O deus adormecido

        Cada um de nós carrega em si um deus dormente que pede para ser acordado. Esse é o caminho para alcançar uma vida plena. Quando digo que temos essa divindade interna, quero deixar claro que cada ser humano é um deus, apenas não está deus ainda porque não se apropriou desse poder.
       Essa potencialidade divina tem de ser desenvolvida, mas, se a pessoa não fizer nada de concreto para que isso aconteça, vai nascer, viver e morrer sem ao menos saber que ela existe.
       O grande problema é que vivemos em uma sociedade onde impera a cultura da razão, cujo valor máximo é a mente cerebral e controladora, em detrimento das emoções e da intuição.
       Sob a ditadura do raciocínio, fica mesmo difícil, senão impossível, estabelecer uma conexão com a divindade interna, o que faz com que as pessoas vivam desconectadas de si próprias, incapazes de se ligarem em sua intuição.
       Essa deformação começa na infância com o total desconhecimento dos pais a respeito do assunto e o desrespeito por tudo que lhes pareça fantasia e excesso de imaginação dos filhos, impedindo que desabroche o seu verdadeiro ser, que é pessoal e muito particular.
       Essa tentativa que a pureza da criança permite talvez seja a última oportunidade que ela tem de trazer ao seu consciente esse verdadeiro poder divino. Anulada, ficará dormente para sempre, seguindo as rígidas leis sociais que disciplinam e intelectualizam as crianças, tornando-as matemáticas, intelectuais e perdendo, assim, essa fabulosa força intuitiva e verdadeira, a única capaz de agir sobre o seu soberano destino.
       Na escola isso se amplia, pois não se fornecem elementos para que a criança se envolva com sua criativa potencialidade. Com regras rígidas e incoerentes, impedem sua evolução como pessoa, estandardizando suas experiências. Exigindo inteligência, informações, regras, disciplina, impondo o castigo e exaltando os erros, nivelam-nas por baixo, em total ignorância da verdadeira identidade de cada uma e do extraordinário potencial que carregam.
       As pessoas debandaram para um único lado da inteligência humana, esquecendo-se de que a mente racional é apenas um pequeno pedaço de todo esse desconhecido mundo interno, sendo contínua e profundamente afetada por nossos humores, emoções e o formidável algo interior que não soubemos ainda aproveitar!

       Sócrates dizia: "Conheça a si mesmo e conseguirá dominar suas emoções". Talvez estejamos nos aproximando dessa antiga sabedoria dos gregos, escapando ao império absoluto do deus Logos, que tanto mal fez ao homem, tornando-o mero objeto dessa sociedade materialista, na qual passa a vida vegetando e consumindo supérfluos.
       Esse ser de alma vazia não tem o controle das próprias emoções e vive à mercê dos humores alheios - sejam do patrão, da mulher, dos filhos, da sogra, do pai, da mãe...
       Eu diria até que esse homem não existe. É um termo forte, mas ele não existe dentro da própria vida, sendo guiado por parâmetros externos. Não se interiorizou, não se conheceu, não se descobriu. Não houve tempo. Quando atendo a uma pessoa pela primeira vez e pergunto, numa lista de prioridades, em que lugar ela se encontra, percebo que ela não se encontra em sua própria lista de prioridades. Quando muito, está lá pelo trigésimo ou quadragésimo lugar. Primeiro vêm os filhos, a esposa, o trabalho, etc., etc., o motorista, a reunião, etc., etc., o cachorrinho da filha, o papagaio do vizinho... Inaceitavelmente, é assim que se procede!
       Cedo, ele teve de ir para a escola; ainda cedo lhe é exigido que se defina por uma profissão; depois se casa, vêm os filhos, a família e, de repente, ele se vê adulto responsável, sentindo-se um nada por dentro.
       Como esse homem não se interioriza, não para, não pensa, acaba sendo mais um número na sociedade tecnocrata que o estimula a viver de olhos voltados para fora.
       Então tem de dar uma parada. Parar é fundamental, parar é a questão. Temos de nos impor a parada, essa é a saída - parar três horas, três dias, três semanas, mas parar mesmo. Esse homem está muito atribulado, perdido, maluco - ele precisa parar. Somente quando para é que pode se dar conta.
       Eu atendo a pessoas quase em desespero, com síndrome do pânico, tomando remédios para depressão, hipertensão, etc. Está tudo errado. O medicamento em si não resolve a causa do problema. Todos querem um remédio. O que não sabem é que o remédio está dentro de cada um de nós.
       As pessoas não param, não querem encontrar-se com elas mesmas e vivem num total desequilíbrio e desrespeito por si próprias. Chegam em casa e, quando se vêem sozinhas, correm ligar a televisão porque precisam ouvir uma voz. O homem não habita mais o seu ser. Foge da oportunidade de estar sozinho.

       Fique um pouco com você, pare, sinta, pense, tente se conhecer, porque aí é que vai florescer, desenvolver e prosperar um ser humano - e não um mero fantoche de carne e osso. Encontre o deus dormente que vive em você e faça-o desabrochar para a vida...

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       A chave para penetrarmos nesse poderoso circuito do autoconhecimento é o corpo. Ele é a porta de entrada da alma, onde mora o seu espírito e onde dorme tranqüilo esse deus venturoso que precisa - e pede - para ser acordado. Mas as pessoas têm medo de parar e tentar o silêncio. O que significa essa busca do silêncio?
       O silêncio é a verdadeira saúde. Aqui estou falando de meditação, um mecanismo muito simples. Tentar esse exercício de desligar a máquina mental, abrindo espaço para a comunicação com o mundo interior e secreto de cada um de nós, é a única maneira de estabelecer a paz e a tranqüilidade necessárias para descansar a mente - essa incessante máquina falante. Simplesmente tentar não pensar em nada, só respirar - isso já será um grande passo. Sem pensar que não pode pensar em nada. Porque, se você pensar que não pode pensar em nada, aí já pensou. Deixe os pensamentos passarem pela sua cabeça, porém não se prenda a nenhum deles.
       Respirar é a única porta de que dispomos para entrar em nosso sistema. Não há outra forma. Não há como você dar ordens para o seu coração bater mais devagar, ou pedir que os movimentos peristálticos do seu intestino aumentem a velocidade evitando a prisão de ventre.
       A respiração é o extraordinário portal que o encaminha ao controle de seu incontrolável sistema autônomo. Através dessa mágica e fantástica passagem podemos atuar sobre o hipotálamo, fazendo baixar a freqüência cardíaca; sobre o bulbo, permitindo que as respirações se tornem mais profundas e tranqüilas; e, evidentemente, sobre o próprio cérebro, diminuindo seus giros mentais. Tudo entra em equilíbrio e trabalha corretamente. Precisamos aproveitar mais esse talento que a respiração possui de atuar sobre toda a nossa saúde, trazendo a paz e promovendo o importante equilíbrio do organismo.
       Nesse mergulho interno recuperamos nossa tranqüilidade, nosso eixo. E começamos a perceber um outro mundo, tão perto e maravilhoso, mas em uma outra dimensão. E assim como falei que toda pessoa deve experimentar dormir às 9 horas da noite, pelo menos uma vez na vida, para perceber a diferença, da mesma forma tem de tentar meditar. Até porque é um recurso extremamente fácil.
       Todas as pessoas meditam, mesmo sem se dar conta disso. Sem esse recurso, o cérebro entra em pane. Muitas vezes você está num carro, no banco do passageiro, e, sem se dar conta, se pega olhando para longe, algo indistinto ou o infinito. É justamente sua cabeça que pede trégua. É um leve estado meditativo por conta de seu organismo que quer defender a vida a qualquer custo. Você estava meditando! Estava num estado meditativo e isso acontece uma porção de vezes ao longo do dia, em várias situações, às vezes sem que se perceba, quando ficamos completamente absortos, pensando no nada.
       Esse é um recurso extremo para a manutenção da vida, é o momento em que o cérebro repousa, pois nem quando dormimos ele descansa, já que é durante o sono que o cérebro trabalha febrilmente, controlando todo o complexo funcionamento do organismo e restabelecendo todas as células, desgastadas pelo dia-a-dia de trabalho. O problema é que costumamos censurar essas nossas evasões cotidianas, encarando-as como perda de tempo.
       O que o homem moderno precisa entender é que as coisas que considera perda de tempo são, na verdade, um ganho real. Em uma caminhada, por exemplo, ganha-se tempo porque a caminhada é uma meditação ativa. É um importante momento de repouso mental em que se busca o equilíbrio, além dos ganhos fisiológicos do desenvolvimento do aparelho cardiovascular. Quanto mais você estiver envolvido com seu corpo, mais aquietará sua mente. Quanto mais você se envolver com seu corpo físico, mais estará relaxando seu corpo mental e desenvolvendo seus corpos emocional e espiritual.

 

Do livro: A Semente da Vitória, de Nuno Cobra

 

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