Dê-me um afago ....

    Você já observou que às vezes tem necessidade de um abraço, de um carinho, ou mesmo de que alguém o pegue no colo?

    Harlow, em "Amor em filhotes de macacos", relata uma experiência em macacos recém-nascidos que o levaram à conclusão de que: "A estimulação tátil é tão importante quanto o alimento no desenvolvimento dos comportamentos.

    Essas experiências foram realizadas colocando cada macaquinho frente a duas mães substitutas, sendo que uma era de arame e outra de pano.

    Essas foram algumas das observações de Harlow: os macaquinhos afeiçoaram-se à mãe de pano e ainda que a mamadeira estivesse no peito da mãe de arame, os símios somente saciavam sua fome e logo depois voltavam para a mãe de pano.

Quando na gaiola era colocado um estímulo que produzia medo, os macaquinhos corriam para a mãe de pano; junto à mãe de pano, o macaquinho se sentia mais seguro para arriscar-se e explorar o meio ambiente, mesmo na presença de um estímulo de medo.

    Um macaquinho quando criado em solidão apresentava um quadro muito grave, evitava todo contato social, parecia sempre muito amedrontado, tinha uma postura de encolhimento e de abraçar-se a si mesmo.

    Se esse quadro durasse mais um ano, tornava-se praticamente irreversível. A estimulação tátil, além de significar algo gostoso, afetuoso e propiciar sensação de proteção e segurança, fornece material para o indivíduo criar uma identidade.

Qualquer afago ...

    É importante termos consciência de que qualquer forma de estímulo leva o indivíduo a perceber-se vivo ...

    Que serve como um fator de equilíbrio da pessoa, ainda que por vezes instável.

    Levine realizou uma série de experiências com ratos e chegou à conclusão de que qualquer estímulo, ainda que seja negativo, é melhor do que o abandono.

    O pesquisador separou-os em três grupos: o primeiro era colocado em uma gaiola e submetido a choques elétricos todos os dias, na mesma hora, por um certo tempo; e o segundo grupo também era colocado na gaiola de choques, todos os dias, à mesma hora, pelo mesmo período de tempo, mas não recebia os choques. O último grupo era deixado na gaiola permanentemente sem ser sequer manuseado.

    Para surpresa de Levine, não havia, no final da experiência, grande diferença no comportamento dos dois primeiros grupos, enquanto que o terceiro, que não recebia qualquer estímulo, comportou-se de forma bastante diferente. Quando colocados em ambientes estranhos, que lhes causavam tensões, os ratinhos do grupo que não recebia estímulos agacharam-se no canto da caixa, amedrontados e sem qualquer curiosidade para explorar; os que estavam habituados à tensão (choque elétrico) no entanto, exploravam o ambiente, tanto quanto aqueles que não receberam choque.

    A estimulação positiva ou negativa, como nos mostra Levine, acelera o funcionamento do sistema glandular supra-renal, que desempenha um papel importantíssimo no comportamento dos animais adultos.

    Sem qualquer dúvida, os animais manipulados abrem os olhos mais cedo, sua coordenação motora é desenvolvida também mais cedo, o pelo do corpo cresce com mais rapidez e tendem a ser significativamente mais pesados quando desmamam. Apresentam, também, maior resistência a uma injeção de células de leucemia, por um tempo mais longo.

Senão eu morro ...

     A falta de estímulos pode levar o indivíduo a quadros psico patológicos extremamente intensos e em casos extremos até à morte.

    Spitz estudou o comportamento de crianças em instituições durante o primeiro ano de vida, onde essas crianças, apesar de receberem alimentos e remédios quando doentes, não tinham grande oportunidade de interagir com os adultos.

    Essas crianças depois de 6 meses começavam a apresentar um quadro de indiferença pelos adultos, reflexos diminuídos e retardados, como se não percebessem o que estava acontecendo ao seu redor.

    Em média, esses bebês apresentaram um retardo grande de linguagem e na exploração do mundo.

    Quando frustrados não reagiam, atuavam passivamente, como que aceitando a situação.

    Outras experiências foram realizadas, mostrando como esse tipo de situação pode levar o indivíduo a um quadro psicótico e também a uma doença chamada marasmo.

    Existem outras pesquisas revelando que crianças sem estimulação sensorial desenvolvem um quadro de retardamento mental.

J.A. Gaiarsa, na introdução ao livro  A CARÍCIA ESSENCIAL; Uma Psicologia do Afeto, de Roberto Shinyashiki

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Primeiro livro de Roberto Shinyashiki, é até hoje seu maior sucesso. Lançado em 1985, já ultrapassou a 150ª edição. Fala da necessidade primeira do ser humano, o afeto. Desde o nascimento, o homem luta para receber atenção, ser reconhecido, ganhar um abraço. Às vezes, quando essa necessidade não é satisfeita, chega até a prejudicar-se para atingir seu objetivo. Afinal, indisciplina, brigas e doenças também são uma forma de gritar por afeto. O livro discute todos os aspectos envolvidos na arte de dar e receber carícias, recorre a contos e fábulas para ilustrar determinadas passagens, analisa que tipo de pensamento está oculto em frases inocentes ditas no dia-a-dia. Leva o leitor a encarar sob novo ângulo seus relacionamentos, a refletir sobre que lugar as carícias ocupam em sua vida e o que faz para consegui-las.

 

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