O Campeão de Vendas

           Atílio trabalhou comigo anos seguidos, numa revendedora de automóveis. Apesar do seu estranho comportamento e aparência, acabei por aceitá-lo, o que não acontecia com a maioria dos outros colegas. Era um homem inteligente, mas eles implicavam com as suas manias, seus rompantes e suas depressões. Exageradamente alto e magro, mal passava pela travessa das portas. Caminhava balançando os braços pendurados, o pescoço se movimentando para frente e para trás, como se fosse um remo. A miopia e seus óculos de vidros grossos alteravam o tamanho dos seus olhos e ele parecia um cego. Tinha os cabelos eternamente embaraçados, os dentes pareciam mal caber dentro da boca e o queixo fino se alongava à frente do pescoço e de um pontiagudo pomo-de-adão.
            Mas com o tempo fui me acostumando com aquela figura e acabei descobrindo que se tratava de um bom amigo. Um dia, quando a liberdade entre nós me permitiu, numa sexta-feira à tarde, antes de apanharmos o metrô, já tínhamos passado do chope ao gim, lhe perguntei como um homem tão mal arrumado e desengonçado podia ser um vendedor de sucesso. Quis cancelar a pergunta, mas não foi possível. Ele não se amofinou e deu uma risadinha:
            - É porque eu sou bonito...
            A coisa ficou esquecida, nem eu nem ele voltamos ao assunto, provavelmente porque naquele dia nós dois já tínhamos passado do estágio responsável. Mas acentuou-se o respeito que eu sentia por ele.            

Cerca de dois meses depois - a rotina não se alterara - uma elegante mulher entrou no salão de exposição, declinou o atendimento que lhe ofereceu um dos nossos colegas, a quem cabia o rodízio, e caminhou diretamente para a mesa de Atílio. Sentou-se à sua frente e conversaram durante algum tempo. Quase uma hora depois eles se levantaram. Tinha sido mais uma venda e a cliente despediu-se de Atílio com um beijo carinhoso. O carro seria entregue, lacrado, dias depois.
            Entre constrangido e desconfiado, lembrei-me daquela frase de Atílio:
            - É porque eu sou bonito...
            Sem dúvida a eficiência de Atílio me surpreendia, mas não podia entender onde poderia estar o charme daquele homem para atrair mulheres. Houveram outras vendas, a loja não era pequena, e Atílio se mantinha como o melhor vendedor, tanto para vender para homens, como para mulheres. A amizade que eu mantinha com ele não era fraterna; confesso até que eu me achava muito superior a ele, e isso me desagradava intimamente.
            Numa manhã, estávamos os vendedores na expectativa de uma promoção lançada na televisão e nos jornais, quando um casal estacionou o carro e o homem vem me perguntar pelo Atílio. Me ofereci gentilmente para atendê-los, mas o homem insistiu e chegou a preferir esperar a ser atendido por mim. Intrigado, me dirigi ao chefe contestando a forma de atendimento e exigi o cumprimento dos rodízios, mas as coisas ficaram para serem resolvidas depois.
            Era época do Natal e o salão estava profusamente iluminado, ornado de flores, guirlandas e arcos carregados de fitas vermelhas. Homens e mulheres circulavam pela loja observando e namorando os automóveis, enquanto as crianças corriam pelo espaço livre que lhes era oferecido e inventavam brincadeiras, certos de contarem com a brandura dos pais em virtude do clima de festa.
            Atílio circulava vestido de Papai Noel, com um travesseiro disfarçando sua magreza. Creio que foi a minha inveja que me fez ver ali uma figura ridícula e a expectativa de que não iria conseguir venda nenhuma. Puro engano! As brincadeiras simplórias atraíam as crianças, que arrastavam os pais que entravam na armadilha. Resultado? Setenta por cento das vendas foram feitas pelo Atílio, contra cinco de outros vendedores, entre os quais estava eu. Não me conformava com o que estava acontecendo e não admiti me fantasiar pelo simples fato de não acreditar que aquela vestimenta vermelha pudesse definir a decisão de compra de um veículo que oferecia tal nível de tecnologia.             No dia seguinte ao feriado, eu estava à minha mesa de trabalho quando Atílio se aproximou, sentou-se na minha frente, iniciando uma conversa bajuladora:
            - Você é um vendedor muito melhor que eu...
            - Só que você é mais bonito...
            Atílio riu a ponto de quase cair da cadeira. - Não meu amigo... O segredo é a estratégia, a logística! Entende? Eu enganei você, os colegas e o chefão lá de cima... Sem prejudicar ninguém! Estou contando agora para você porque me vou embora. Essa estratégia não funciona mais depois que a gente conta para os amigos...
            - Como é?
            - Sabe aquela mulher chiquérrima que me procurou? Fui motorista dela, aliás de toda a família... gente rica! Depois fui motorista de táxi e carregava uma pá de clientes diariamente, sempre anotando nomes e endereços... Fazendo amizades...
            Atílio fez um gesto ridículo com a cabeça e olhou à sua volta, certificando-se de que ninguém pudesse ouvi-lo.
            - Tenho trabalhado com esses clientes há tempos! E lhes transmiti confiança... Então, não tenho que ser um bom vendedor, tenho que ser um médio estrategista... Fique certo de uma coisa, como vendedor você é muito melhor do que eu...
            Levantou-se, deu aquele sorriso horrível e se foi. Depois desses anos todos, ainda lembro dele como um homem que consegue as coisas porque é um homem bonito!

Aquiles Mondane

 

 

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