A Força de uma Experiência
São José do Rio Pardo, 1950. Os ruídos de marretas e bigornas pareciam uma
encantada melodia passeando pela intimidade dos meus ouvidos. Eu, um garoto
magro, franzino e inibido, espreitava, admirado, a intensa movimentação de
cavalos puro-sangue e ferraduras incandescentes que saíam da forja.
Toda a minha atenção estava voltada para um rapaz muito forte que,
girando no ar com extrema facilidade uma marreta de 10 quilos, deixava à flor da
pele negra, reluzente de suor, uma exuberante musculatura.
Isso me fascinava. Poderia eu também conseguir tantos músculos? Seria
possível eu também ficar forte? Já tinha estado ali à espreita muitas tardes e
sabia que estaria em muitas outras.
Precisava munir-me de coragem para abordar o rapaz. No momento, só o que
queria era realizar o sonho de modificar meu corpo com o auxílio dessa
fascinante figura, cujo nome era Pedro Pexexa, um ferreiro de profissão e líder
de um grupo de pescadores nessa distante São José da década de 1950.
Apesar de magro e fraco, eu pressentia que se o Pedro me ajudasse, eu
conseguiria me transformar completamente. Tive uma educação muito rígida, como
era próprio da época, e isso dificultava aproximar-me de uma pessoa estranha,
principalmente por ela representar, para mim, uma épica figura. Muito magro e
fraco, eu era também muito acanhado.
Mas sentia algo dentro de mim. Uma intuição que falava alto. Era capaz de
acreditar na possibilidade de fazer alguma coisa concreta e passava horas
imaginando se essa aproximação ainda demoraria a acontecer.
O que não podia imaginar era que o contato com essa pessoa tão especial
mudaria toda a minha vida.
São José foi onde o engenheiro Euclides da Cunha escreveu
Os sertões
enquanto construía a ponte de aço sobre o rio Pardo em 1901. Todos os anos, de 9
a 15 de agosto, festejava-se o aniversário do grande escritor, reunindo pessoas
de todo o Brasil, em vários tipos de competição que incluíam uma concorrida
maratona intelectual. Era a famosa Semana Euclidiana.
Pedro Nogueira, Pexexa, era uma pessoa que fascinava a gente da cidade
por sua bravura ao enfrentar desafios, sempre com feitos admiráveis. Era
destaque de força e habilidade na Semana Euclidiana, principalmente em luta
livre e boxe. Havia por isso a curiosidade de outros atletas, experientes
nadadores da capital, no sentido de desafiá-Io em provas no rio Pardo. Pedro
prevenia para o perigo do rio. Dizia que era completamente diferente de tudo o
que eles conheciam, mas eles insistiam em nadar em suas águas bravias. Era um
rio perigoso, não era uma piscina, e sempre causava vítimas de afogamento -
mesmo que fossem campeões de natação. Aquilo tudo era muito triste, mas, por
mais que a turma do Pedro falasse, de nada adiantava.
Vinha o Corpo de Bombeiros de São Paulo com equipamentos de mergulho, em
vão: era sempre o Pedro que, sem nenhum equipamento, conseguia encontrar e
resgatar as vítimas nas profundas águas do Pardo. Dessa maneira, ele era
admirado por todos na cidade pela bravura e destemor. Enfrentava também com
muita coragem a escola noturna para resgatar, já em idade avançada, os estudos
aos quais, como arrimo de família, não pudera se dedicar em idade adequada.
Ele era o líder de um grupo de pescadores que se reunia na ilha São
Pedro, nas cercanias da cidade, onde havia uma ponte pênsil feita de tábuas de
madeira afastadas umas das outras, deixando ver o temível rio que se move logo
embaixo. Anos depois eu passaria veloz por debaixo dessa ponte, provocando uma
reação admirável em minha alma devido às abruptas corredeiras - a mesma ponte
que, no início, eu só conseguia atravessar devagarinho, segurando com força nos
seus cabos de aço laterais, cheio de medo e insegurança.
Pedro era bem mais velho que eu e tinha uma experiência de vida
admirável. O que ele dizia fazia muito sentido para mim pois eram coisas que eu
tinha visto em livros e de que os professores da escola não falavam. Em contato
tão intenso com a natureza do rio, na presença solene das matas, fui
desenvolvendo um outro lado que a convivência com os colegas de escola e da
sociedade rio-pardense não me apresentara.
Um novo mundo que conheci com Pedro modificaria por completo toda a minha
vida, fazendo-me ver as coisas de forma natural, gostosa e muito intensa, que,
certamente, sem esse encontro, eu não conheceria. Tinha agora outra turma de
influência, bem diferente da constituída pelas pessoas que se reuniam no clube
rio-pardense. Descobri um lado inóspito da vida com uma sabedoria que
impregnaria todo o meu ser - pendi mais para esse lado.
A natureza me fascinava. Pedro me ensinou a nadar, a varejar, que é ficar
em pé em cima de uma canoa manobrando uma vara de bambu que empurra e estabelece
a direção. A ponta da vara finca nas pedras do fundo das corredeiras. Era uma
manobra difícil que requeria coordenação motora e muita força nos braços e
abdome. Ele me ensinou a saltar de galho em galho nas altas árvores, o que
exigia intenso trabalho de antebraços. Mas o mais admirável de tudo eram suas
colocações sobre a vida, depois de nossas lutas greco-romanas travadas no centro
da ilha.
Sentados em folhas secas sob árvores imensas que encobriam totalmente o
céu, ele falava dos clássicos da Grécia. Gostava especialmente do
Banquete, de
Platão, com sua filosofia que sabia de cor e que me embevecia.
Percebi que meus estudos acadêmicos nada tinham a ver com o que realmente
importava e que os professores cobravam muito sobre assuntos pouco ou nada
ligados com a vida. O ensino tradicional aborrecia-me, afastei-me dele; com isso
aborreci minha mãe, que lutava para me dar um diploma - seu sonho e sua imensa
preocupação.
Foi uma fase difícil para ela, por eu me aventurar em lugar tão perigoso
e começar a me desinteressar pelos estudos regulares. Mas isso faria toda a
diferença. Ali envolvido com aquele apaixonante rio e recebendo aulas de vida do
Pedro, eu moldava meu caráter e desenvolvia uma personalidade combativa e
destemida. Ele tinha uma visão diferente das coisas que certamente me
diferenciaria no curso da vida. Dizia: "Não se deve lutar com quem não se gosta,
para não se igualar a quem você repudia".
Meu maior desafio naquele rio foi aprender a manejar tão bem o varejão
que era capaz de subir em pé na canoa, com as violentas corredeiras no trecho
sob a ponte pênsil. Varejar entre as pedras traiçoeiras era um desafio que mexia
com algo profundo em minha alma. Se pensasse: "Será que a canoa vai suportar?"
ou "Será que vou embicar e bater nas pedras?", estaria morto. Não podia ter
"será"...
Às vezes, quando chovia muito de madrugada, o dia amanhecia com o rio
caudaloso, "bufando", como diziam os pescadores da região, assustando quem
chegasse perto das margens. Nessas condições eu tinha de fazer como os demais:
vestido só com um calçãozinho, enregelado de frio, atirava-me de cabeça do bico
mais alto da ponte construída por Euclides da Cunha em direção às águas que
formavam bravias correntezas. Era um impacto tão incrivelmente forte que quase
me tirava o fôlego, mas que também fortificava meu espírito.
Essa atitude corajosa e decisiva de enfrentar os mistérios do rio, sem
enxergar direito em que abismo caudaloso me lançava, fazia com que controlasse
minhas emoções e tirasse, sem saber de onde, a necessária coragem que ia
aumentando minha confiança e, acima de tudo, dando têmpera a meu caráter.
Foi quando aprendi com Pexexa minha grande e profunda lição. Ele me
ensinou que coragem só é mesmo coragem quando sentimos um imenso medo. Dizia ele
que, quando nos arremessamos a fazer alguma coisa que em princípio exige
coragem, deve existir junto uma dose de medo, senão a empreitada se revela
irresponsável. Pode-se estar diante de uma loucura, de um desatino ou estupidez.
A coragem é justamente sentir o medo que enrijece a alma e o poder de
enfrentar o desafio serena e positivamente. Dizia ele que o medo faz parte da
história, é necessário para acordar o organismo e fazê-Io reagir com todos os
seus recursos.
Naquela situação ameaçadora, o rio ficava com uma cara tão feia que eu
tinha de solicitar do meu espírito o máximo envolvimento para oferecer ao corpo
a força necessária a dar conta do recado. Percebia que um coquetel de
estimulantes invadia minha corrente sanguínea, permitindo-me reagir com cada
milímetro dos meus músculos e toda a minha astúcia. Podia, dessa maneira, sentir
claramente o valor de uma verdadeira coragem.
Era a emoção me ajudando, me impelindo com tal poder que só assim eu
conseguia a determinação necessária para enfrentar o estupendo desafio.
Tinha de ter a maior concentração. Nada podia estar em desatino em mim.
Nenhum fio de dúvida podia atravessar meu cérebro. Apenas a absoluta certeza de
que venceria. Qualquer vacilação representava risco de vida.
Foram essas oportunidades de desafiar meu espírito, antes acomodado e
inibido, que fizeram com que me soltasse por inteiro e me tornasse dono absoluto
do meu corpo, fixado agora em uma nova verdade, resoluto e decidido.
Essas aventuras do meu espírito integrado em meu corpo moldaram-me o
caráter na rudeza das provas e fixaram de forma indelével minha personalidade. A
necessidade de superação constante dos obstáculos anteriormente intransponíveis
mostrou ao meu espírito suas possibilidades e seu verdadeiro poder.
Isso provocou uma mudança radical em meu comportamento. Com a auto-estima
fortalecida, ganhei nova disposição para haver-me com meus medos e fiquei apto a
enfrentar com coragem tudo o mais que viesse desafiar-me.
Essas colossais peripécias foram vagarosa e decididamente
desenvolvendo em meu interior uma força que jamais antes conceberia que
existisse. Tudo ocorreu gradativamente. Foi uma bola de neve rodando
favoravelmente e fazendo-me dia a dia diferente daquele garoto inseguro e
tímido. Por outro lado, o contato vigoroso com tal grupo de pessoas, simples mas
tão sábias, fazia-me refletir sobre a vida e colocar em xeque a cultura
acadêmica, o que foi de muita valia no meu crescimento pessoal. Abordei um lado
mais natural da filosofia e muito original de ver a vida.
Minha enorme transformação nas barrancas do rio Pardo foi realizando uma
transferência altamente positiva para o ambiente escolar e o núcleo de minhas
atividades sociais. Perceber muito depois que a total modificação de meu corpo
modificaria também toda a minha emoção, todo o meu espírito, ampliando de tal
forma minha concepção de vida que passei a criar dificuldades sérias para os
professores.
Quando uma pessoa resgata no próprio corpo o poder dado por Deus e tirado
pela sociedade, fica espiritualmente forte. E quando alguém fica forte
espiritualmente, não engole mais o autoritarismo arrogante que o cerca. Entrei
em litígio com os professores, discutia com eles - o que, na época, era
absolutamente proibido. Acabava sempre suspenso e, o que era pior, obrigava
minha mãe a ir à diretoria da escola a todo instante, o que me aborrecia demais.
A essa altura, eu era extraordinariamente forte, chegava a levantar um
Fusca com as mãos. Tinha os braços e principalmente os antebraços muito rijos,
resultado das competições que fazíamos e que consistiam em atravessar a ilha de
São Pedro pulando de árvore em árvore sem pisar no chão. Eu sempre chegava entre
os primeiros. Tinha desenvolvido uma capacidade incrível exercitando-me numa
barra em casa. Era um fator favorável que criara para mim: os outros não tinham
barra.
Ser aceito e até admirado pelo meu grupo, aos 17 anos, me fez muito bem.
E, à medida que fui mudando de corpo, mudei também minha forma de pensar.
Certas coisas que achava verdadeiras tornaram-se convicção: esse era o
caminho certo na vida, já não tinha dúvidas. Mudei até a forma de me relacionar
com as pessoas, fiquei mais sociável, mais tranqüilo, mais calmo, mais
tolerante, dominava melhor minhas emoções.
Até chegar o dia em que percebi não ser mais o discípulo do Pedro Pexexa.
A coisa foi fluindo, acontecendo e, de repente, eu é que já estava explicando a
ele como fazer cada exercício na barra fixa.
Foi um momento de muita felicidade porque, pela primeira vez, estava com
o meu mestre à frente e já ganhava dele na queda de braço, até lhe dava umas
idéias, que ele comentava: "Nuno, você tem uma imaginação, faz umas analogias,
que coisa bonita". Eu respondia: "Pedro, isso você já me falou um dia". Ele me
devolvia: "Mas não falei exatamente assim". Pedro Pexexa foi o cara que me
ajudou demais a ser quem sou, fixando valores e consolidando parâmetros de
honestidade, de respeito, de tolerância, de amor e humanismo que haviam sido
colocados fortemente por seu Ribeiro e dona Mariamélia, dois grandes amigos que
me amavam de fato e que trago comigo até hoje bem dentro de meu coração - por
sincronismo, meus pais.
Eu então já percebia que o meu espírito dependia do meu corpo e que as ações do meu corpo influenciavam as atitudes do meu espírito. Percebia, enfim, que corpo e espírito são um só.
Nascia dessa maneira uma teoria que me colocaria em
confronto com a sociedade, ainda presa a conceitos de separação de corpo,
espírito, mente e emoção.
Estávamos no início da década de 1950, lembrem-se, quando o espírito era
propriedade da Igreja; o cérebro, da universidade; e o corpo, ah!, o corpo ainda
não existia como tal.
Daí por diante, a minha vida rolou numa constante de ocorrências
positivas e extremamente gratificantes, entremeadas, lógico, de grandes choques
e desilusões com a realidade. Mas isso faz parte da vida.
O que importa é que eu tinha moldado meu corpo - a duras penas, diga-se -
e meu corpo tinha moldado meu espírito. Ambos me levaram a ter uma cabeça segura
e decidida, impedindo possíveis descontroles mentais ou emocionais. E não me
faltaram oportunidades para provar que tinha de ser emocionalmente forte e
mentalmente poderoso para não me desequilibrar e sair do eixo.
Era o início do meu método de trabalho. Eu já havia desenhado de forma
marcante a frase que seria meu lema, apesar do assombro que causava nas pessoas
havia décadas: Chegar
ao cérebro pelo músculo e ao espírito pelo corpo.
Jamais esqueceria os esportes que tanto me desenvolveram, as lutas
corporais nos fins de tarde nas barrancas do rio Pardo, as espetaculares
ginásticas que pacientemente aprendi e que seriam minhas ferramentas de
transformação.
Pedro ficaria marcado indelevelmente em minha alma pela sua simplicidade
e profunda sabedoria. Seu exemplo de caráter e profundo respeito à natureza me
acompanharia pela vida inteira. Eu costumava ficar na ponte pênsil vendo passar
as águas abruptas da corredeira. Sem me dar conta, tinha criado uma forma de
dispersar o pensamento. Chegava em casa muito bem disposto graças àqueles
momentos de devaneio.
Esse hábito de devanear acompanhou-me pela vida. Acabei incorporando uma
forma de meditação que hoje, num breve momento de qualquer situação - até mesmo
andando na calçada -, posso interiorizar-me e sentir um profundo estado de
tranqüilidade, em que o tempo deixa de existir e eu ingresso num especial estado
de consciência.
Uma tarde, já com 17 anos, sob essa mesma ponte pênsil, acabando de sair
desse estado de meditação, prometi a mim mesmo colocar minha vida no caminho de
ajudar as pessoas a se transformarem. Elegi isso como objetivo de vida e
procurei daí em diante munir-me das ferramentas necessárias para a consecução
desse ideal de vida.
Fui cursar a Escola de Educação Física para estudar o ser humano na
profundidade que fosse possível. Não esperava que essa linha de pensamento
arriscava não encontrar guarida no mundo intelectual da época. Simplesmente não
aceitavam o ser humano como um todo indivisível. A norma era que o espírito
ficasse para um lado, longe, muito longe da mente e mais longe ainda da emoção.
Foi para mim o mesmo que pregar no deserto, além de ser motivo de
chacota, a tentativa que fiz de propor um pensamento desse tipo em várias
universidades. Recolhi-me profundamente, e só consegui chegar onde cheguei por
estar fechado para a ciência da época. O resultado com meus pupilos sempre foi
tão feérico e exultante que me forneceu energia para vencer dificuldades pelo
mundo afora, como se eu percorresse uma via marginal da sociedade e do
academismo. Assim cheguei a este começo de século com idéias muito próprias, que
hoje acredito não ser tão agressivas e repudiadas. Acredito ser até mais
facilmente compreendidas, mas naquela época...
Tudo que prego foi exatamente o que aconteceu comigo. A primeira escola
de todas essas possibilidades foi minha incrível transformação e o fato de
perceber a força do corpo no contexto geral da vida, quando direcionado
corretamente. Acredito que se você próprio se transforma fica mais fácil
transformar as outras pessoas - afinal, já se sabe o caminho e pode-se enxergar
com clareza o futuro final. Quando você muda, você mesmo sempre saberá da
importância do primeiro passo e da importância das pessoas que o estimulam e o
empurram para cima.
Do livro: A Semente da Vitória, de Nuno Cobra
|
Clique na capa ao lado e compare preços do livro Conheça os segredos de Nuno Cobra, preparador do campeão Ayrton Senna! O autor é um profissional admirado e respeitado no país e no mundo como preparador físico. Seu método de trabalho, que só era conhecido pelos alunos mais próximos, agora é revelado com a publicação deste seu primeiro livro.
|