Harmonizando Emoção e Pensamento
 

As ligações entre a amídala (e estruturas límbicas relacionadas) e o neocórtex são o centro das batalhas ou tratados de cooperação entre a cabeça e o coração, o pensamento e o sentimento. Esses circuitos explicam por que a emoção é tão crucial para o pensamento efetivo, tanto no tomar decisões sensatas quanto simplesmente permitindo pensar com clareza.
Vejam o poder das emoções de perturbar o próprio pensamento. Os neurocientistas usam o termo "memória funcional" para a capacidade de atenção que guarda na mente os fatos essenciais para concluir uma determinada tarefa ou problema, sejam os aspectos ideais que buscamos numa casa quando examinamos vários prospectos, sejam os elementos de um problema de raciocínio num teste. O córtex pré-frontal é a região do cérebro responsável pela memória funcional. Mas os circuitos que vão do cérebro límbico aos lobos pré-frontais significam que os sinais de forte emoção ansiedade, ira e afins-podem criar estática neural, sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória funcional. É por isso que, quando estamos emocionalmente Perturbados, dizemos: "Simplesmente não consigo pensar direito" e porque a contínua perturbação emocional cria deficiências nas aptidões intelectuais da criança, mutilando a capacidade de aprender.
Essas deficiências, quando mais sutis, nem sempre aparecem em testes de QI, embora se revelem em avaliações neuropsicológicas mais dirigidas, bem como na contínua agitação e impulsividade da criança. Num estudo, por exemplo, descobriu-se com esses testes que meninos de escola primária com contagens de QI acima da média, mas de fraco rendimento escolar, tinham uma deficiência no funcionamento do córtex frontal. Também eram impulsivos e ansiosos, muitas vezes perturbadores e dados a meter-se em apuros - sugerindo um falho controle pré-frontal sobre os impulsos límbicos. Apesar de seu potencial intelectual, são essas crianças que correm maiores riscos de problemas como fracasso acadêmico, alcoolismo e criminalidade não por deficiência intelectual, mas porque o controle que têm sobre sua vida emocional é insuficiente. O cérebro emocional, bastante distinto das regiões corticais reveladas pelos testes de QI, controla igualmente ira e piedade. Esses circuitos emocionais são esculpidos pela experiência durante toda a infância e deixamos essa experiências absolutamente ao acaso, para nosso risco.
Pensem, também, no papel das emoções mesmo na mais "racional" tomada de decisão. Num trabalho com implicações de longo alcance para a compreensão da vida mental, o Dr. Antonio Damasio, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, fez meticulosos estudos sobre o que, exatamente, está comprometido nos pacientes com danos no circuito pré-frontal-amígdala. 0 processo decisório deles é muitíssimo falho - e no entanto não revelam absolutamente nenhuma deterioração no Ql ou em qualquer capacidade cognitiva. Apesar da inteligência intacta, fazem escolhas desastrosas nos negócios e nas vidas pessoais e podem mesmo entrar em interminável obsessão sobre uma decisão tão simples como quando marcar um encontro.
O Dr. Damasio diz que as decisões são tão malfeitas porque eles perderam acesso a seu aprendizado emocional. Como ponto de encontro entre pensamento e emoção, o circuito pré-frontal-amígdala é uma entrada crucial para o repositório rio de preferências e aversões que adquirimos ao longo de uma existência. Desligado gado da memória emocional na amídala, qualquer coisa que o neocórtex medite não mais dispara as reações emocionais a ela associadas no passado tudo assume uma neutralidade cinzenta. Um estímulo, seja um bichinho de estimação preferido ou um conhecido detestado, não desperta mais atração nem aversão;esses pacientes "esqueceram" todas essas lições emocionais porque não têm mais acesso ao lugar onde elas estão armazenadas na amídala.
Indicações como essa levam o Dr. Damasio à posição antiintuitiva de que os sentimentos são tipicamente indispensáveis nas decisões racionais; põem-nos na direção certa, onde a lógica fria pode então ser de melhor uso. Enquanto o mundo muitas vezes nos põe diante de uma gama difícil de opções (Como investir a poupança da aposentadoria? Com quem se casar?), o aprendizado emocional que a vida nos deu (como a lembrança de um desastroso investimento ou uma separação dolorosa) nos envia sinais que facilitam a decisão, eliminando algumas opções e destacando outras no início. Assim, diz o Dr. Damasio, o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.
As emoções, portanto, contam para a racionalidade. Na dança de sentimento e pensamento, a faculdade emocional guia nossas decisões a cada momento, trabalhando de mãos dadas com a mente racional e capacitando ou incapacitando o próprio pensamento. Do mesmo modo, o cérebro pensante desempenha uma função executiva em nossas emoções a não ser naqueles momentos em que as emoções escapam ao controle e o cérebro emocional corre solto.
Num certo sentido, temos dois cérebros, duas mentes e dois tipos diferentes de inteligência: racional e emocional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas não é apenas o Ql, mas a inteligência emocional que conta. Na verdade, o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional.
Em geral, a complementaridade de sistema límbico e neocórtex, amídala e lobos pré-frontais significa que cada um é um parceiro integral na vida mental.
Quando esses parceiros interagem bem, a inteligência emocional aumenta e também a capacidade intelectual.
Isso subverte a velha compreensão da tensão entre razão e sentimento: não é que queiramos eliminar a emoção e pôr a razão em seu lugar, como queria Erasmo, mas ao contrário encontrar o equilíbrio inteligente das duas. O velho paradigma defendia um ideal de razão livre do peso da emoção. O novo nos exorta a harmonizar cabeça e coração. Fazer isso bem em nossas vidas implica que precisamos primeiro entender com mais exatidão o que significa usar inteligentemente a emoção.

Extraído do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman

 

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