OCULTISMO
 

I

Liberdade, igualdade, fraternidade!, diz a democracia moderna. Sim, liberdade para os sábios, igualdade entre os homens elevados ao mesmo grau da hierarquia humana e fraternidade para agente de bem.

Porém servidão necessária para os insensatos, hierarquia para a humanidade inteira e guerra entre os egoístas e os malvados. Eis aí as leis da natureza.
 

II

A humanidade está colocada sobre uma escada imensa cujo pé submerge-se nas trevas e cujo cume oculta-se na luz. Entre estas duas extremidades, existem inúmeros degraus.
 

III

Aos homens da luz, as palavras claras, aos homens das trevas as palavras escuras e aos intermediários, a discussão eterna das palavras duvidosas.
 

IV

Os homens que estão acima são os videntes; os homens que estão abaixo são os crentes; os homens do meio são os sistemáticos e os que duvidam.
 

V

Os videntes são os sábios, os crentes cegos são os loucos e os que duvidam não são nada, porém oscilam entre a sabedoria e a loucura, subindo às vezes, descendo outras e não se achando bem em nenhuma parte.
 

VI

É necessário a verdade para os sábios, é necessária a dúvida para os arrazoadores, é necessária a fábula para os loucos e as crianças.

Conta uma fábula a um sábio e verá nela uma verdade. Dizei uma verdade a um raciocinador e a revogará como dúvida; dizei uma verdade a um louco e a tornará como uma fábula.
 

VII

Não se tem, pois, que falar a todos os homens da mesma forma.
 

VIII

Eis aqui porque os dogmas religiosos devem ser obscuros e até absurdos em aparência.

A religião dos sábios é a alta filosofia e a religião propriamente dita substitui, para os loucos, a filosofia da qual são incapazes. Enquanto os que duvidam, não têm nem filosofia nem religião.

Uma religião cujas fórmulas foram razoáveis, seria inútil para os sábios e desprezada pelos loucos.

A melhor religião, ou seja, a mais apropriada às necessidades da estupidez humana, deve ser, pois, a mais obscura e a mais absurda de todas e é isto que faz a superior idade incontestável do Catolicismo Romano.
 

IX

Para Os sábios, esta religião sublime é uma irmã de Caridade. Para os loucos, é a infalibilidade pessoal do Papa. Para os arrazoadores, é uma estupidez... mais forte, porém, e mais vitoriosa que a sua pretendida razão.
 

X

Não se dá a religião aos loucos com razões e virtudes; eles precisam de fórmulas ininteligíveis e práticas minuciosas que os ocupem sem que tenham necessidade de pensar. E não se pode nem sequer fazer-lhes aceitar a razão senão sob a máscara do mistério e da loucura. Se Moisés tivesse demonstrado sabiamente aos judeus que a higiene é necessária para a saúde, os judeus teriam ficado cheios de parasitas e de lepra. Em lugar de fazê-lo, ele prescreveu-lhes abluções legais em certas horas e com certas cerimônias. Deixou-lhes crer que Deus ocupava-se de suas vestimentas e de suas vasilhas. É necessário purificar os vasos, quebrar os recipientes que se tem impregnado de ar viciado ou que tem servido durante muito tempo, não ter relações com uma mulher durante seus períodos, etc., etc. Tudo isto unicamente porque Deus o ordena e tais devem ser as práticas de seu povo privilegiado. Os rabinos tem sobrepujado a Moisés e têm dado às observações legais um caráter de tirania e de absurdidade que é a própria força do Judaísmo e que o tem feito se conservar através das idades, apesar das perseguições do fanatismo e os progressos da filosofia. Eis aqui o que deveriam compreender os livres pensadores.


 ELIPHAS LEVI
 


 

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