Podem as Emoções ser Inteligentes
Para se ter uma compreensão
mais plena de exatamente como poderia ser esse exercício, temos de nos voltar
para outros teóricos que seguem o caminho intelectual de Gardner - mais
notadamente um psicólogo de Yale, Peter Salovey, que estabeleceu com bastantes
detalhes os modos como podemos transmitir inteligência às nossas emoções. Esse
esforço não é novo; com os anos, mesmo os mais ardentes teóricos do QI tentaram
às vezes introduzir as emoções no domínio da inteligência, em vez de ver
"emoção" e "inteligência" como uma inerente contradição em termos. Assim, E.L.
Thorndike, um destacado psicólogo que também foi influente na popularização da
idéia do QI nas décadas de 20 e 30, sugeriu em artigo na Harper's Magazine que
um dos aspectos da inteligência emocional, a inteligência "social" a própria
capacidade de entender os outros e "agir com sabedoria nas relações humanas" era
em si um aspecto do QI de uma pessoa. Outros psicólogos da época adotaram uma
visão mais cínica da inteligência social, encarando-a em termos de capacidade de
manipular outras pessoas levá-las a fazer a nossa vontade, querendo ou não. Mas
nenhuma dessas formulações de inteligência social exerceu muita influência entre
os teóricos do QI, e em 1960 um influente livro didático sobre testes de
inteligência cia considerou a inteligência social um conceito "inútil".
Quando Ser sperto é ser Burro
Mas a inteligência pessoal não seria ignorada, sobretudo porque faz ao mesmo
tempo sentido intuitivo e comum. Por exemplo, quando Robert Stemberg, outro
psicólogo de Yale, pediu a pessoas que descrevessem uma "pessoa inteligente, as
aptidões práticas estavam entre os principais aspectos relacionados. Pesqui sas
mais sistemáticas de Stemberg o reconduziram de volta à conclusão de Thomdike:
de que a inteligência social é ao mesmo tempo diferente das aptidões acadêmicas
e parte chave do que faz as pessoas se saírem bem nos aspectos práticos da vida.
Entre as inteligências práticas tão altamente valorizadas, por exemplo, no
espaço profissional, está aquela sensibilidade que permite aos administradores
eficientes captarem mensagens tácitas.
Em anos recentes, um grupo cada vez maior de psicólogos chegou a conclusões
semelhantes, concordando com Gardner em que os antigos conceitos de QI giram em
tomo de uma estreita faixa de aptidões lingüísticas e matemáticas, e que um bom
desempenho em testes de QI é um fator de previsão mais direta de sucesso em sala
de aula ou como professor, mas cada vez menos quando os caminhos da vida se
desviam da academia. Esses psicólogos - entre eles Sternberg e Salovey -
adotaram uma visão mais ampla de inteligência, tentando reinventá-la em termos
do que é preciso para viver a vida de um modo bem-sucedido. E essa linha de
investigação retoma ao reconhecimento de como, exatamente, é crucial a
inteligência "pessoal" ou emocional.
Salovey inclui as inteligências pessoais de Gardner em sua definição básica de
inteligência emocional, expandindo essas aptidões em cinco domínios principais:
1. Conhecer as próprias emoçoes. Autoconsciência - reconhecer Um senti mento
quando ele ocorre é a pedra fundamental da inteligência emocional.
Como veremos no Capítulo 4, a capacidade de controlar sentimentos a cada momento
é crucial para o discernimento emocional e a autocompreensão. A incapacidade de
observar nossos verdadeiros sentimentos nos deixa à mercê deles As pessoas de
maior certeza sobre os próprios sentimentos são melhores pilotos de suas vidas,
tendo um sentido mais preciso de como se sentem em relação a decisões pessoais,
desde com quem se casar a que emprego aceitar.
2. Lidar com emoções. Lidar com os sentimentos para que sejam apropriados é uma
aptidão que se desenvolve na autoconsciência. O Capítulo 5 vai examinar a
capacidade de confortar-se, livrar-se da ansiedade, tristeza ou irritabili dade
incapacitantes e as conseqüências do fracasso nessa aptidão emocional básica.
ca.As pessoas fracas nessa aptidão vivem constantemente combatendo sentimentos
de desespero, enquanto as boas nisso se recuperam com muito mais rapidez dos
reveses e perturbações da vida.
3. Motivar-se. Como mostrará o Capítulo 6, pôr as emoções a serviço de uma meta
é essencial para prestar atenção, para a automotivação e a maestria, e para a
criatividade. O autocontrole emocional adiar a satisfação e reprimir a
impulsividade está por trás de todo tipo de realização. E a capacidade de entrar
em estado de "fluxo" possibilita excepcionais desempenhos. AS pessoas que têm
essa capacidade tendem a ter mais alta produtividade e eficácia em qualquer
atividade que empreendam.
4. Reconhecer emoções nos outros. A empatia, outra capacidade que se desenvolve
na autoconsciência emocional, é a "aptidão pessoal" fundamental. O Capítulo 7
investigará as raízes da empatia, o preço social da ausência de ouvido do
emocional, e os motivos pelos quais a empatia gera altruísmo. As pessoas
empáticas estão mais sintonizadas com os sutis sinais sociais que indicam de que
os outros precisam ou o que querem. Isso as torna melhores em vocações como as
profissões assistenciais, ensino, vendas e administração.
5. Lidar com relacionamentos. A arte dos relacionamentos é, em grande parte, a
aptidão de lidar com as emoções dos outros. O Capítulo 8 examina a competência e
incompetência, e as aptidões específicas envolvidas. São as aptidões que
reforçam a popularidade, a liderança e a eficiência interpessoal. As pessoas
excelentes nessas aptidões se dão bem em qualquer coisa que dependa de interair
tranqüilamente com os outros; são estrelas sociais.
Claro, as pessoas diferem em suas aptidões em cada um desses campos; alguns de
nós podemos ser bastante hábeis no lidar, digamos, com nossa ansiedade, mas
relativamente ineptos no confortar os aborrecimentos de outra pessoa. A base por
baixo de nosso nível de aptidão é sem dúvida neural, mas, como veremos, o
cérebro é admiravelmente flexível, em constante aprendizado. Os lapsos nas
aptidões emocionais podem ser remediados: em grande parte, cada um desses campos
representa um corpo de hábitos e respostas que, com o esforço certo, se pode
melhorar.
Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman
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