Canalizando o Inconsciente
Pela lógica da neurociência, se
a ausência de um circuito neural conduz a um déficit de uma aptidão, então a
força ou fraqueza relativas desse mesmo circuito nas pessoas de cérebro intato
deve conduzir a níveis comparáveis de competência nessa mesma aptidão. Em termos
do papel dos circuitos pré-frontais na sintonização emocional, isso sugere que
por razões neurológicas alguns de nós podem mais facilmente detectar a sensação
de medo ou prazer que outros, e assim ser emocionalmente mais autoconscientes.
Talvez o talento para a introspecção psicológica dependa desses mesmos
circuitos. Alguns de nós estão naturalmente mais sintonizados com os modos
simbólicos especiais da mente: a metáfora e o símile, juntamente com a poesia, a
música e a fábula, são todos moldados na linguagem do coração. Também o são os
sonhos e mitos, em que vagas associações determinam o fluxo da narrativa,
seguindo a lógica da mente emocional. Os que têm uma sintonia natural com a voz
de seu coração a linguagem da emoção certamente são mais capazes de articular as
mensagens dele, quer sejam romancistas, compositores ou psicoterapeutas. Essa
sintonia interna deve torná-los mais talentosos para expressar a "sabedoria do
inconsciente" os significados que sentimos em nossos sonhos e fantasias,os
símbolos que encarnam nossos mais profundos desejos. A autoconsciência é
fundamental para a intuição psicológica; esta é a faculdade que grande parte da
psicoterapia pretende fortalecer. Na verdade, o modelo de inteligência
intrapsíquica de Howard Gardner é Sigmund Freud, o grande mapeador da dinamica
secreta da psique. Como Freud tomou claro, grande parte da vida emocional é
inconsciente; os sentimentos que se agitam dentro de nós nem sempre cruzam o
limiar da consciência. A verificação empírica desse axioma psicológico vem, por
exemplo, de experiências com emoções inconscientes, como a notável descoberta de
que as pessoas tomam gosto definitivo por coisas que nem percebem que viram
antes. Qualquer emoção pode ser e muitas vezes é inconsciente.
Os inícios psicológicos de uma emoção ocorrem tipicarnente antes que a pessoa
esteja conscientemente a par do próprio sentimento. Por exemplo, quando se
mostram fotos de cobras a pessoas que têm medo delas, sensores em sua pele
detectam o surgimento de suor, um sinal de ansiedade, embora elas digam que não
sentem medo algum. O suor aparece nessas pessoas mesmo quando a imagem da cobra
é mostrada de um modo tão rápido que elas nem têm idéia consciente do que,
exatamente, acabaram de ver, quanto mais de que estão começando a ficar
ansiosas. À medida que essas agitações emocionais pré-conscientes continuam a
crescer, acabam tomando-se suficientemente fortes para irromper na consciência.
Assim, há dois níveis de emoção, consciente e inconsciente. O momento em que a
emoção passa para a consciência assinala seu registro como tal no córtex
frontal.
As emoções que fremem abaixo do limiar da consciência podem ter um poderoso
impacto na maneira como percebemos e reagimos, embora não tenhamos idéia de que
elas estão atuando. Vejam alguém que se aborrece com uma coisa desagradável no
início do dia e fica ranzinza durante horas depois, ofendendo-se sem causa e
respondendo mal às pessoas sem verdadeiro motivo.
Ele bem pode ignorar sua continuada irritabilidade e ficará surpreso se alguém
chamar sua atenção para ela, embora ela esteja pouco aquém de sua consciência e
dite suas respostas bruscas. Mas assim que essa reação é trazida à consciência
assim que se registra no córtex, ele pode avaliar de novo as coisas, decidir
abandonar os sentimentos que ficaram do início do dia e mudar de perspectiva e
estado de espírito. Desse modo, a autoconsciência emocional é o bloco de montar
do próximo fundamento da inteligência emocional: ser capaz de abandonar um
estado de espírito negativo.
Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman
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