A unicidade da vida
O mito de que somos separados e
isolados, de que cada um de nós é um sistema fechado, está agora se dissolvendo
na verdade maior de que cada um de nós tem influência sobre aquilo que vê.
Desde 1902, quando Werner Heisenberg desenvolveu o princípio da incerteza, a
ciência vem demonstrando que não existe análise estritamente objetiva. Nossa
observação de uma coisa é parte de sua realidade e da nossa também.
No livro de David Peat, Synchronicity: The Bridge Between Matter and Mind
[Sincronismo: A Ponte entre a Matéria e a Mente], é citado o físico John Wheeler:
"Tínhamos a velha idéia de que havia um universo lá fora e de que aqui estava o
homem, como observador, seguramente protegido do universo por uma chapa de vidro
de seis polegadas. Agora aprendemos, com o mundo quântico, que até mesmo para
observar um objeto tão minúsculo como o elétron, temos de quebrar a chapa de
vidro; temos de alcançar lá dentro... Assim, a velha palavra observador
simplesmente deve ser abolida dos livros e, em seu lugar, devemos introduzir o
termo participante. Desse modo, chegamos a compreender que o universo é um
universo participativo." A física quântica nos ensina que nada existe
isoladamente. Toda a matéria, das partículas subatômicas às galáxias, é parte de
uma complexa rede de relacionamentos dentro de um todo unificado.
O trabalho do físico David Bohm sobre partículas subatômicas e o potencial do
quantum levou-o a concluir que, se os seres físicos parecem estar separados no
espaço e no tempo, eles, na verdade, estão ligados ou unificados de forma
implícita ou unificadora. Sob o indiscutível domínio das coisas ou dos
acontecimentos isolados reside um domínio implícito da totalidade individual, e
esse todo implícito conecta todas as coisas.
Um antigo ensinamento sânscrito relata que no Paraíso do Indra há uma rede de
pérolas tecida de tal modo que, se você olhar para uma delas, verá todas as
outras refletidas nela. Da mesma maneira, cada objeto do mundo não é tão-somente
ele próprio, mas engloba todos os outros objetos e, na verdade, ele é todos os
outros objetos. Hoje, reconhecemos a realidade da rede de Indra na espantosa
multidimensionalidade do holograma.
Os hologramas podem ser mais bem entendidos por meio da ilustração. Se você
pegar uma imagem holográfica de um cão e ampliar apenas uma parte dela, digamos,
a cabeça, obterá mais do que uma figura da cabeça do cão; você obterá o cão
inteiro. A cabeça do cão é uma parte do todo, e o todo está presente em cada uma
de suas partes. O neurofisiologista de Stanford, Karl Pribram, considera que o
holograma pode ser um modelo do cérebro humano e, mais ainda, que pode refletir
a estrutura de todo o nosso universo.
A experiência pessoal levou-me às mesmas conclusões. O trabalho de cura do qual
tenho tido o privilégio de participar há muitos anos, freqüentemente envolve
clientes que podem estar a centenas ou até mesmo a milhares de quilômetros de
distância. A energia da cura e a informação são transmitidas através do meio
unificante que conecta toda a vida — a ordem implícita de Bohm — e esse meio
situa-se além do tempo e do espaço que normalmente percebemos. Somos
inseparáveis de toda a natureza. Não podemos perturbar o equilíbrio da natureza
e esperar que não sejamos atingidos, assim como não podemos prejudicar a nossa
própria vida sem que a nossa família seja atingida.
O livro Resettling America Energy, Ecology, and Community [Reorganizando a
energia, a ecologia e a comunidade na América], de Gary Coates, conta uma
história que sublinha o que acontece quando nos recusamos a respeitar o complexo
sistema de interdependência da natureza. A Organização Mundial de Saúde (OMS)
espalhou DDT em algumas aldeias de Bornéu, numa tentativa de erradicar a
malária. As aldeias eram formadas por "casas enfileiradas", baixas, cobertas com
palha, nas quais viviam aproximadamente quinhentas pessoas, num único núcleo, de
modo que era uma coisa simples pulverizar as cabanas com o inseticida. O efeito
a curto prazo foi uma queda significativa de incidência da malária. Porém, não
levou muito tempo para que as aldeias fossem invadidas por ratos da floresta que
carregavam pulgas no pêlo. Era um problema de certo modo preocupante, já que as
pulgas eram portadoras de praga.
Na verdade, muitos animais chegaram a morar nas cabanas cobertas com palha.
Havia baratas, lagartixas e gatos. O DDT foi absorvido pelas baratas, que foram
comidas pelas lagartixas. Estas, por sua vez, foram devoradas pelos gatos. Mas,
como o DDT se torna cada vez mais concentrado à medida que se espalha pela
cadeia alimentar, os gatos é que acabaram morrendo todos, envenenados pelo DDT.
Com o desaparecimento dos gatos da aldeia, o caminho ficou livre para os ratos
invasores. Para solucionar este novo problema, a OMS teve de soltar gatos de
pára-quedas dentro das aldeias. Mas esse não foi o único efeito colateral.
Pequenas lagartixas também viviam nas cabanas. Quando o DDT causou a morte do
organismo menor que era predador dos insetos, o número de lagartixas aumentou
rapidamente. Infelizmente, as lagartixas passaram a se alimentar das coberturas
de palha. Não levou muito tempo até que aldeias inteiras viessem abaixo.
Nós realmente criamos todas as nossas realidades, mas não as criamos
necessariamente sozinhos. Somos "co-criadores" junto com outras pessoas e com a
natureza. Criamos mundos pessoais com retroalimentação imediata, bem como
realidades pessoais a longo prazo que levam muitas vidas para se manifestar.
Também ajudamos a criar realidades relativas à família, à raça, ao sexo, à
espécie e ao planeta. Somos participantes — e não vítimas — de um mundo que
influenciamos mediante toda a escolha que fazemos.
Toda vez que extinguimos intencionalmente uma forma de vida, estamos
desrespeitando toda a vida. Sempre que compramos produtos de fabricantes que
exploram as pessoas, estamos contribuindo para a total realidade do abuso.
Quando poluímos o meio ambiente — até mesmo com um ato tão insignificante como
jogar uma lata de refrigerante pela janela do carro — colocamos em ação um
efeito de dominó na natureza. Com cada descuido em relação ao meio ambiente
físico, estamos ajudando a criar espaços para que novas moléstias virulentas se
incubem. Toda vez que lotamos o mar de nossa consciência unificada — com
violência e medo — estamos contribuindo para o momento em que essa violência e
esse medo surjam em nossas vidas pessoais.
Por outro lado, sempre que nos fazemos instrumentos de um ato de justiça, não
importa quão pequeno ele seja, acrescentamos um pouquinho de justiça ao mundo
todo. Toda vez que tiramos um pouquinho de medo de dentro de nós mesmos, estamos
fazendo isso para todos. Quando amamos, perdoamos, respeitamos toda a vida e
interagimos sem provocar danos, estamos contribuindo para que esses valores se
tornem uma realidade para todos nós.
Quando vemos uma criança sofrendo devido a uma pobreza extrema, um homem que
luta pela liberdade definhando numa prisão política, um jovem cuja vida está
sendo destruída pela AIDS, dizemos: "Poderia ser eu, não fosse pela ajuda de
Deus." Talvez também devêssemos dizer-lhes um sonoro muito obrigado. Seu
pesadelo também é um sacrifício que permite, a mim e a você, compreender com
mais clareza aquilo que precisa ser purificado em cada um de nós. Estamos todos
tão inter-relacionados que, como disse um botânico certa vez: "Colher uma flor é
abalar uma estrela."
Texto extraído de: As sete Etapas de uma Transformação Consciente, de Gloria Karpinski. Clique na capa abaixo e compare preços para este livro.
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