Quando estive na índia, em 1971, conheci muitos iogues hindus, lamas tibetanos e monges budistas. Fiquei espantado com a cordialidade descontraída, o desapego e a vivacidade desses homens e mulheres nas mais diferentes situações. Eu gostava especialmente de estar com cada um deles e me sentia reabastecido quando os deixava.
Havia grandes diferenças entre as crenças e as formações deles. A única coisa que tinham em comum era a meditação. Depois, conheci S. N. Goenka, um professor que não era monge, mas um industrial que havia sido um dos homens mais ricos de Burma. Embora fosse um homem bem-sucedido, Goenka descobriu que o seu ritmo agitado pagava um preço alto sob a forma de uma enxaqueca diária. Tratamentos em clínicas européias e americanas não tiveram nenhum efeito em suas dores de cabeça, e ele se dedicou à meditação como um último recurso. Três dias depois de sua primeira sessão, a enxaqueca desapareceu.
Nos anos 60 houve um golpe militar em Burma e o novo governo socialista confiscou todas as posses de Goenka, deixando-o praticamente sem nada. Ele emigrou para a índia, onde lançou mão de suas antigas ligações comerciais e familiares para iniciar um novo negócio. Enquanto a sua nova empresa se firmava, ele viajava por toda a índia dando cursos de meditação com duração de dez dias. Alguma reserva de energia permitia que ele fosse, ao mesmo tempo, um professor de meditação e um competente homem de negócios. O seu exemplo me ajudou a perceber que não é preciso ser um monge para meditar. E possível separar os efeitos físicos da meditação de seu contexto monástico.
Ao retornar a Harvard, vindo da índia, descobri que o psicólogo Gary Schwartz havia começado a pesquisar a meditação. Ele percebera que aqueles que meditavam regularmente apresentavam um nível diário de ansiedade muito menor do que os que não meditavam. Tinham muito menos problemas psicológicos ou psicossomáticos, como resfriados, dores de cabeça e insônia.
A minha experiência pessoal e essas descobertas científicas sugeriam que as pessoas que meditam eram capazes de resistir aos golpes da vida e lidar muito bem com o estresse diário, sofrendo menores conseqüências diante deles. Com Schwartz como orientador da minha tese, planejei um estudo para descobrir de que modo a prática da meditação ajuda uma pessoa a enfrentar o estresse.
Eu tinha dois grupos de voluntários trabalhando comigo no laboratório de psicologia. Um grupo era formado por professores de meditação, todos eles meditando há pelo menos dois anos. O outro grupo era de pessoas interessadas em meditação, mas que ainda não tinham começado a meditar. Uma vez no laboratório, pedia-se que cada voluntário ficasse sentado em silêncio e relaxasse ou meditasse. Eu ensinava aos que não meditavam como fazê-lo. Após 20 minutos de relaxamento ou meditação, os voluntários assistiam a um curto filme mostrando uma série de acidentes sangrentos acontecidos com operários de uma carpintaria. O filme é usado como método-padrão de indução ao estresse durante estudos de laboratório, pois todos que o assistem ficam perturbados com os acidentes nele registrados.
Os que meditavam regularmente tinham o mesmo padrão de reação ao filme. Quando o acidente estava prestes a acontecer, seu ritmo cardíaco aumentava e eles passavam a suar mais do que os que não meditavam. A fim de se prepararem para enfrentar a cena angustiante, os batimentos cardíacos aumentavam e os seus corpos se mobilizavam para o que os psicólogos chamam de reação de enfrenta-mento ou fuga. Mas, assim que o acidente acabava, os que meditavam regularmente se recuperavam e os sinais de estímulo corporal diminuíam muito mais rapidamente do que nos que não meditavam. Após o filme, os primeiros ficavam mais relaxados do que os segundos, que ainda mostravam sinais de tensão.
Esse padrão de um maior estímulo inicial e de uma recuperação mais rápida manifestou-se nos que tinham experiência em meditar, mesmo que não tivessem meditado antes de o filme começar. Aliás, eles se sentiam mais relaxados durante todo o tempo que passavam no laboratório. Uma rápida recuperação do estresse é uma característica típica dos que costumam meditar. Mesmo os principiantes, que meditaram pela primeira vez naquele dia, ficaram menos aflitos após o filme e se recuperaram mais rapidamente do que os que não meditavam.
A meditação parece ser a causa mais provável da rápida recuperação de um estresse. Se a recuperação rápida entre os que meditavam regularmente tivesse sido o resultado de alguma característica pessoal comum ao tipo de pessoa que faz meditação, os iniciantes teriam experimentado uma recuperação tão lenta quanto a das pessoas que relaxaram. O meu estudo talvez explique a menor incidência de ansiedade e distúrbios psicossomáticos entre aqueles que meditam. Pessoas cronicamente ansiosas ou com problemas psicossomáticos possuem um padrão específico de reação ao estresse: o corpo se mobiliza para enfrentar o desafio e não consegue parar quando cessa o problema. A tensão inicial é necessária, pois permite que a pessoa concentre sua energia e percepção para lidar com uma ameaça em potencial. Mas, passado o perigo, o corpo deveria relaxar, recuperando as energias gastas e reunindo forças para enfrentar o próximo estresse.
Uma pessoa ansiosa enfrenta os acontecimentos normais da vida como se eles fossem crises. Cada pequeno acontecimento aumenta a sua tensão, e essa tensão, por sua vez, transforma o acontecimento normal seguinte - um prazo, uma entrevista, uma consulta médica — em uma ameaça. Porque, como o corpo de uma pessoa ansiosa permanece mobilizado após ter transcorrido um acontecimento mobilizante, ela fica com menos defesa contra a ameaça do seguinte. Se voltasse ao estado de relaxamento, essa pessoa transporia mais facilmente o segundo acontecimento.
A pessoa que medita regularmente lida com o estresse de modo a romper a espiral da reação de enfrentamento ou fuga. Ela relaxa com muito mais freqüência do que a que não medita, após um desafio ter sido superado. Isso faz com que seja improvável que ela encare como nocivas ocorrências inocentes. Ela percebe a ameaça com mais exatidão e reage com a mobilização somente quando necessário. Após a mobilização, a recuperação rápida a torna menos predisposta a encarar o próximo compromisso como uma ameaça, como acontece com uma pessoa ansiosa.
Do livro: A Arte da Meditação, de Daniel Goleman
|
Conheça melhor este livro, clique na capa ao lado A arte da meditação é o método mais antigo para tranqüilizar a mente e relaxar o corpo. A meditação é, em essência, o treinamento sistemático da atenção. Ela tem como objetivo desenvolver a capacidade de concentração e enriquecer nossa percepção. Há vários tipos de meditação e você vai aprender quatro deles no CD que acompanha este livro. Experimente cada um durante algumas semanas até descobrir qual prefere. Escolha aquele ou aqueles com que você se sentir melhor e use-os cada vez que meditar. |
Nosso Site: