Expressividade e Contato Social
 

"Era no início da Guerra do Vietnã, e um pelotão americano estava escondido nuns campos de plantação de arroz, no calor de um tiroteio com os vietcongues.
De repente uma fila de seis monges começou a passar por uma das trilhas que separavam um campo de outro. Perfeitamente calmos e equilibrados, dirigiam-se para a linha de fogo.
- Não olharam nem para um lado nem para outro. Passaram direto - lembra David Busch, um dos soldados americanos. - Foi realmente estranho, porque ninguém atirou neles. E depois que passaram pela trilha, de repente todo o calor tinha me abandonado. Simplesmente achei que não queria continuar fazendo aquilo, pelo menos naquele dia. Deve ter acontecido o mesmo com todo mundo, porque todo mundo desistiu. Deixamos de combater.
O poder da tranqüila e corajosa calma dos monges para pacificar soldados no calor de um combate ilustra um princípio básico de vida social: as emoções são contagiosas. Claro, essa história assinala um extremo. A maior parte do contágio emocional é muito mais sutil, parte de um tácito intercambio que ocorre em todo encontro. Transmitimos e captamos modos uns dos outros no que equivale uma economia subterrânea da psique, em que alguns encontros são tóxicos alguns revigorantes. Esse intercambio emocional se dá tipicamente num nível sutil, quase imperceptível; a maneira como um vendedor nos diz obrigado pode fazer-nos sentir ignorados, ressentidos, ou ser de fato um agradecimento e apreciação.
Enviamos sinais emocionais em todo encontro, e esses sinais afetam aqueles com quem estamos. Quanto mais hábeis somos socialmente, melhor controlamos os sinais que enviamos; a reserva da sociedade bem-educada é, afinal, apenas um meio de assegurar que nenhum vazamento emocional perturbador vai prejudicar o encontro (uma regra social que, quando levada para o domínio dos relacionamentos íntimos, é sufocante). Inteligência emocional inclui o controle desse intercâmbio; "popular" e "encantador" são termos que empregamos para pessoas com as quais gostamos de estar porque a habilidade social delas nos faz sentir bem. As pessoas capazes de ajudar outras a aliviar seus sentimentos possuem um bem social especialmente valorizado; são as almas para as quais se voltam as outras quando nas maiores necessidades emocionais. Todos somos parte dos recursos dos outros para mudança emocional, para o melhor ou para o pior.
Pensem na notável demonstração de sutileza com que as emoções passam de uma pessoa para outra. Numa experiência simples, dois voluntários preencheram um formulário sobre seus estados de espírito no momento, depois simplesmente ficaram sentados um diante do outro, calados, enquanto esperavam que a realizadora da experiência voltasse à sala. Dois minutos depois, ela voltou e pediu-lhes que tornassem a preencher outro formulário igual. As duplas eram deliberadamente compostas de um altamente expressivo de emoção e outro impassível. Invariavelmente, o estado de espírito do mais expressivo havia passado para o mais passivo.
Como se dá essa mágica transmissão? A resposta mais provável é que inconscientemente imitamos as emoções que vemos exibidas por outra pessoa, através de uma mímica motora inconsciente de sua expressão facial, gestos, tom de voz e outros marcadores não-verbais de emoção. Através dessa imitação, as pessoas recriam em si o estado de espírito de outra - uma versão discreta do método de Stanislavsky, no qual os atores lembram estes, movimentos e outras expressões de uma emoção que sentiram intensamente no passado, para evocar mais uma vez esses sentimentos
A imitação dia a dia de sentimentos é em geral bastante sutil. Ulf Dimberg, pesquisador sueco da Universidade de Uppsala, constatou que quando as pessoas vêem um rosto sorridente ou irado, os seus próprios mostram sinais desse mesmo estado de espírito por ligeiras mudanças nos músculos faciais. As mudanças são evidentes por meio de sensores eletrônicos, mas não, tipicamente, visíveis a olho nu.
Quando duas pessoas interagem, a direção da transferência de estado de espírito é da mais vigorosa na expressão de sentimentos para a mais passiva.
Mas algumas pessoas são particularmente susceptíveis ao contágio emocional; sua sensibilidade inata torna seu sistema nervoso autônomo (um marcador de atividade emocional) mais facilmente disparável. Essa desvantagem parece torná-las mais impressionáveis; comerciais sentimentais provocam-lhes lágrimas, enquanto um rápido papo com alguém eufórico as anima (também pode torná-las mais empáticas, já que são mais prontamente movidas pelos sentimentos dos outros).
John Cacioppo, o psicofisiologista social da Universidade do Estado de Ohio que estudou esse sutil intercâmbio emocional, observa:
- Só ver alguém manifestar uma emoção já evoca esse estado de espírito, quer percebamos que estamos imitando a expressão facial ou não. Isso nos acontece o tempo todo; há uma dança, uma sincronia, uma transmissão de emoções. Essa sincronia de estados de espírito determina se sentimos que uma interação foi boa ou não.
O grau de relação emocional que as pessoas sentem num encontro reflete-se na maneira como seus movimentos físicos são organizados enquanto elas conversam um indício de fechamento tipicamente inconsciente. Uma pessoa balança a cabeça em concordância quando a outra afirma uma coisa, ou as duas se mexem em suas cadeiras no mesmo instante, ou uma se curva para a frente e a outra para trás. A orquestração pode ser tão sutil quanto duas pessoas balançando-se em poltronas giratórias no mesmo ritmo. Como descobriu Daniel Stern observando a sincronia entre mães e bebês sintonizados, a mesma reciprocidade liga os movimentos de pessoas que sentem relação emocional.
Essa sincronia parece facilitar o envio e recepção de estados de espírito, mesmo negativos. Por exemplo, num estudo de sincronia física, mulheres deprimidas foram a um laboratório com seus namorados e discutiram um problema no relacionamento deles. Quanto maior a sincronia entre os casais no nível não-verbal, pior os namorados das deprimidas se sentiram depois da discussão - haviam contraído o estado de espírito negativo das namoradas. Em suma, quer as pessoas se sintam alegres ou deprimidas, quanto mais fisicamente sintonizados seus encontros, mais semelhantes se tornarão seus estados de espírito.
A sincronia entre professores e alunos indica quanta relação eles sentem;
estudos em salas de aula mostram que quanto mais estreita a coordenação de movimentos entre professor e aluno, mais eles se sentem amigos, satisfeitos, entusiasmados, interessados e abertos na interação Em geral, um alto nível de sincronia numa interação quer dizer que as pessoas envolvidas gostam umas das outras Frank Bernieri, o psicólogo da Universidade do Estado de Oregon que fez esses estudos, me disse:
- O constrangimento ou descontração que sentimos com alguém está num nível físico. Precisamos de uma cronologia compatível, coordenar nossos movimentos, sentirmo-nos à vontade. A sincronia reflete a profundidade do engajamento entre os parceiros; se estamos altamente engajados, nossos estados de espírito começam a entrelaçar-se, positiva ou negativamente.
Em suma, a coordenação de estados de espírito é a essência da relação, a versão adulta da sintonia que a mãe tem com seu bebê. Cacioppo sugere que uma determinante de eficiência interpessoal é a habilidade com que as pessoas conduzem essa sincronia emocional. Se são hábeis em sintonizar-se com os estados de espírito das pessoas, ou podem facilmente pôr outras pessoas sob o controle dos seus, suas interações se darão com mais macieza no nível emocional.
A marca de um líder ou artista poderoso é poder emocionar uma platéia de milhares desse modo. Pelo mesmo motivo, Cacioppo indica que as pessoas fracas no enviar e receber emoções tendem a ter problemas em seus relacionamentos, já que muitas vezes os outros se sentem pouco à vontade com elas, mesmo não podendo explicar por que isso se dá.
Dar o tom emocional de uma interação é, num certo sentido, um sinal de dominação, num nível profundo e íntimo: significa dirigir o estado emocional da outra pessoa. Esse poder de determinar emoção é semelhante ao que se chama em biologia de Zeitgeber (literalmente "agarrador do tempo"), um processo (como o ciclo dia-noite ou as fases mensais da lua) que acarreta ritmos biológicos.
Para um casal dançando, a música é um Zeitgeber físico. Quando se trata de encontros pessoais, a pessoa que tem a expressividade mais vigorosa - ou mais poder é tipicamente aquela cujas emoções arrastam a outra. Os parceiros dominantes falam mais, enquanto o passivo olha mais o rosto do outro - uma preparação para a transmissão de afeto. Pelo mesmo motivo, a energia de um bom orador um político ou evangelista, digamos se esforça para arrastar as emoções da platéia. É isso que queremos dizer com Ele os tinha na palma da mão". O arrasto emocional é o coração da influência.
 

Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman

 

Conheça os excelentes livros de Daniel Goleman

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