Um Tipo Diferente de Inteligência
Para o observador casual, Judy,
de quatro anos, pareceria deslocada entre os coleguinhas mais gregários.
Retrai-se na hora das brincadeiras, ficando mais à margem dos jogos do que
mergulhando no centro. Mas Judy é na verdade uma perspicaz observadora da
política social de sua turma no pré-primário, talvez a mais sofisticada dos
meninos em seus discernimentos dos vaivéns dos sentimentos internos dos outros.
Essa sofisticação só se torna visível quando sua professora reúne as crianças de
quatro anos em volta de si para brincar do que chamam de Jogo da Sala de Aula.
Essa brincadeira uma réplica infantil da própria sala do pré-primário de Judy,
colando figuras que têm como cabeças pequenas fotos dos alunos e professores é
um teste de percepção social. Quando a professora de Judy lhe pede que ponha
cada menina e menino na parte da sala onde mais gostam de brincar o cantinho da
arte, o de montar blocos, e assim por diante - , ela o faz com total precisão. E
quando lhe pedem que ponha cada menina e menino com as crianças com que mais
gostam de brincar, ela mostra que sabe combinar os melhores amigos de toda a
classe.
A precisão de Judy revela que ela tem um perfeito mapa social de sua turma, um
nível de percepção excepcional para uma criança de quatro anos. Essas são
aptidões que, na vida posterior, podem permitir a Judy desabrochar numa estrela
em qualquer dos campos onde as "aptidões pessoais" contém, desde vendas e
administração até diplomacia.
Que o brilho social de Judy tenha sido identificado, ainda tão cedo, deveu-se ao
fato de ela ser aluna da Pré-Escola Eliot-Pearson, no campus da Universidade
Tufts, onde o Projeto Spectrum, um currículo que intencionalmente cultiva vá
rios tipos de inteligência, era então desenvolvido. O Projeto Spectrum reconhece
ce o repertório humano de aptidões vai muito além da estreita faixa de aptidões
com palavras e números em que se concentram as escolas tradicionais. Reconhece
que aptidões como a percepção social de Judy são talentos que uma educação deve
mais alimentar que ignorar ou mesmo frustrar. Encorajando as crianças a
desenvolverem uma completa gama das aptidões a que na verdade recorrerão para o
sucesso, ou usarão apenas para se realizar no que fazem, a escola se torna uma
educação em aptidões para a vida.
O orientador visionário por trás do Projeto Spectrum é Howard Gardner, psicólogo
da Escola de Educação de Harvard.
Chegou a hora ele me disse de ampliar nossa idéia do espectro de talentos. A
maior contribuição isolada que a educação pode dar ao desenvolvimento de uma
criança é ajudá-la a encaminhar-se para um campo onde seus talentos se adaptem
melhor, onde ela será feliz e competente. Perdemos isso inteiramente de vista.
Em vez disso, sujeitamos todos a uma educação em que, se você for bem-sucedido,
estará mais bem capacitado para ser professor universitário. E avaliamos todos,
ao longo do percurso, segundo satisfazem ou não esse estreito padrão de sucesso.
Devíamos gastar menos tempo classificando crianças e mais tempo ajudando-as a
identificar suas aptidões e dons naturais e a cultivá-los. Há centenas e
centenas de maneiras de ser bem-sucedido, e muitas, muitas aptidões diferentes
que as ajudarão a chegar lá.
Se alguém vê as limitações das velhas formas de pensar sobre a inteligência, é
Gardner. Ele observa que os dias de glória dos testes de Ql começaram durante a
Primeira Guerra Mundial, quando dois milhões de americanos foram classificados
por meio do primeiro formulário em massa do teste de QI, recém-criado por Lewis
Terman, um psicólogo de Stanford. Isso levou a décadas do que Gardner chama de
"modo de pensar do QI":
Pensar que as pessoas são inteligentes ou não, que nasceram assim, que não se
pode fazer muita coisa a respeito e que os testes podem dizer se a gente é um
dos inteligentes ou não. O teste SAT para admissão em universidades baseia-se na
mesma idéia de uma única aptidão que determina nosso futuro.
Esse modo de pensar impregna a sociedade.
O influente livro de Gardner, Frames of Mind [Estados de Espírito], de 1983, foi
um manifesto contestando a visão do QI; propunha que não havia um tipo único,
monolítico, de inteligência decisiva para o sucesso na vida, mas antes um amplo
espectro de inteligências, com sete variedades-chave. Em sua lista entram os
dois tipos de inteligências acadêmicas padrão, a vivacidade verbal e a a
matemático-lógica, mas ele vai adiante e inclui a aptidão espacial que se vê,
digamos, num destacado pintor ou arquiteto; o gênio sinestésico exibido na
fluidez e graça físicas de uma Martha Graham ou Magic Johnson; e os dons
musicais de um Mozart ou YoYo Ma. Arrematando a lista, há duas faces do que
Gardner chama de "inteligências pessoais": aptidões interpessoais, como as de um
grande terapeuta como Carl Rogers ou um líder de nível mundial como Martin
Luther King, Jr., e a aptidão "intrapsíquica", que pode surgir, de um lado, nas
brilhantes intuições de Sigmund Freud, ou, com menos barulho, na satisfação
interior que vem da sintonização de nossa vida com nossos verdadeiros
sentimentos.
A palavra operacional nessa visão de inteligências é múltiplo: o modelo de
Gardner vai muito além do conceito padrão de QI como um fator único e imutável.
Reconhece que os testes que nos tiranizaram quando passamos pela escola desde a
realização das provas de rendimento que nos classificavam entre os que seriam
desviados para as escolas técnicas e os destinados à universidade, aos SATs, que
determinavam qual faculdade, se fosse o caso, poderíamos freqüentar se baseiam
numa noção limitada de inteligência, uma noção sem ligação com a verdadeira gama
de talentos e aptidões que contam para a vida, acima e além do QI.
Gardner reconhece que sete é um número arbitrário para a variedade de
inteligências; não há nenhum número mágico para a multiplicidade de talentos
humanos A determinada altura, ele e seus colegas haviam esticado essas sete para
uma lista de vinte aptidões diferentes. A Inteligência interpessoal, por
exemplo, desdobrou-se em quatro aptidões distintas: liderança, a aptidão de
manter relações e conservar amigos, a de resolver conflitos e a do tipo de
análise social em que Judy, de quatro anos, era excelente.
Essa visão multifacetada da inteligência oferece um quadro mais rico da
capacidade e do potencial de uma criança para o sucesso que o QI padrão.
Quando os alunos da Spectrum foram avaliados pela Escala de Inteligência
Stanford-Binet outrora o padrão ouro dos testes de QI - e mais uma vez por uma
bateria destinada a medir o espectro de inteligências de Gardner, não houve
nenhuma relação significativa entre as contagens obtidas nos dois testes. As
cinco com QI's mais altos (de 125 a 133) mostraram uma variedade de perfis nas
dez forças medidas pelo teste Spectrum. Por exemplo, das cinco crianças "mais
inteligentes" segundo os testes de QI, uma era forte em três áreas, três tinham
forças em duas áreas, e uma criança "inteligente" tinha apenas uma força
Spectrum. Essas forças eram espalhadas: quatro das forças dessas crianças eram
em música, duas em artes visuais, uma em compreensão social, uma em lógica, duas
em linguagem. Nenhuma das cinco crianças de alto QI era forte em movimento,
números ou mecânica: movimento e números foram na verdade pontos fracos para
duas das cinco.
A conclusão de Gardner foi que "a Escala de Inteligência Stanford-Binet não
previu desempenho bem-sucedido de ponta a ponta ou num subconjunto consistente
de atividades Spectrum". Por outro lado, as contagens Spectrum dão aos pais uma
dará orientação sobre os campos nos quais essas crianças terão um interesse
espontâneo e onde se sairão bem o bastante para desenvolver paixões que poderão
um dia conduzi-las além da eficiência, até a maestria.
O pensamento de Gardner sobre a multiplicidade da inteligência continua a
evoluir. Uns dez anos após ter publicado sua teoria pela primeira vez, ele fez
os seguintes sumários das inteligências pessoais:
Inteligência impessoal é a capacidade de compreender outras pessoas: o que as
motiva, como trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. Pessoal de
vendas, políticos, professores, clínicos e líderes religiosos bem-sucedidos
provavelmente são todos indivíduos com altos graus de inteligência interpessoal.
A inteligência intrapessoal... é uma aptidão correlata, voltada para dentro. É
uma capacidade de formar um modelo preciso, verídico, de si mesmo, e poder
usá-lo para agir eficazmente na vida.
Em outra versão, Gardner observou que o âmago da inteligência interpessoal
inclui "a capacidade de discernir e responder adequadamente aos estados de
espírito, temperamentos, motivações e desejos de outras pessoas". Na
inteligência cia intrapessoal, chave do autoconhecimento, ele incluiu "acesso a
nossos pró prios sentimentos e a capacidade de discriminá-los e usá-los para
orientar o comportamento.
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Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman
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