A ENERGIA UNIVERSAL

O CH´I E O CAMPO DE ENERGIA HUMANO

Há paralelos diretos entre a visão da nova física e a descrição da realidade oferecida pelas filosofias orientais — o budismo, o hinduísmo e o taoísmo. A nova física descreve o mundo da matéria e das formas em termos de um campo quântico de energia que abrange tudo. Abaixo da superfície das coisas do mundo, não existem elementos básicos da natureza; existe apenas uma teia de relações de energia interligadas.
As principais filosofias religiosas do Oriente defendem essencialmente a mesma visão, mas em vez de chegar a ela como resultado da experimentação objetiva, tiveram séculos de cuidadosa observação interior. O pensamento oriental proclama que o universo que contemplamos é essencialmente um todo indivisível, consistindo em uma única vida ou energia espiritual — porque é sob essa forma que é possível experimentá-lo.
Cada uma dessas religiões tem o seu próprio método de alcançar uma ligação maior com o universo; todas elas, porém, afirmam que os seres humanos, embora intimamente ligados a essa energia sutil que se chama prana ou ch'i (ou kl), geralmente estão desligados de seus níveis superiores. Várias disciplinas dessas religiões — a meditação e as artes marciais, por exemplo — destinam-se a despertar essa relação, e obtêm resultados comprovadamente extraordinários. Certos iogues orientais exibem incríveis façanhas de força, controle do corpo e capacidade de suportar extremos de frio ou calor.m
Alguns sistemas de crença orientais afirmam que a energia que circula através dos seres humanos pode ser observada sob a forma de um campo de luz, ou aura, que os cerca. Essa energia muitas vezes é percebida como luz colorida emanando de cada ser humano, e os diferentes formatos ou tons dessa luz refletem a natureza do ser interior e do caráter da pessoa.
Na década de 50 as descrições da nova física começavam a circular na mídia massificada, e de repente essas teorias esotéricas do Oriente, baseadas estritamente na observação interior, começaram a ser levadas a sério por psicólogos e sociólogos no Ocidente. O Oriente tinha criado um sistema no qual o potencial do ser humano era muito mais aberto e abrangente; à medida que esses conceitos tornaram-se conhecidos, o velho paradigma começou a desmoronar nas outras disciplinas. A nova física nos dera uma nova concepção do universo que nos rodeia, e agora um movimento semelhante nas ciências humanas estava prestes a nos trazer uma nova compreensão de nós mesmos.


O POTENCIAL DE MOVIMENTO HUMANO

No meio do século XX, o enfoque predominante da psicologia ocidental era o estudo da mente humana em relação aos nossos atos no mundo exterior — em outras palavras, a investigação do nosso comportamento. Seguindo o paradigma mecanicista, os psicólogos procuravam um princípio ou uma fórmula-mestra a que todas as ações humanas no mundo pudessem ser reduzidas, o que anterior-mente levara ao modelo behaviorista de estímulo/reação.
A única outra abordagem importante ao estudo da psicologia humana estava sendo conduzida na psiquiatria, segundo o modelo de patologia médica criado por Freud. Sigmund Freud, pensador do final do século XIX, estudou profundamente a estrutura da própria mente, baseando suas teorias em conceitos reducionistas e biológicos aceitáveis para o paradigma mecanicista.
Freud foi o primeiro a postular que os traumas de infância resultavam muitas vezes em temores e reações neuróticas de que os seres humanos geralmente não tinham consciência. Ele concluiu que o comportamento da humanidade era motivado simplesmente pelo impulso de aumentar o prazer e evitar a dor.
No final da década de 50, porém, os mistérios revelados pela nova física, a crescente influência das filosofias orientais e os movi-mentos do existencialismo e da fenomenologia na filosofia ocidental inspiraram um terceiro desenvolvimento teórico na psicologia. Essa nova orientação era liderada por Abraham Maslow, que, com um grupo de outros pensadores e escritores, procurava um meio mais completo de estudar a consciência humana.11
Rejeitando o behaviorismo por achá-lo abstrato demais, e as teorias de Freud por serem demasiado obcecadas com os desejos sexuais sublimados, esses cientistas queriam estudar a mente tendo como foco a própria percepção. Nisso eles eram profundamente influenciados pelo Oriente, onde a consciência era estudada de dentro para fora — que é o modo como cada ser humano sente a sua própria consciência. Ao longo da nossa vida, olhamos para o mundo exterior através dos nossos sentidos, interpretando o que acontece à nossa volta baseados em nossas lembranças e expectativas, e usamos os nossos pensamentos e as nossas intuições para agirmos: essa nova abordagem psicológica foi chamada de humanismo, e ela cresceu em grandes saltos ao longo das décadas de 60 e de 70.
Os humanistas não negavam que muitas vezes não temos consciência daquilo que motiva o nosso comportamento. Eles concordavam que os seres humanos tendem a restringir as próprias experiências, muitas vezes repetindo roteiros e padrões de reação destinados a reduzir a ansiedade. Mas os humanistas enfocavam também o modo como os humanos poderiam liberar sua maneira de ver e transcender seus roteiros, abrindo-se para a experiência humana superior que lhes estava disponível.
Essa nova perspectiva levou a uma redescoberta do trabalho de Carl Jung, o psicólogo suíço que rompeu com Freud em 1912 para desenvolver as suas próprias teorias — inclusive o princípio da sincronicidade. Segundo Jung, ao contemplarmos o mundo, os nossos desejos interiores não são apenas evitar a dor e maximizar o prazer hedonista, como pensava Freud, embora nos níveis inferiores de consciência possa parecer que seja assim; Jung afirmava que o nosso impulso maior é em direção à integridade psicológica e à auto-realização do nosso potencial interior.
Nessa viagem, somos guiados por trilhas já estabelecidas no cérebro, às quais ele chamou "arquétipos". À medida que crescemos psicologicamente, podemos realizar—ou ativar — esses arquétipos, progredindo assim na direção da auto-realização. O primeiro estágio do crescimento é o da diferenciação, durante o qual nos tornamos conscientes de nós mesmos no meio cultural em que nascemos e começamos a nos individualizar. Isso significa que temos que encontrar para nós um nicho nesse mundo que aprendemos na infância — um processo que inclui educar-se, pesquisar o mercado e encontrar um meio de ganhar a vida.
Fazendo isso aguçamos o poder do nosso ego e da nossa vontade, substituindo o conjunto de reações automáticas que aprendemos por uma maneira lógica de interpretar os acontecimentos; essa maneira se torna a nossa própria maneira de nos distinguirmos, de apresentarmos ao mundo o nosso Eu como uma pessoa única com idéias únicas. Este estágio é a princípio algo narcisista (egoísta) e muitas vezes inflado (egocêntrico), mas ativa intensamente aquilo que Jung chamava de arquétipo do Herói. Nesse ponto estamos preparados para encontrar alguma coisa importante para fazer na cultura; sentimo-nos orgulhosos e determinados a conseguir.
À medida que nosso crescimento continua, ultrapassamos a fase do Herói e ativamos aquilo que Jung chamou de arquétipo do Eu, um passo do desenvolvimento pelo qual deixamos para trás um autoconceito baseado em dominar o nosso meio. Em vez disso, entramos numa consciência mais dirigida para o interior, onde a intuição e a lógica se tornam parceiras, e os nossos objetivos se tornam mais alinhados com as imagens e sonhos interiores daquilo que realmente queremos fazer.
Esta é a fase que ele descreveu como auto-realização, e foi então que mencionou a percepção mais elevada: a da sincronicidade. Embora vislumbrada em todos os níveis, é durante essa fase que se torna mais instrutiva a percepção das coincidências significastes. Nesse estágio, os acontecimentos da nossa vida começam a reagir à nossa disposição de crescer, e a sincronicidade passa a ocorrer commais frequência.12
Reforçada por Jung, começou a emergir a imagem completa de como os humanos ficam imobilizados durante esse processo. Se acompanharmos o processo de descobertas desde Freud e Otto Rank, passando por Norman O. Brown e Ernest Becker, poderemos ver o que acontece. Os seres humanos criam determinadas crenças e comportamentos (roteiros) a que se agarram inflexivelmente, como meio de afastar a ansiedade. Estes vão desde fetiches e hábitos neuróticos incontroláveis até coisas mais normais, como idéias fixas religiosas e crenças filosóficas. O que esses roteiros têm em comum é sua natureza inflexível e sua resistência ao debate ou à discussão racional.
Os humanistas descobriram também que a sociedade humana se caracteriza por disputas de poder irracionais, destinadas apenas a manter intactos esses roteiros. Uma leva de pensadores, inclusive Gregory Bateson e R D. Laing, começou a mapear esse processo.13
Uma descoberta essencial foi chamada "efeito duplo-nó", durante o qual os seres humanos descartam qualquer idéia oferecida por outrem para poder dominar o diálogo. Como Laing demonstrou, quando esse hábito é instaurado pelos pais em seus filhos, costumam acontecer efeitos trágicos. Quando se critica qualquer ação possível oferecida por uma criança, ela se retrai para uma posição defensiva extremada, e desenvolve um padrão de reações exageradas, criado para responder ao ataque. Quando essa criança se torna adulta, o seu instinto de defesa e o seu desejo de controlar todas as situações a levam a usar inconscientemente técnicas de duplo-nó, especialmente em relação aos seus próprios filhos, e assim a condição se perpetua através de muitas gerações.
Esses psicólogos da interação descobriram que esse modo de comunicação era epidêmico na sociedade humana, criando uma cultura onde todos tentavam defensivamente controlar e dominar todas as outras pessoas. Nessas condições, a auto-realização e a expansão da criatividade eram limitadas, porque a maioria das pessoas passava o tempo todo lutando para dominar as outras e reforçar seus roteiros, em vez de abrir-se às possibilidades maiores disponíveis na experiência e nos relacionamentos entre elas.
Ao longo de várias décadas, essas descobertas foram popularizadas, especialmente nos Estados Unidos. O livro do dr. Eric Berne, Games People Play, estudava os roteiros e as manipulações mais comuns, descrevendo-os em detalhes. O livro I'm OK/ You're OK de Thomas Harris, explicava como a análise transacional poderia ser usada para estudar a verdadeira natureza das conversas humanas e abrir caminho para um modo de interação mais maduro.14 Uma nova consciência da qualidade das nossas interações começou a abrir caminho através da cultura, propondo a idéia de que todos nós podemos transcender esses hábitos.
No florescimento da teoria humanista de que podemos encontrar um nível mais alto de experiência, o mistério da nossa existência em si mesma tornou-se assunto de ampla discussão entre os humanistas. Foi nesse ponto que a formulação da evolução de Darwin foi reavaliada e questionada por pensadores como Pierre Teilhard de Chardin e Sri Aurobindo — que afirmavam que a evolução não era arbitrária, mas movia-se propositadamente numa direção. Esses pensadores sustentavam que o curso da vida, desde os primeiros organismos até os animais e plantas mais complexos, tinha um propósito, que os seres humanos não eram acidentes da natureza, e que a nossa evolução social, inclusive a nossa jornada para os reinos mais elevados da experiência espiritual, era o desfecho visado por toda a evolução.15
Um teórico contemporâneo cuja visão da vida defende essa tese é Rupert Sheldrake. Segundo a teoria de Sheldrake, as formas biológicas são criadas e sustentadas através de campos morfogênicos. Esses campos não ocupam espaço na natureza e criam uma estrutura invisível que moléculas, células e órgãos irão obedecer enquanto se diferenciam e se especializam para criar determinada forma de vida. Mais ainda: esse campo subjacente evolui ao longo do tempo, pois cada geração de uma espécie não apenas é estruturada por ele como também acompanha as suas mudanças à medida que ele supera os desafios do meio ambiente.
Por exemplo: para poder sobreviver em seu nicho biológico, um peixe poderá precisar desenvolver novas nadadeiras para nadar mais depressa; no sistema de Sheldrake, a vontade do peixe iniciaria uma mudança no campo morfogênico da espécie, que se refletiria no crescimento das nadadeiras em sua prole. Essa teoria apresenta a possibilidade de que os saltos evidentes nos fósseis encontrados possam ter ocorrido assim também — os membros de uma deter-minada espécie criando um campo morfogênico que produzia não apenas os traços adicionais, mas também um salto para uma forma de vida inteiramente diferente. Por exemplo: um determinado peixe poderia ter chegado ao limite da sua evolução na água e produzido uma prole que era na realidade uma nova espécie: anfíbios, que poderiam rastejar na terra.
Segundo Sheldrake, esse progresso poderia explicar também a evolução social dos seres humanos. Através da História, nós, seres humanos, como outras formas de vida, alargamos as fronteiras do nosso conhecimento, sempre tentando evoluir para uma compreensão mais perfeita do nosso meio ambiente e a realização do nosso próprio potencial interior. De qualquer momento da História pode-se dizer que o nível da capacidade e da consciência humanas era definido por um campo morfogênico comum. À medida que os indivíduos realizam suas capacidades particulares — correr mais depressa, ler pensamentos, receber intuições — o campo morfogênico evolui, não apenas para essas pessoas, mas para todos os outros seres humanos. É por isso que as invenções e descobertas muitas vezes são anunciadas, ao mesmo tempo, por vários indivíduos sem qualquer contato entre si.
É aqui que começam a se fundir as descobertas da física moderna e as mais recentes pesquisas científicas a respeito dos efeitos da oração e da intenção. Estamos intimamente ligados ao universo e uns aos outros, e a nossa influência em nosso mundo, através dos pensamentos, é mais poderosa do que qualquer pessoa jamais sonhou.
 

Texto extraído do livro: A visão celestina: vivendo a nova consciência espiritual, de James Redfield. Conheça os livros desse maravilhoso escritor, clique aqui.

 

 

 

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