As tabuinhas de argila da Babilônia
ST. SWITHIN'S COLLEGE NOTTINGHAM UNIVERSITY Newark-on-Trent Nottingham, 21 de outubro de 1934
Professor Franklin Caldwell, Responsável pela expedição científica britânica a Hillah, Mesopotâmia.
Caro Professor:
Sua carta e as cinco tabuinhas de argila achadas durante sua recente escavação nas ruínas da Babilônia chegaram no mesmo barco. Fiquei extraordinariamente fascinado e passei muitas horas agradáveis traduzindo as inscrições. Queria responder imediatamente a sua carta, mas achei melhor esperar até que tivesse completado a tradução das tabuinhas. Elas chegaram em bom estado, graças ao uso providencial de anteparos e excelente empacotamento. Você ficará perplexo, tanto quanto nós mesmos ficamos aqui no laboratório, com a história que elas contam. Em geral esperamos que o impreciso e distante passado fale de romance e aventura, coisas do tipo As mil e uma noites, você sabe. Quando, em vez disso, esse mesmo passado revela os problemas enfrentados por um homem chamado Dabasir para saldar suas dívidas, percebe-se que as condições que regiam o mundo antigo não mudaram muito nesses cinco mil anos.
É estranho, mas essas velhas inscrições me passaram um "trote", como dizem os estudantes. Sendo um professor universitário, sempre me julguei como um pensador que detivesse um conhecimento prático a respeito de muitos assuntos. E então me aparece esse velho sujeito, saído dos mundos soterrados da Babilônia, oferecendo uma maneira, de que nunca ouvi falar, de resolver o problema de minhas dívidas e ao mesmo tempo andar com moedas de ouro tilintando em meu bolso. Como seria agradável e interessante averiguar se tal sistema funcionaria tão bem nos dias de hoje quanto o fez na antiga Babilônia. A Sra. Shrewsbury e eu estamos planejando testá-lo em nossos próprios negócios, que poderão melhorar muito.
Desejando-lhe toda a sorte do mundo em seu valioso empreendimento e aguardando impacientemente outra oportunidade de servir, despeço-me com os sinceros cumprimentos de Alfred H. Shrewsbury,
Departamento de Arqueologia
Tabuinha I
Neste momento, em noite de lua cheia, eu, Dabasir, recém-fugido da escravidão na Síria, com a determinação de saldar dívidas que reconheço publicamente e fazer de mim mesmo um homem de posses respeitado em minha cidade natal da Babilônia, mando gravar sobre a argila um registro permanente de meus negócios para guiar-me e assistir na satisfação de meus altos desejos. Escorando-me nos conselhos de meu bom amigo Mathon, o emprestador de dinheiro, acho-me determinado a seguir um plano preciso que, segundo ele, pode tirar qualquer cidadão dos embaraços de uma situação de dívida para uma situação de posses e auto-respeito. Esse plano inclui três propósitos que espero e desejo realizar. Primeiro, o plano é a garantia de minha futura prosperidade. Por isso, um décimo de tudo quanto eu ganhar será separado e guardado. Pois Mathon fala sabiamente quando diz:
"Aquele que guarda em sua bolsa ouro e prata que não precisa gastar é bom para a família e leal com seu rei.
"Aquele que não tem em sua bolsa senão algumas moedas de cobre é indiferente à família e indiferente a seu rei.
"Mas o homem que não tem nada em sua bolsa é insensível à família e desleal com seu rei, pois seu próprio coração é amargo.
"Por isso, o homem que deseja atingir seus objetivos deve ter moedas tilintando em sua bolsa, sinal de que tem em seu coração amor pela família e lealdade para com o rei."
Segundo, o plano deve permitir que eu sustente e vista minha boa esposa, que, com toda a dignidade, voltou para viver comigo. Pois Mathon afirma que cuidar adequadamente de uma esposa leal confere auto-respeito ao coração de um homem e propicia força e determinação a seus propósitos. Por isso, sete décimos de tudo quanto eu ganhar serão usados em nossa casa, na aquisição de roupas e comida, além de uma pequena parcela destinada aos prazeres e aos divertimentos. Mas é absolutamente necessário que não se gastem mais do que sete décimos nessas coisas. O sucesso do plano depende disso. Devo viver com essa parcela e nunca usar mais do que isso ou comprar o que esteja além desse limite.
Tabuinha II
Terceiro, o plano deve garantir que meus ganhos tenham condição de saldar todas as minhas dívidas. Por isso, na ocasião da lua cheia, dois décimos de tudo que eu tiver ganhado serão divididos honrada e razoavelmente entre aqueles que confiaram em mim e a quem pedi emprestado. Assim, em seu devido tempo, todas as minhas dívidas estarão certamente liquidadas. Como um lembrete, mandei gravar nesta argila o nome de todos os cidadãos a quem pedi emprestado e a honesta soma de meus débitos.
Fahru, o tecelão, 2 de prata, 6 de cobre.
Sinjar, o fazedor de assentos, l de prata.
Ahmar, meu amigo, 3 de prata, l de cobre.
Zankar, meu amigo, 4 de prata, 7 de cobre.
Askamir, meu amigo, l de prata, 3 de cobre.
Harinsir, o ourives, 6 de prata, 2 de cobre.
Diarbeker, o amigo de meu pai, 4 de prata, l de cobre.
Alkahad, meu senhorio, 14 de prata.
Mathon, o emprestador de dinheiro, 9 de prata.
Birejik, o fazendeiro, l de prata, 7 de cobre.
(A tabuinha está danificada a partir daqui. Não deu para decifrar.)
Tabuinha III
Devo a esses credores um total de 119 moedas de prata e 141 moedas de cobre. Preso a tais compromissos e não vendo como pagar, em minha loucura permiti que minha esposa voltasse para o pai, enquanto eu mesmo deixava minha cidade natal, somente para encontrar desgraça e ver-me degradantemente vendido como escravo.
Agora que Mathon me mostra como posso saldar minhas dívidas a partir de pequenas somas tiradas de meus próprios ganhos, percebo com clareza a grande extensão de minha loucura ao fugir das conseqüências provocadas por minhas extravagâncias. Por isso visitei meus credores e expliquei-lhes que não tinha outros recursos para pagar-lhes senão minha capacidade para ganhar dinheiro e que eu tencionava destinar dois décimos de tudo que ganhasse para a amortização das dívidas, honesta e periodicamente. Não poderia desembolsar mais do que isso. Se fossem pacientes, com o tempo todas as minhas obrigações estariam integralmente resolvidas.
Ahmar, que eu julgava ser o meu melhor amigo, injuriou-me amargamente, e me retirei sentindo-me realmente humilhado. Birejik rogou que eu lhe pagasse primeiro, porque estava precisando de ajuda. Alkahad, meu senhorio, revelou-se um sujeito desagradável e garantiu que me poria em maus lençóis se eu não resolvesse logo a situação com ele. Os demais tiveram a boa vontade de aceitar minha proposta. Por isso estava mais determinado como nunca a resolver tudo aquilo, convencido de que é mais fácil acertar as dívidas do que evitálas. Ainda que não tivesse podido satisfazer integralmente as necessidades e os caprichos de alguns poucos credores, negociei imparcialmente com todos.
Tabuinha IV
Outra lua cheia. Trabalhei arduamente, com a cabeça em paz. Minha boa esposa tem me apoiado na intenção de pagar a meus credores. Devido a nossa sábia determinação, ganhei durante a última lua, comprando camelos de bom fôlego e boas pernas para Nebatur, a soma de 19 moedas de prata. Dividi-a de acordo com meu plano. Separei um décimo para guardar, dividi sete décimos com a esposa para o nosso sustento. Dois décimos, uniformemente divididos em moedas de cobre, foram destinados a meus credores. Não estive com Ahmar, mas deixei a parte dele com sua esposa. Birejik ficou tão satisfeito que quis beijar minha mão. Só o velho Alkahad continuava rabugento e disse que eu devia pagar mais rápido. Repliquei-lhe que eu só teria condições de pagar mais rápido se deixasse de me preocupar com o sustento da casa e de minha esposa. Todos os demais me agradeceram e elogiaram meus esforços. Por isso, ao final de uma lua, meu endividamento foi reduzido a quase quatro moedas de prata, e já tenho quase duas moedas de prata guardadas que ninguém pode reivindicar. Meu coração se acha mais leve, coisa que há muito não experimentava.
De novo o plenilúnio. Trabalhei duro, mas com pouco sucesso. Vendi apenas alguns camelos. Meus ganhos não foram além de 11 moedas de prata. Entretanto, minha boa esposa e eu continuamos fechados com o plano, ainda que não tenhamos comprado roupa alguma, limitando-nos, inclusive, a uma alimentação frugal. Ainda dessa vez separei para guardar um décimo das 11 moedas e sete décimos para as despesas. Fiquei surpreso quando Ahmar louvou meu pagamento, ainda que pequeno. Bijerik comportou-se do mesmo modo. Alkahad encolerizou-se, mas, quando viu que podia ficar sem sua parcela se não a aceitasse, concordou comigo. Os demais, como sempre, não fizeram quaisquer restrições.
Mais uma vez a lua cheia toma conta do céu, e me sinto extremamente feliz. Topei com um magnífico rebanho de camelos e comprei alguns bem saudáveis, tendo conseguido ganhar 42 moedas de prata. Esta lua minha esposa e eu compramos sandálias e roupas, de que estávamos bem necessitados. Além disso, fizemos boas ceias, acompanhadas inclusive de aves. Paguei aos credores mais de oito moedas de prata. Dessa vez, nem Alkahad protestou. Grande é o plano, pois ele tem nos tirado do endividamento e propicia-nos a possibilidade de guardar o que nos pertence de direito.
Já se passaram três luas cheias desde que fiz este último entalhe na argila. Em cada uma delas paguei a mini mesmo um décimo de tudo quanto consegui com o meu trabalho. E durante esse mesmo tempo minha boa esposa e eu vivemos sempre com sete décimos adrede separados, ainda que às vezes isso se tivesse mostrado mais difícil. E paguei regularmente a meus credores os dois décimos a eles destinados.
Minhas economias somam agora 21 moedas de prata. Isso faz com que eu sinta a cabeça no lugar e me deixa orgulhoso por poder caminhar entre meus amigos. Minha esposa cuida muito bem de nossa casa se veste com decoro e elegância. Sentimo-nos felizes por estarmos juntos. O plano é de um valor indizível. Além de ter feito de um ex-escravo um honrado cidadão.
Tabuinha V
Veio de novo a lua cheia, e percebo que já faz um bom tempo que comecei a entalhar a argila. Na verdade, doze luas vieram e se foram. Mas hoje especialmente não negligenciarei meu registro, pois acabo de pagar a última de minhas dívidas. Hoje é o dia em que minha boa esposa e meu agradecido ser comemoram com um grande banquete o fato de nossa determinação ter chegado a bom termo.
Aconteceram tantas coisas em minha última visita aos credores que ainda me lembrarei disso por muito tempo. Ahmar rogou-me que lhe perdoasse por suas palavras duras e disse que eu era, entre todos os demais, a pessoa que mais desejava para seu amigo. O velho Alkahad não é assim tão mal, apesar de tudo, pois me disse: "Antes você era um pedaço de argila mole que todo mundo podia apertar e modelar, mas agora é uma peça de bronze capaz de enfrentar uma espada. Se em algum momento precisar de ouro ou de prata, procure-me." E ele não é o único que me tem em alta conta. Muitos outros dirigem-se a mim com respeito.
Minha boa esposa fita-me com um brilho nos olhos que me leva a ter confiança em mim mesmo. Esse é o plano que me propiciou sucesso. Ele me capacitou a pagar todas as minhas dívidas e conservar minha bolsa repleta de ouro e prata. Recomendo-o a todos que desejam o êxito. Pois se fez com que um ex-escravo tivesse condição de pagar suas dívidas, não ajudaria qualquer outro ser humano que buscasse a independência? E ainda continuo a utilizá-lo, pois estou convencido de que poderei estar entre os homens mais ricos do mundo.
Texto extraído do excelente livro: O Homem Mais Rico da Babilônia, de George S. Clason
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