Vendo o que Você Acredita

As crenças da pessoa que medita determinam de que modo ela interpreta e rotula as suas experiências de meditação. Quando um sufi entra no estado em que não está mais consciente dos seus sentidos e o seu único pensamento se encontra em Alá, sabe que isso é fana. Quando um iogue não mais está consciente de seus sentidos e sua mente se concentra apenas em sua divindade, diz-se que entrou em samadhi. Muitos nomes diferentes são usados para descrever a mesma e única experiência: jhana, samyana ou samadhi, fana, Daat, turiya, grande fixação e percepção transcendental. Todos parecem se referir a um estado único com características idênticas. Esses vários termos para um único estado são usados, respectivamente, pelo budismo theravadano, raja ioga, sufismo, cabala, ioga kundalini, zen e meditação transcendental.

A história da religião é abundante em exemplos de experiências transcendentais interpretadas de acordo com características de tempo, lugar e crença. O santo hindu Ramana Maharshi via os seus próprios estados transcendentais de acordo com a filosofia Advait. Ele presumiu que, durante a grande experiência na estrada de Damasco, Saulo de Tarso - o apóstolo Paulo -, quando voltou à percepção normal, interpretou o que havia acontecido de acordo com Cristo e com o cristianismo, pois, na época, estava preocupado com eles. O grupo de referência de uma pessoa lhe dá uma interpretação de suas realidades internas.

A interação entre as crenças dos que meditam, seu estado interno e sua autodefinição torna-se clara por um exemplo recente tirado da ioga kundalini. Nessa tradição, o guru é essencial para ajudar a pessoa que medita a alcançar os estados pretendidos depois da meditação e para interpretar e confirmar o significado dessas experiências.

Swami Rudrananda, um professor de ioga kundalini, descreve o incidente que precedeu a sua ascendência ao nível de swami. Enquanto meditava, o seu mestre o tocou no ombro e, nesse momento:

"Eu senti imediatamente dentro de mim um surto de grande força espiritual que me arremessou contra as paredes de pedra e fez com que um grande choque elétrico enviasse um espasmo de contorções pelo meu corpo. Movimentos semelhantes aos de um epilético dominaram o meu corpo durante cerca de uma hora. Muitas visões estranhas surgiram e senti se abrirem dentro de mim coisas que nunca tinham sido abertas antes."

Rudrananda admitiu essa experiência como a confirmação do merecimento de seu título de swami, uma condição superior. Apesar de um conjunto de crenças sobre estados alterados em meditação poder representar uma segurança, a pessoa que medita não precisa conhecer previamente esses estados para experimentá-los. Em sua autobiografia, por exemplo, Swami Muktananda conta como o seu guru lhe designou uma prática de meditação e, além de simples instruções, não lhe deu nenhuma indicação do que deveria esperar. Quando, posteriormente, Muktananda entrava em estados extraordinários, fazia isso naturalmente. Somente depois de passar por esses estados é que teve, por acaso, acesso a livros que lhe deram uma estrutura interpretativa para entender o que tinha acontecido. Da mesma maneira, Satprem, o biógrafo de Sri Aurobindo, descreve   os   estados   incomuns   experimentados   por Aurobindo no decorrer do seu desenvolvimento espiritual, mas observa:

"Sri Aurobindo foi o primeiro a ficar desconcertado com as suas próprias experiências e levou algum tempo para entender exatamente o que tinha acontecido. Temos descrito a experiência como se os estágios tivessem sido encadeados cuidadosamente, cada qual com o seu rótulo explanatório, mas as explicações vieram muito depois; naquele momento, ele não tinha pontos de referência como guia."

 Do livro: A Arte da Meditação, de Daniel Goleman

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A arte da meditação é o método mais antigo para tranqüilizar a mente e relaxar o corpo. A meditação é, em essência, o treinamento sistemático da atenção. Ela tem como objetivo desenvolver a capacidade de concentração e enriquecer nossa percepção. Há vários tipos de meditação e você vai aprender quatro deles no CD que acompanha este livro. Experimente cada um durante algumas semanas até descobrir qual prefere. Escolha aquele ou aqueles com que você se sentir melhor e use-os cada vez que meditar.

 

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