, olhares de raiva ou desprezo!

Tudo isso são exemplos de CARÍCIAS NEGATIVAS. Elas satisfazem a necessidade de atenção da criança, ainda que produzindo a dor e sentimentos de rejeição.

A qualidade das caricias que a criança recebe dá uma idéia primitiva de como fazer para ser reconhecido ou aceito.

A carícia é o combustível do comportamento humano Nossas condutas são induzidas por nossa necessidade de reconhecimento. Algumas, de maneira imediata: 'hei, por que você não me cumprimentou?'. Outras, a longo prazo: 'Com essa descoberta, vou ganhar o prêmio Nobel'. Ou: 'Eles ainda me pagam...!' Ou ainda: 'Vou ganhar muito dinheiro para dar em casa para os meus pais'.

Muitas vezes, toda uma série de acontecimentos é notivada por um simples gesto de atenção (lembram das loucas histórias de paixão de adolescentes'?).

A vida dos seres humanos, na maioria das vezes, é orientada para a pessoa receber do pai um abraço que não conseguiu quando criança, de modo incondicional, simplesmente pelo fato de ser um filho, de existir.

Muitas vezes, carreiras que poderiam ter sido brilhantes, vão desmoronando por falta de estímulos. Muitas v vezes, os seres humanos funcionam como burros que caminham motivados por uma cenoura colocada suspensa em uma vara, na frente. Caminham o tempo todo e, freqüentemente, nem chegam a comer a cenoura ... (andando atrás de um vislumbre de reconhecimento). São pessoas que colocam um objetivo lá na frente, sem valorizar o prazer de viver. Esse objetivo pode ser uma situação na qual vai receber uma tonelada de carícias, por ter atingido o alvo. Outras vezes, não conseguem atingir esse objetivo e receber as carícias por não terem conseguido realizá-lo. É importante na nossa vida que cuidemos de procurar as carícias das quais necessitamos, ao mesmo tempo em que, a cada momento, desfrutemos o

fato de estar vivos.

Do livro  A CARÍCIA ESSENCIAL; Uma Psicologia do Afeto, de Roberto Shinyashiki

Conheça o livro, clique na capa ao lado

Primeiro livro de Roberto Shinyashiki, é até hoje seu maior sucesso. Lançado em 1985, já ultrapassou a 150ª edição. Fala da necessidade primeira do ser humano, o afeto. Desde o nascimento, o homem luta para receber atenção, ser reconhecido, ganhar um abraço. Às vezes, quando essa necessidade não é satisfeita, chega até a prejudicar-se para atingir seu objetivo. Afinal, indisciplina, brigas e doenças também são uma forma de gritar por afeto. O livro discute todos os aspectos envolvidos na arte de dar e receber carícias, recorre a contos e fábulas para ilustrar determinadas passagens, analisa que tipo de pensamento está oculto em frases inocentes ditas no dia-a-dia. Leva o leitor a encarar sob novo ângulo seus relacionamentos, a refletir sobre que lugar as carícias ocupam em sua vida e o que faz para consegui-las.

 

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