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Sem remontarmos ao tempo
em que o Sacerdócio, depositário da Ciência Sagrada, traduzia os
ensinamentos desta última para o povo, em linguagem parabólica, e sem
reportar-nos ao tempo em que as nações civilizadas se orgulhavam de seus
colégios de Magos ou de Teurgos, evoquemos ainda a lembrança dessas
grandes sociedades secretas que a Franco-Maçonaria atual não passa de um
simulacro sem vida, ou melhor, um rebento degenerado. Uma vez que o Querer
infrangível - faculdade soberana do adepto - só era suscetível de
afirmar-se pela energia na luta e na constância, em vista da sorte
adversa, quem porventura aspirasse ao grau oculto deveria, ao longo de
terríveis provas preliminares(81), dar a medida de seu destemor. Porém, o
Grão-Mestre interrogava, de antemão: "Filho da Terra, que queres de nós?"
"Ver a Luz", caber-lhe-ia responder. A palavra Luz, aqui era apenas um
símbolo de Sabedoria e de Inteligência, sendo que o postulante (embora
pensasse preencher uma formalidade rotineira e banal) determinava, em
linguagem abstrata, o objeto de seu modo de agir, mesmo que o
desconhecesse. "Tu queres, Filho do Limo(82), enxergar a verdadeira Luz,
conhecer suas leis harmoniosas. Falaste sabiamente." Se há, pois, uma
denominação ao mesmo tempo sintética e sugestiva, abarcando todos os ramos
da Alta Ciência e adaptando-se a cada um deles, esta denominação é,
certamente, Ciência da Luz.
A Luz, segundo os Cabalistas, é essa substância única, mediadora do
movimento, imarcescível, eterna, geradora de todas as coisas, a que tudo
retorna no momento oportuno: receptáculo comum da vida e da morte
fluídicas em que, entre os destroços do ontem, germina o embrião do
amanhã! Corresponde ao Verbo (luz divina), ao Pensamento (luz
intelectual), ela é simultâneamente, no mundo fenomenal (e por uma
contradição apenas aparente), o esperma da matéria e a matriz das formas:
o agente hermafrodita do Eterno Devir. A luz constitui o fluido universal
imponderável cujas quatro manifestações sensíveis se denominam Calor,
Claridade, Eletricidade e Magnetismo. É a Akasa dos Hindus, Aor dos
Hebreus, o Fluido que fala de Zoroastro, Telesma de Hermes, Azoto dos
alquimistas, Luz Astral de Martinez de Pasqually e de Eliphas Levi, Luz
Espectral do doutor Passavant, Força Psíquica do ilustre químico inglês
Crookes.
Eis o ponto central da grande Síntese Mágica. Invisível tornada ou
perceptível à visão através do calor, a luz forma a dupla corrente
fluídica cujo modo de circulação, matematicamente determinável, pode ser
influenciado por quem chegou ao resultado final. Eis o agente supremo das
obras de magnetismo e de teurgia, esse Ser multiforme personificado pela
serpente da Bíblia, como vimos acima. Conhecer as leis das marés fluídicas
e das correntes universais é, como diz Eliphas, possuir o segredo da
onipotência humana: descobrir a fórmula prática do incomunicável Grande
Arcano.
Essa luz, dizem os adeptos, é andrógina. Seu duplo movimento efetua-se
incessantemente, sendo determinado por sua dupla polaridade. I Y } é a
corrente positiva ou de projeção, enquanto P Y } é a corrente negativa ou
de absorção. A um dado ponto de sua evolução rigorosamente invariável, a
Luz Astral se condensa, e de fluídica torna-se corporal. É então a matéria
ou misto coagulado. (São distintas as expressões usadas pelos alquimistas.
Estes chamam Aod de Enxofre, fervor seco ou calor inato; Aob, de Mercúrio,
dissoívente universal ou radical úmido; o misto coagulado é, para eles,
Sal ou Terra Vermelha.)(83) Como se pode observar, por mais que varie a
terminologia, a doutrina permanece idêntica. E uma vez que tudo vem da
Luz, pode-se dizer que a ciência deste agente primordial revela a gênese
absoluta da matéria e das formas.
Uma palavra desta teoria aplicada ao zoomagnetismo fornecer-nos-á a chave
do Sonambulismo artificial, da Segunda Visão, das Miragens condensadas
(aparições), dos envultamentos criminosos - em suma, de todos esses
fenômenos espantosos cuja realidade é contestada pela ciência oficial, nos
limites cada vez mais restritos do possível: pois o simples enunciado de
semelhantes fatos - e disso ela tem plena consciência - invalidaria a
priori diversas "leis fundamentais" que ela promulgou do alto de sua
infalibilidade secular.
Há no homem, segundo a magia, três elementos radicais: a Alma (elemento
espiritual), o Corpo (elemento material) e o Perispírito ou Mediador
(elemento fluídico); assim, a criatura de Deus (como Ele, Tríplice e Una)
é feita, realmente, à sua imagem e semelhança(84). A alma espiritual
seria, aliás, inábil para fazer-se obedecer pelo corpo material sem a
interferência de um Mediador Plástico procedente de ambos, mediador que
aciona diretamente o sistema cérebro-espinhal, encarregado, por sua vez,
da transmissão das ordens do Querer aos órgãos físicos. Denominados,
também, de Corpo Astral, este mediador, composto de luz bipartida fixa ou
especificada (fluido nervoso) e de luz bipartida volátil (fluido
magnético). O fluido nervoso comanda a economia vital; o fluido magnético,
que não é senão a luz ambiente, aspirada alternadamente, de um modo
análogo ao da respiração pulmonar, põe o perispírito em contato direto com
o mundo exterior. Ora, uma vez que este Mediador Plástico, exercido
convencionalmente, segundo sua própria vontade, pode coagular ou
dissolver, projetar ao longo ou atrair uma porção do fluido universal, ele
possibilita ao adepto influenciar toda a massa de luz astral, nela criando
correntes e produzindo, enfim - ainda que à distância -, fenômenos
surpreendentes que a ignorância comum qualifica como milagres ou perversas
artimanhas do diabo, quando não acha ainda mais simples negá-los
obstinadamente.
Stainlais de Guaita - No Umbral do Mistério
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