DESCOBRINDO QUEM SOMOS
Uma vez que tenhamos alcançado a
experiência transcendental e estando abertos para um fluxo maior de energia e
segurança interior, algo muito profundo começa a ocorrer: começamos a enxergar
nós mesmos e nosso comportamento de uma perspectiva mais elevada, do ponto de
vista do nosso Eu mais energizado. O sentido de identidade supera as reações de
insegurança do nosso ego e assume o ponto de vista de uma testemunha, agora
identificado com toda a criação divina e apto a ver com nova objetividade o
nosso Eu definido pela sociedade.
A partir desse ponto de vista, acredito que uma das primeiras coisas que
observamos nitidamente é como nós pessoalmente reagimos sob tensão. Pela
primeira vez podemos ver com clareza o nosso próprio drama de controle. Isso
pode acontecer em qualquer lugar: no trabalho, no mercado, talvez durante uma
conversa com alguém importante em nossa vida. A princípio estamos vivendo
plenamente a nossa nova abertura quando acontece alguma coisa; a situação fica
tensa e nós retornamos ao nosso antigo drama.
Fazemos força para manter a energia do nosso Eu superior, manter a posição de
testemunha, mesmo que parte de nós continue com o comportamento defensivo. É
nessa ocasião que podemos ter uma sensação de revelação a respeito de nós mesmos
ao observarmos os nossos atos. Antigos comentários sobre os nossos padrões e
roteiros, comentários que na época negamos com tanta veemência, podem ressurgir
à tona com uma nova legitimidade. Podemos até pensar: "Então é assim que eu
realmente me comporto sob pressão,"
Podemos estar vendo um Coitado de Mim tentando criar culpa, o alheamento de um
Distante, as críticas de um Questionador ou a postura atemorizante de um
Intimidador. De qualquer maneira, passamos pela experiência de enxergar todas as
nossas manipulações para obter energia das outras pessoas.
Então a pergunta se impõe: de onde se originou esse nosso comportamento e o que
podemos fazer a respeito disso?
Esse questionamento nos remete às pesquisas pioneiras dos anos 60 e 70 a
respeito da dinâmica familiar. Sabemos que é a família, especialmente os pais, a
estrutura da nossa primeira exposição ao mundo. (Se nossos pais não estavam
presentes, havia outras pessoas assumindo esse papel.) Ao imitar-lhes as
atitudes e o comportamento, aprendemos com essas pessoas a nossa primeira noção
do que é o mundo.
Como o psicólogo James Hillman deixa bem claro em seu recente livro O Código do
Ser,1 todos nós chegamos a este mundo dotados de caráter e vocação, mas a névoa
do nascimento obscurece essa compreensão de nós próprios, e os esforços da
infância podem ser intensos e muito assustadores. Quando nascemos, perdemos a
nossa ligação segura com o amor e a energia divinos — de repente nos tornamos
dependentes dos outros para obter alimento, proteção e segurança.
Com demasiada freqüência, recebemos amor e energia de menos, porque as pessoas
que nos criam têm pouco para dar e funcionam através dos próprios dramas de
controle. Alguns pais sugam inconscientemente a energia de seus filhos pequenos,
forçando-os a moldar seus próprios dramas para poderem se defender. Por exemplo,
um Coitado de Mim pode estar sempre diminuindo o filho por este ajudar em casa,
ou até mesmo culpá-lo por seus problemas, dizendo algo como: "Se eu não tivesse
você, poderia ter ido longe na minha carreira. O pai Distante mostrar-se-á
ausente, insinuando que seu amor não é incondicional. Um Questionador irá
encontrar defeitos constantemente. E um Intimidador criará um clima de medo.
Quando crianças, a princípio acreditávamos nesses dramas, permitindo que nossa
energia fosse sugada. Mas em certo ponto nossas defesas foram estimuladas e
começamos a desenvolver nossa própria estratégia para fazer cessar a perda de
energia e auto-estima. Para com o Coitado de Mim e o Distante, em geral
desenvolvemos uma postura de Questionador, combatendo o sentimento de culpa ou
reprimindo o distanciamento com uma crítica de determinada característica ou
atitude que encontramos neles. Para com um Questionador, podíamos questionar de
volta, ou adotar a fachada indiferente do Distante.
O caso do Intimidador é mais complexo. Quando a situação da criança é de abuso e
medo, a maioria reage a princípio com o drama do Coitado de Mim. Se o
Intimidador aceita a culpa e começa a dar energia de volta, a coisa acaba aí.
Mas se a atitude de Coitado de Mim não funcionar, o único recurso contra essa
ameaça mortal que é o furto de energia é a criança virar ela própria um
Intimidador — às vezes contra aqueles que tentam intimidá-la, porém com
freqüência contra crianças menores ou pessoas com menos poder.2
Sustentados pelo nosso atual nível de energia mais elevado, enfrentamos agora um
desafio ao prosseguimento da nossa evolução. Uma vez que estudemos de perto a
dinâmica do ambiente familiar da nossa infância, por mais traumatizante que ele
possa ter sido, devemos evitar a tendência para a culpa e o ódio. Como veremos
mais tarde, o progresso da nossa consciência está nos levando, em última
análise, a ver tudo que aconteceu na nossa vida pelo ponto de vista de uma
dimensão além da morte, através do qual sabemos que no ponto máximo da nossa
união com o divino escolhemos as circunstâncias em que nascemos. Podemos ter
tido a intenção de que tudo saísse de maneira diferente, mas queríamos começar
exatamente como começamos.
Se encontrarmos em nós mesmos a necessidade de culpar os pais, ou os irmãos, ou
qualquer outra pessoa que tenha feito parte do início da nossa vida, isso
acontece em geral porque a culpa é em si mesma parte do nosso drama de controle:
contamos a história dos nossos sofrimentos para obter solidariedade ou energia,
ou a usamos para racionalizar a nossa estratégia de Distantes ou Questionadores.
É por isso que não conseguimos perseguir por completo uma união energética
interior com o divino até nos libertarmos do nosso passado. Não podemos ir
adiante e continuar a expandir a nossa energia porque a culpa sempre nos leva de
volta ao antigo drama.
Só o perdão consegue liberar totalmente o nosso potencial de superar esses
roteiros repetitivos que desperdiçam nosso tempo. E creio que o perdão precisa
ser expresso e demonstrado para poder ser totalmente libertador. Muitos
terapeutas recomendam escrever uma carta para cada pessoa a quem culpamos,
oferecendo o nosso perdão. Isso não significa que precisamos conviver com essa
pessoa; essa carta servirá apenas para limpar o terreno para que uma nova vida
possa brotar. O perdão reforça aquela consciência superior testemunhal que já
conseguimos atingir. A chave para o perdão é simplesmente reconhecer que todos
estavam agindo da melhor maneira possível na ocasião.
Texto extraído do livro: A visão celestina: vivendo a nova consciência espiritual, de James Redfield. Conheça os livros desse maravilhoso escritor, clique aqui.
Veja muito mais no site: